Detetive Cavalcante e o Presunto do Arouche
Dezembro 31, 2007
Não que não aconteça nada na vida do famigerado detetive-modelo Arnaldo Cavalcante (leia o início da saga). Contudo, com seus 43 anos de idade, e 24 de polícia civil, jamais fora chamado para atender a uma ocorrência de assassinato. Cavalcante não sabe, mas isso está para mudar.
Domingo, nove da manhã. Cavalcante já está de pé há duas horas, com seu sempre prestativo parceiro Marçal (ou nem tão prestativo – leia o 1º capítulo da saga), e iniciava a importantíssima rotina de domingo – ronda nas ruas do centro. Como era tradicional, a chance de algo ocorrer era de 0,0001% e Marçal e essa altura já dormia, como sempre.
O rádio foi acionado. Alguém chamava o policial mais próximo do Largo do Arouche. A ocorrência? Um 121… assassinato. Cavalcante não conteve o entusiasmo e, embora Marçal tentasse diassuadi-lo, informou à central que estava a caminho.
Os dois pararam o carro e Cavalcante apressou-se em dispersar a multidão. Obviamente Cavalcante não era capaz de perceber que as pessoas, de um modo geral, não abandonariam o local, pois estavam cagando para o fato de ele ser ou não policial.
Uma vez visualizado o corpo, Cavalcante deu um pulo, caiu em cima do corpo do rapaz e logo pensou, de modo “esperto”: “e se ele apenas está desacordado? Devo socorre-lo? Agir como se estivesse morto ou tentar reanimá-lo”?
A decisão foi tomada. Cavalcante agora fazia massagem cardíaca e soprava entre os lábios do rapaz freneticamente, tirando-lhe o pulso a cada meio minuto. Nada. Cavalcante sentia-se mal… não fora capaz de salvar uma vida. Pesaroso, levantou-se e disse a todos: “o rapaz está morto minha gente, não há mais o que ver aqui”. Sim, Cavalcante assistia TV demais.
O carro do IML chegou rápido e levou o corpo. Cavalcante e Marçal foram embora. Cavalcante não se conformava. “Talvez se tivéssemos chegado um pouco antes, poderíamos tê-lo salvo”. Marçal ignorava e acendia mais um cigarro.
No dia seguinte, o IML enviou o laudo à delegacia. Cavalcante correu à frente de todos, queria saber como o rapaz poderia estar morto, mesmo depois de suas inúmeras tentativas de reanimá-lo.
O laudo foi bastante conclusivo. “Erasmo Darcy Gonçalves” era o nome do sujeito. Na noite de sábado, recebera dezessete tiros, cinco deles entre a nuca e a cabeça. Não contente, o assassino terminou o serviço dando mais sete facadas no peito da vítima. Cavalcante não abriu a boca, mas lembrou-se da ligação que a esposa lhe fizera minutos antes, falando a respeito de umas “porras de manchas de sangue que não saíam da camisa”.
Contra Fatos Não Há Fotos – “Woody G”
Dezembro 30, 2007
Cansado de filmar roteiros de longas feitos apenas para estudantes de jornalismo com veia intelectualóide, Woody Allen resolveu apelar para o mundo da música, lançando na carreira de solista em instrumentos de sopro, como o clarinete.

Não é nenhum gênio da música, mas ouvintes admitem que Allen rivaliza com grandes “ídolos” da música de consultórios odontológicos. “Ele realmente é bom. Tão chato e repetitivo quanto Kenny G, embora eu ainda prefira os cabelos de Kenny”, afirmou um crítico musical.
Ídolos da Sessão da Tarde V – “Chong Li”
Dezembro 30, 2007
Eu podia escolher o Van Damme, mas não. Todos sabemos que o verdadeiro ídolo do filme O Grande Dragão Branco é o antangonista: o monstruoso chinês conhecido como Chong Li, cujo nome na verdade é Bolo Yeung.

Van Damme é ridículo. Em 1988, quando fez o filme, Bolo Yeung já tinha 50 anos. Sim, é verdade, o ator (ahahahah!) nasceu na China em 1938 e ano que vem completa 70. Pois bem, um cinquentão que quebra todo mundo ao meio e só não racha o crânio do Van Damme porque não é o ator principal.
Além disso, Bolo Yeung tem mais dois méritos. Primeiro, na cena em que joga o “pózinho” no olho de Van Damme (Frank Dux, no filme) e o faz demonstrar a pior atuação de cegueira da história do cinema. Mas o melhor de tudo – Yeung tem duas ou três falas durante todo o filme, mas profere a melhor delas na luta final, quando os adversários se “cumprimentam”.
Ele aponta o dedo para Van Damme e manda: “you break my record, now I break… YOU, like I break your friend”! Aqui, Yeung atinge o nível divino. Parabéns, Bolo, você é o Ídolo da Sessão da Tarde de hoje.
Arnaldo Cavalcante, o Detetive Modelo
Dezembro 29, 2007
Duas da manhã, Baixada do Glicério. O detetive Cavalcante passeia pelos escombros do Elevado, enquanto seu parceiro fuma um cigarro, olhando para a janela com cara de merda. Cavalcante rodara sem parar durante as últimas duas horas e, por mais que Marçal insistisse, não parava em butecos. “Nunca se sabe quando teremos uma ocorrência”. Marçal perdera o bolão da Copa, ficara em último lugar. O prêmio maior pagava mil reais. Para o perdedor, dois anos com Cavalcante.
Cavalcante não jogava. Não bebia. Não fumava. Casara-se com dezessete, com uma prima de segundo grau… virgem. Resolvera ser policial para servir como o pai, este último coronel reformado. A caserna não era mais a mesma, mas havia alguma dignidade na polícia.
Todos odiavam Cavalcante. Com 43 anos, mantinha conduta modelo em tudo que fazia. Era como um policial certinho de filmes americanos, numa versão sem qualquer glamour e sem histórias marcantes.
Ainda dirigia um Opala. Achava que polícia tinha que ter distinção e tradição. Respeitador, o detetive não revistava, fazia “averiguações”. Não prendia, “arrestava”. Não emprendia emboscadas, “dava voz de prisão”.
Duas e meia da manhã. Marçal insiste que a ronda acabou, mas Cavalcante segue. O turno vai até as quatro. Marçal dorme. Súbito, Cavalcante acorda Marçal aos berros – uma ocorrência. Um elemento de vinte e poucos anos sai em disparada da Igreja Universal do Reino de Deus. Pessoas gritam à porta do templo.
Cavalcante acelera a viatura o mais que pode (80 km/h) e vai ao encalço do elemento, que agora mais de perto, parece gritar além de correr. Pára o carro metros adiante do rapaz que corre, desce da viatura, mostra o distintivo e o revólver e atira para o alto. Parece uma cena dos vídeos “As Fugas Mais Incríveis”.
Ao descer da viatura, Marçal põe a mão na cabeça. Cavalcante está com o rapaz algemado, que ainda treme e grita. Algumas pessoas que estavam à porta do templo se aproximam. Cavalcante prendera um “encosto”.
Ainda sem entender, Cavalcante vira para o parceiro e exclama: “esses trombadas de hoje, cada vez com reações mais bizarras”. Marçal dá de ombros, solta o rapaz e pede desculpas aos pastores, que a essa altura já colavam a viatura, putos pela intromissão em sua “Sessão Descarrego”.
Marçal puxa o companheiro em direção à viatura, dizendo “bora, Cavalcante, a ronda acabou”. Cavalcante responde de chofre: “não, não, são só três e quinze. O que é certo é certo”.
Marçal larga o companheiro e corre, a ponto de alcançar um dos pastores que iam em direção à Igreja. “Por favor, tem como incluir meu nome na lista de oração”?
Ídolos da Sessão da Tarde IV – “Braddock”
Dezembro 28, 2007
Chuck Norris é Chuck Norris, mas Chuck Norris nunca foi tão Chuck Norris quanto em “Braddock, o Super Comando”. O filme deu origem a mais dois posteriores, um deles no qual Norris mata um rato a mordidas – isso já o faria foda o suficiente para sustentar o título de hoje, mas há muito mais.

Filho de mãe irlandesa e pai alcóolatra de origem Cherokee, Norris interpretou (???) seu melhor papel em Braddock. Matando a esmo vietnamitas, americanos, cambojanos, russos ou o que quer que seja, o super comando não sabe o que é o medo, o que é a covardia e nem o que é a interpretação dramática. Norris, pela primeira vez, é nosso Ídolo da Sessão da Tarde, hoje como Braddock.
Dicionário Corporativo Moderno – “Feedback”
Dezembro 27, 2007
Feedback. s.m. 1. Em inglês de negócios, poderia ser encarado como uma espécie de posicionamento a respeito de algo. No Brasil, utilizado como uma espécie de retorno posterior para aquelas pessoas que não têm a menor idéia de onde querem chegar. Exemplo: Márcio, você pode levar o projeto adiante, mas preciso de um feedback. Não há qualquer necessidade desse feedback ser um relatório, email ou qualquer outra coisa. Na verdade, o executivo quer apenas dizer o seguinte: “vá em frente, você é meu subalterno, mas manja mais que eu dessa merda. Só para não ficar feio para mim, vai dando um toque para que eu colha os louros junto à diretoria”.
O Homem e o Mundo I – “A Pashmina”
Dezembro 27, 2007
O mundo do homem pode ser definido em três palavras: prático, confortável e, principalmente, imutável. Assusta o fato de as mulheres (pode-se incluir as bibas aqui) dominarem um número de vocábulos praticamente duas vezes maior que o dominado pelos homens.
Não é brincadeira. A começar pelas cores. Quando se diz “azul” uma única coisa vem à cabeça dos homens, o azul. Quanto às mulheres, isso traz lembranças do azul, do azul-bebê, do turquesa, do anil, do água, etc, só se atendo aos tons mais comuns.
Bom, a história começa com a biba ótima que trabalha comigo. Numa terça-feira despretensiosa, o rapaz me aparece com uma peça negra, de tecido parecido com lã, enrolado em seu pescoço. Como bom homem, nada comento ou observo.
Não tarda muito e uma das meninas lança “bonita pashmina”. Parei. Estava numa ligação e disse que chamava mais tarde, que me desculpasse. Desliguei. Como bom homem, apenas uma frase veio à tona: “que caralho é uma pashmina”?
O alegre rapaz se apressou em explicar: “é uma espécie de cachecol, mas é mais larguinho”. Bem, convenhamos, se é “uma espécie de cachecol”, é um cachecol, porra! Não, ouvi durante quinze minutos histórias fabulosas sobre a origem e trajetória da pashmina, bem como cogitações acerca da etimologia do vocábulo. Perplexo, dei-me por vencido, eu sabia o que era uma pashmina.
O tempo passou e viajei a Buenos Aires. Passando por uma banca de rua, exclamei, de mãos dadas com minha namorada: “veja, uma banca de pashminas”! Ela não fez menção ao fato de eu saber o que é uma pashmina. As mulheres de hoje não sabem mais apreciar um homem rústico e tradicional. Assim, não aguentei e tive de presenteá-la com uma pashmina… era linda…
Dicionário Corporativo Moderno – “Liderança”
Dezembro 26, 2007
Liderança. s.f. 1. Qualidade desejável em todo funcionário de uma grande corporação atual. 2. Propriedade de vender os ideais da empresa em que trabalha para seus subalternos, sem questioná-los e, sempre que possível, fazendo com que esses também não os questionem. 3. Característica de se repassar ordens e tê-las obedecidas, embora as ordens já tenham sido dadas por teceiros. 4. Disposição para se foder em nome de terceiros, sejam eles superiores ou subalternos.
Ídolos da Sessão da Tarde III – “American Ninja”
Dezembro 26, 2007
Um, dois, três, quatro, cinco… cinco filmes. Michael Dudikoff fez uma caralhada de filmes, sempre com a mesma cara blasé, mas nenhum é tão insistente e ignorante como American Ninja ou American Ninja 2: The Confrontation ou American Ninja 3: Blood Hunt ou American Ninja 4: The Annihilation ou ainda American Ninja V (mudou para algarismo romano para ver se colava outra vez).

Em sua moto esportiva com sua expressão tranquila, ninguém dá porra nenhuma para ele. Mas quando veste seu agasalho ninja da 25 de Março vira “fera”, fode com todo mundo do filme e termina sempre com alguma candidata a atriz pornô de segunda. Ele não tem pinta de herói porra nenhuma, mas é nosso Ídolo da Sessão da Tarde de hoje.
Cervejas, 300 reais e uma história de Natal
Dezembro 25, 2007
Não gosto do Natal. Acho uma data que exalta os sentimentos de hipocrisia humanos. As pessoas abraçam pessoas as quais assassinariam com a mesma facilidade com que abraçam seus parentes mais queridos.
O fato é que este Natal, para mim, não foi diferente. Fui obrigado a quebrar um pau com minha possessiva e conservadora mãe, que deu suas “opiniões” sobre o fato de eu resolver passar parte do Natal (digo parte porque passaria com ela até onze e pouco) na casa de minha namorada. As mães costumam reduzir seus QIs a níveis de equinodermos todas as vezes que há uma possibilidade de que seus filhos deixem a casa. Minha mãe atuou como um pepino-do-mar esta noite de 24 de dezembro.
Eu poderia ter deixado barato, mas não o fiz. Não feche jamais a porta na minha cara – ela será desintegrada por um ’roundhouse kick’ imediatamente. Foi o que ocorreu. Resultado: machuquei o pé e mandei tudo à merda, resolvendo guiar sem rumo durante a noite de Natal.
Vaguei por quase uma hora. Precisava me abrir com alguém, mas não queria que fosse alguém conhecido. Vaguei por mais meia hora. Resolvi parar em um posto de gasolina e tomar uma cerveja, além de comprar cigarros, pois os meus haviam acabado.
Não havia ninguém no posto exceto pelo frentista, o rapaz da loja de conveniência e um outro cara de boné, com seus vinte e poucos. Este último ficou olhando enquanto eu descia e comprava cigarros.
Logo descobri. Assim que saí da loja, o cara deu voz de assalto. Armado, parecia nervoso. Pedi calma, dizendo que ali não havia mais ninguém e que ele não precisava ter pressa. Foi então que tive um estalo e, uma vez que o rapaz pareceu acalmar-se, comecei a falar:
- Então.. estou com 300 reais do limite no 24 horas ainda. Posso sacar para você, de boa, é só ter calma, amigo.
- Firmeza, mas saca logo então, eu espero aqui fora. Mas tô de olho, hein boy!!!
- Sossegado, sem problema. Aguenta um minuto aí.
Qual não foi a cara de surpresa do maluco quando voltei com os 300 reais na mão e mais duas latas de cerveja. “Você é meio zoado das idéia, né boy?”
Eu disse para ele que não. Disse que, já que eu já havia sido assaltado, então que se foda. Eu estava na merda em uma noite de Natal; ele, na mesma. Vamos tomar uma cerveja então e jogar conversa fora. Não paga nada.
Ainda estupefacto, o meliante botou a arma no bolso e pegou a lata. “Mas nem vem com gracinha, boy, senão te furo geral”. Disse a ele que ficasse tranquilo, que eu só queria alguém para trocar idéia e meter o pau nos filhos da puta da família.
O começo foi bastante artificial, mas em vinte minutos conversávamos como amigos de infância. Os caras do posto e da loja não entenderam merda nenhuma. Ele contou sobre seu filho, que estava com cinco anos, mas cuja mãe não deixava sequer vê-lo. Teve de enviar o presente do moleque pelo Sedex. Sua mãe e seu pai moravam em Crato, no Ceará, e em São Paulo tinha apenas um tio. Um belo filho da puta, o tio. Gastava o salário de gari para comer prostitutas no Glicério e uma vez por semana levava um leitinho para casa. Em compensação, chegava mamado de cachaça.
Conversamos durante três horas. Seis ou sete latinhas cada um, uma garrafa de Red Label 400ml e até uma Smirnoff Ice. O cara já estava bêbado, não falava mais coisa com coisa e evidentemente havia até mesmo esquecido que me assaltara.
A hora havia chegado. Eu estava mais calmo. O desabafo funcionara. Disse a ele que iria ligar para minha namorada, se ele não se importava. Ele falou que não tinha problema. Afastei-me uns dez metros, enquanto ele continuava bebendo cerveja.
Fui rápido e profissional. Liguei para o 190, passei endereço, descrição do cara, horário da ocorrência e afirmei que o elemento ainda estava no local. Voltei, sorrindo perguntei se ele aceitava a “primeira saideira”, e o rapaz fez que sim.
Em cinco minutos a polícia chegou. Corri algum risco do lado do cara, mas o álcool fez com que ele demorasse a perceber. Quando se deu conta, estava algemado, com a cara no chão e me xingando. O policial me fez algumas perguntas. Disse que o cara teria 300 reais no bolso. O policial recolheu e me devolveu. Ofereci um café aos policiais, mas eles declinaram, queriam “conversar com o filho da puta que arrancou eles da delegacia no Natal”.
O cara chorava, me xingando de “traíra”, filho da puta e uns elogios mais. Agradeci. Antes um pouco de meterem o gatuno no camburão, ele perguntou: “cara, você é doido… achei que a gente tava ficando bróder!”
Foi então que simplesmente saiu: “bróder? Você é a doença, eu sou a cura”. Obrigado, Stallone Cobra e Feliz Natal para você e todos os seus.