Marília morava ao lado do quartel da Vila Mariana. Desde pequena, sempre gostava de ficar horas no quintal de casa, observando os soldados e oficiais que iam e vinham fardados. Era fascinada por uniformes – já tivera namoros com bombeiros, policiais, motoristas de ônibus e até um atendente da TAM. Mas nenhum uniforme superava uma farda militar. Infelizmente, ainda que tivesse fixação na coisa, jamais havia tido a oportunidade de se relacionar com um milico.

Um dia, quando descia a rua para ir à padaria, prestando atenção na lista de comprar que sua mãe havia preparado, esbarrou em um rapaz de farda. Ao abaixar para recolher suas coisas, bateu o olho na farda e entendida que era, logo disse “desculpe, tenente”. O rapaz achou admirável que uma mulher, apenas de relance, pudesse reconhecer uma patente militar. Disse que não era nada e a convidou para um café na padoca.

A conversa foi boa e marcaram de sair. Em poucos meses estavam saindo quatro ou cinco vezes por semana. A mãe gostava do rapaz e pressionou Marília, e os dois acabaram casando. A menina acompanhava o marido – Gerson – para todo canto. Porém, aos finais de semana sempre arranjava algum compromisso religioso, de família ou algo beneficente.

Passado um ano, Gerson foi promovido a capitão, em mais cinco meses era major, e quatro anos depois, alçou um posto de coronel. A farda ia mudando e a felicidade de Marília, aumentando.

Todos estavam estupefactos com a carreira e evolução meteórica de Gerson, embora ninguém soubesse exatamente dizer porque ocorrera. O fato é que, uma vez coronel, Gerson não mais teve promoções de patente.

Quase dez anos se passaram e nada de aparecer uma chance para que se tornasse general. O general Laerte era quem mandava e desmandava na Vila Mariana e foi aquele responsável por todas as promoções de Gerson. Estranhamento, os dois nunca tinham se falado mais do que um minuto.

Mais algum tempo se passou e, aos 67 anos, o general Laerte faleceu. Mesmo postumamente, logrou a derradeira promoção para Gerson. Em uma carta, Laerte deixara uma recomendação de Gerson para assumir seu posto. O rapaz, agora um homem de 48 anos, foi convertido em general.

Após duas semanas ocupando a cadeira, recebeu uma carta. Era de Laerte. Abriu curioso o conteúdo da missiva e terminando, ligou para a mulher e imediatamente depois para seu advogado, pedindo para que procedesse o divórcio.

O conteúdo? Era este: “Caro Gerson, no exército existem duas formas de se alcançar tão rapidamente uma promoção – ou pela guerra ou pelo sexo. O Brasil é um país sem guerras. Quanto ao sexo… sua esposa possui fascínio por fardas e uniformes, mas digamos que ela gosta mesmo é de três estrelas no ombro. Boa sorte com a nova patente. Assinado: Laerte”.

1. Vou ter que ficar muito tempo aqui? (Campeão, o maluco na sua frente é “otôridade”, não tolera palhaços apressadinhos. Agora, senta do lado do tiozinho que teve a carteira batida e não torra o saco)

2. Vocês têm cela especial? (Que merda de pergunta é essa? Faz o seguinte – faça uma cagada qualquer e vá em cana, eles terão um cela ‘especial’ pra você com 25 malacos mal-encarados)

3. É aqui que eu faço o B.O.? (Não, idiota. É na farmácia em frente. Que tipo de débil-mental vai até uma delegacia sem saber que ali fazem boletins de ocorrência)

4. Você poderia ir mais rápido, tenho um compromisso? (Claro que poderia. Mas não vai. E já que você fez a merda de perguntar, pegue o celular e desmarque o compromisso)

5. O senhor é o delegado plantonista? (Não. Ele acabou de dar esporro em todos os policiais porque na verdade é motoboy – só não foi em cana porque, apesar de motoqueiro, é filho do governador)

Erick passou cinco anos estudando para o Instituto Rio Branco. Passou. O rapaz era inteligentíssimo e formou-se diplomata nos quatro anos propostos. Falava inglês e espanhol quando entrou, ao sair somou o francês, o russo e o mandarim a seu vocabulário. Aos 32 já havia viajado a metade dos países do globo, mas uma coisa ainda não tinha encontrado: o amor de sua vida.

Um belo dia, enquanto chegava com o carro oficial no prédio do Ministério das Relações Exteriores, deu de cara com uma passeata, ou protesto, ou o nome que se queira dar. Algumas dezenas de manifestantes reclamavam da postura pouco solidária dos diplomatas brasileiros em relação a países pobres. “Que povinho bosta”, pensou logo Erick. “Pra quê precisaria um diplomata perder seu tempo em países pobres… foda é negociar com rico, porra”!

Mas com uma coisa não contava. Ao chegar na porta do ministério, viu de canto de olho uma das meninas que estavam na multidão. Foi instantâneo, se apaixonou. Saiu correndo do carro e foi em direção ao tumulto, e disse que levaria um dos membros da manifestação para conversar. Obviamente escolheu a menina que fixara segundos antes.

Telma era o nome. Erick ficou maravilhado, embora tenha ouvido a palavra “burguês” e o vocábulo “neoliberal” dezenas de vezes. Ouviu atenciosamente e quando a menina tinha terminado, mostrou suas anotações e disse que encaminharia diretamente ao ministro o quanto antes.

A menina deu-se por satisfeita e, quando saía da sala, Erick a puxou pelo braço. “Quer sair comigo”? A donzela, atônita, demorou alguns segundo para responder. Ainda que tenha se esforçado, Telma só conseguiu proferir um “tudo bem”. Trocaram telefones.

Erick foi bastante esperto, levando a moça para jantar em um restaurantezinho bastante popular na cidade-satélite de Gama. A garota ficou impressionada que um diplomata pudesse ser tão “do povo”.

Saíram mais algumas vezes e começaram a namorar. Enquanto Telma passava a Erick suas doutrinas de responsabilidade social, ambiental e socialismo, Erick lhe ensinava política, línguas, economia e legislação internacional.

Juntaram trapos dois anos depois e viveram felizes por algum tempo. Até que Telma, já formada em Relações Internacionais, recebeu uma proposta de um instituto norte-americano. Erick a apoiou, dizendo que aceitasse a oportunidade.

Seis meses se passaram sem que Telma voltasse. As notícias rareavam e Erick entrou em depressão. Largou o ministério e decidiu seguir o legado da companheira – meteu-se em todo tipo de ativismo internacional, até que chegou à Anistia Internacional.

Alguns meses de militância depois, foi enviado aos Estados Unidos. Já eram cinco meses sem notícias de Telma. Chegando lá, descobriu que participaria de uma manifestação contra o tratamento dado a imigrantes ilegais mexicanos nos EUA. Em frente a um prédio da Imigração em Washington, ele juntou-se à turba. Em alguns minutos avistou uma limusine chegando e companheiros disseram que os adidos dos EUA para relações com o México estavam todos no carro.

O carro parou e quatro pessoas desceram. De relance, Erick pôde ver, completamente embasbacado, que Telma era uma dessas pessoas. Atropelou meia manifestação para chegar à frente da turba, no raio de visão de Telma.

Quando encontraram olhos, Erick fitou-a emocionado, quase chorando, mas Telma, embora tenha reconhecido, pareceu não despender qualquer expressão. Erick esperou que ela o chamasse, como ele havia feito anos atrás.

Telma segurou um de seus colegas pelo braço e disse algo, em seguida caminhou em direção à multidão. Erick já quase estendia seus braços… mas súbito, Telma parou em frente a um dos policiais que comandava a operação de contenção do movimento. Disse duas ou três palavras ao policial, virou-se e voltou em direção ao prédio da Imigração.

A polícia avançou e reprimiu duramente os manifestantes. Erick voltou ao Brasil mais deprimido do que nunca. Já em casa, deparou com uma única carta na caixa de correio – tinha o selo do governo norte-americano.

Abriu e leu. Em poucas palavras, numa carta que mais parecia um telegrama, Telma pedia desculpas sinceras pelo ocorrido, e dizia que tinha tido o mesmo impulso que Erick tivera anos antes, no entanto, em seu posto, jamais incorreria em tamanha falta de profissionalismo.

Leis e costumes que só provam que há gente demais no mundo. Se você estiver em Indiana, nos Estados Unidos, nunca…

…venda um carro no domingo. É ilegal.

…faça sexo oral. É vedada a prática por lei.

…dirija um carro com uma menor sem sapatos e meias no acompanhante, caso você seja homem. Você pode ser preso por estupro.

…compre um refrigerante gelado em uma loja de bebidas alcóolicas. É ilegal.

…deixe de rezar por um dependente seu que passa por cuidados médicos. Você não terá de pagar a conta.

E só para lembrar, o número Pi é igual a 3.

Graziela estava de saco cheio da universidade. Não gostava tanto assim de Sociologia e, agora que estava prestes a se formar, começava a se preocupar com a profissão. Que rumos pode tomar um sociólogo, além de dar aulas. Não tinha perspectivas e faltava muito pouco para que mandasse tudo à merda.

Faltava um mês para a formatura e conheceu Roberto, um mirrado professor de história que, apesar de delgado e franzino, era bastante bonito. Um dia resolveu usar seu trabalho de conclusão sobre a Diáspora para aproximar-se dele.

Muito sério, Roberto manteve a compostura, sugeriu uma bibliografia extensa e deu seu telefone, caso Graziela “precisasse de ajuda”. Graziela não precisava de tanta ajuda assim, mas até que precisava de um homem.

As amigas encheram o saco, pois o cara era mesmo mirrado, mas ela acabou ligando assim mesmo. Disse querer ouvir as “teorias” de Roberto sobre a diáspora judaica. Marcaram um encontro… um café.

Assim que ambos chegaram, trocaram uns 15 minutos de papo sobre a história de judeus e hebreus, mas logo Graziela perdeu a paciência e lançou um “professor nunca beija na boca”? O resultado… sim, transaram naquela noite.

O namoro acabou vindo como consequência. As amigas não podiam acreditar, mas Graziela não estava brincando – além de inteligente, Roberto transava bem, muito bem por sinal. Bem, isso acabou sendo motivo mais do que suficiente para o posterior casamento.

Além disso, Graziela terminara a dissertação de mestrado – claro que Roberto ajudou, e como ajudou. Mas Graziela era uma mulher inteligente. Só que com o tempo e a proximidade das profissões, tornou-se inevitável espelhar sua carreira no conhecimento histórico de Roberto.

Mas assim que concluiu suas titulações, Graziela começou a sentir-se desconfortável. Roberto era Império Otomano no café, Khublai Khan no almoço e Normandos no jantar. Papos dos mais triviais como “vou ao supermercado comprar leite, quer alguma coisa” evocavam passagens históricas das mais desconhecidas em Roberto.

A relação foi ficando monótona e logo Graziela tinha um punhado de amantes. Gilberto era um árabe, cuja família tinha ajudado a fundar o emirado de Abu Dhabi. Márcio era um argentino que havia perdido o pai nas Ilhas Malvinas, hoje Falkland. Arnaldo tinha parentes cubanos – moravam perto da Baía dos Porcos, lugar onde os norte-americanos fracassaram numa tentativa de invasão.

Demorou a se tocar – procurava homens com histórias interessantes. Conclusão: continuava precisando de um homem (ou vários), mas havia tomado gosto por História. Alguns meses depois largou Roberto.

Graziela foi morar nos Estados Unidos e tardou a voltar. Semana passada encontrou com as amigas. Escreveu um livro de história contemporânea, com passagens narradas por todos os seus ex-amantes. Nem a fundação do Sultanato de Brunei escapou a seu apetite sexual. Vendeu mais de 80 mil cópias – Graziela era uma celebridade entre mulheres comuns, mas também entre estudiosos.

Mas ainda precisava fazer algo. Estava de volta ao Brasil por esse motivo. Passou no casebre onde atualmente morava Roberto e enfiou um envelope por debaixo da porta. Quando Roberto chegou em casa, viu o envelope. Abriu e encontrou apenas duas coisas, sem sequer uma assinatura: 10 mil dólares em dinheiro e um pedaço de papel com os dizeres “muito obrigada”.

Maria Paula era mineira. Estava chegando em São Paulo para cursar a universidade e não encontrava um bom apartamento para alugar. Só achava boas propostas em bairros muito afastados, a partir dos quais o transporte para a faculdade era extremamente difícil.

Um dia, sentada numa mesa de bar em frente à universidade, conheceu casualmente Inácio. O rapaz já se formara, mas não trabalhava na área. Por um desses acasos do destino, era corretor imobiliário.

Inácio achou um apartamento ótimo para Maria Paula. Aluguel e condomínio baratos, próximo ao metrô e a 15 minutos da faculdade. O estado do imóvel estava excelente. Ficaram amigos os dois.

Pouco tempo depois estavam saindo juntos e, finalmente, quando Maria se formou, os dois resolveram se casar. A menina largou o apê de estudante e foi morar com o marido. A casa de Inácio era ótima e aconchegante, de modo que os dois viveram anos a fio em enorme tranquilidade e felicidade.

Mas como a cidade cresce desenfreadamente, tal qual a família, quando vêm os filhos, os dois começaram a procurar outro imóvel, pois a casa ficara pequena para as crianças, além do que o bairro cresceu demais, e a boa e velha tranquilidade foi para o saco.

Inácio parece misteriosamente acomodado. Não estava procurando demais por outro lugar e criticava todos os imóveis sugeridos por Maria. “Esse é muito frio”; “difícil acesso”; “a pintura está descancando”, e por aí vai.

Passaram-se uns dois meses e, súbito, Inácio tirou um apê da manga. A localização era perfeita, perto do metrô Trianon-MASP. O marido passava o dia elogiando o imóvel, de modo que marcaram um visita no final de semana.

O apartamento era de uma mulher que morava sozinha, mas bem grande. Estava vendendo, pois segundo Inácio, a dona iria se mudar para um outro em Higienópolis. Fazia pós-graduação na FAAP ou algo assim. Maria estranhou o grau de conhecimento de Inácio sobre a antiga proprietária, mas levou em conta que um bom corretor tem de pesquisar a fundo a vida do proprietário do imóvel. Até para conseguir um preço melhor.

Caminharam pelo apartamento, com Inácio mostrando todos os detalhes e o bom estado do imóvel. Falava alegre, como se estivesse mesmo vendendo um apê para Maria. Esse não era o Inácio-marido, era o Inácio-corretor. A desconfiança de Maria foi aumentando.

Chegando ao banheiro, Inácio mostrou o chuveiro, um daqueles bons, o box de vidro temperado e a pia de mármore. Para finalizar, apontou um ganchinho colocado ao lado do espelho, mais ou menos na altura do peito. “Isso aqui é pra colocar a bolsa, quando você estiver se arrumando pra sair ou se maquiando. Eu achei uma ótima idéia”.

Maria não disse mais nada, falou que eles entravam em contato com a imobiliária depois, mas foi embora de cara amarrada, enquanto Inácio insistia que deviam fechar logo o negócio.

Maria foi para casa, enquanto Inácio foi encontrar uns amigos. Na volta, não encontrou nem a esposa nem os filhos em casa. Ligou para a sogra, mas essa disse que a filha não queria conversar. Tempos depois se separaram.

Inácio até hoje não entendeu. Sabia que estava errado, pois tinha uma amante, mas não atinara como a mulher pôde descobrir. Maria passou por questionamentos da mãe, que a apoiou, pois assim que Maria descreveu a cena no imóvel que foram ver, teve a mesma impressão que a filha. Nenhum homem saberia a função do gancho no banheiro… pelo menos nenhum homem que não a estivesse comendo…

MBA. s.m. 1. Supostamente abreviatura de Master Business Administration 2. Forma rápida e fácil de ganhar dinheiro de executivos em início de carreira para universidades 3. Curso de pós-graduação caro pra caralho, porém fácil de concluir 4. Forma de diferenciação de currículos para RHs que não têm a menor idéia de como avaliar seus funcionários.