Algum tempo atrás eu tinha um celular da Claro cujo número eu fazia questão de manter. Um desses números de puta, que qualquer imbecil consegue lembrar. Até digo o número: 9191-4244. Permaneci com esse número por cerca de oito anos, sempre na claro, desde a época de BCP Telecomunicações.

Fui aumentando o meu plano pós-pago, uma vez que por mais vantagens que cada um deles parecesse ter, só serviam para elevar o valor de minha fatura. Plano 60, Plano 90, até que cheguei ao Plano 150.

A idéia era pagar 150 reais e dispor de sei lá quantos minutos, que acumulavam, caso você não os usasse. Era uma quantidade bastante absurda, mas novamente o volume de ligações estourava e a fatura excedia tal valor.

Enfim, resolvi ligar para o tele-atendimento. Após digitar código de área, número da linha, CEP, RG, tamanho do pau e registro notarial do Cazaquistão, uma zé roela me atendeu. “Boa tarde, senhor. Elizabete, em que posso ajudá-lo?”

Pacientemente expliquei minha situação e disse que gostaria de cancelar a linha. Ela pediu que eu aguardasse. Foram cerca de cinco minutos e porra nenhuma. Então comecei a repetir “caralho” em voz alta no fone, até que ela atendeu novamente.

“Senhor, eu vou estar te passando para o departamento de relações com o cliente Claro. O senhor aguarde só um momentinho na linha”. Bem, fui passado mais umas duas vezes, sempre pedindo pelo “filho da puta que cancela a linha” e não sendo atendido.

Resultado: no quarto atendente, a história mudou. “O Sr. conhece o Clube Claro de vantagens?” A resposta foi sublime: “parece que eu conheço, porra”?

“Desculpe, senhor, mas acho que o senhor não sabe que, em razão de sua fidelidade à empresa (claro, porra, eu estava com a linha antes desses filhos da puta sequer existirem), o senhor tem direito a um desconto cortesia do Clube Claro”. Sem rodeios, fui direto ao assunto: “e qual seria esse desconto?”

Ouvi algo que me tirou do sério: “dez reais por mês, senhor”. Mandei tomar no cu e pedi para me passar no departamento de cobrança. Quando atenderam, eu disse que, caso não me deixassem cancelar a linha, não mais pagaria aquela merda. Enfim me passaram ao cancelamento, mas acabei ficando com o número – queriam até a certidão de casamento da minha avó para encerrar a merda da linha.

Mas como a natureza é sábia, semanas depois roubaram meu celular e pude efetuar o rápido cancelamento da linha com um Boletim de Ocorrência. Agora tenho outro celular e outro número. Sim, é da Claro, mas peguei o aparelho novo na promoção do Clube.

Achei que o inferno das centrais de telemarketing e gravações telefônicas se resumissem ao atendimento a consumidores e correntistas. Ledo engano. As promoções e concursos, mesmo em TV, aderiram à coqueluche.

Estamos eu e minha namorada em casa, dia desses, quando súbito o telefone dela começa a tocar. Era minha cunhada – irmã mais nova – havia visto, em algum canal televisivo fuleiro (porém o único que pegava na praia), uma promoção com uma apresentadora ridícula, que premiava com R$ 1.200,00 a primeira pessoa que solucionasse a charada no canto esquerdo superior da tela.

Era uma daquelas charadas do tipo “mova o palito”. Minha cunhadinha resolveu rápido a charada e queria que minha namorada ligasse, pois não possuía créditos suficientes na praia em seu pré-pago para fazê-lo.

Sem problemas. Minha namorada colocou no respectivo canal, onde uma apresentadora ridículo repetia infinitamente, com a imagem da charada ao canto, coisas como “duvido alguém acertar”, “será que ninguém sabe a resposta?”, “vamos gente, são R$1.200,00″, “só faltam mais cinco minutos”, etc.

Minha cônjuge ligou. Minha cunhada já avisara que uma gravação faria “duas ou três” perguntas do tipo “verdadeiro ou falso”, que deveriam ser respondidas via teclado. A ligação, segundo minha namorada, estava péssima, e as perguntas iam se seguindo, rapidamente, de modo que ela me arguia sobre algumas delas.

“Amor, dourado é peixe de água-doce?”, “Lindo, as ruínas de Machu-Pichu ficam no Equador?”, “Colombo fez cinco viagens para a América?”, e por aí vai. Fomos acertando as seguidas perguntas, o que nos mantinha na linha, supostamente com chances de entrar ao vivo no programa e responder o enigma idiota dos palitos, mas ao mesmo tempo desembolsando uma caralhada de dinheiro no telefonema.

Na 21ª pergunta (não, não é cascata!), a apresentadora começou a botar o dedo no “ponto”, na orelha, e gritar “alô!alô! Quem está na linha? Você está ao vivo”. A essa altura, minha namorada respondia a 23ª pergunta e ouvia a porra da gravação dizer “você possui 23 pontos”.

Um mané respondeu o enigma dos palitos e supostamente levou a grana, mas a apresentadora pediu que ele “aguardasse na linha para falar com a produção”. Bem, o maluco deve ter gasto mais uns vinte minutos “falando com a produção”, fora os vinte para entrar no ar. Levando em conta que essas ligações costumam custar quatro ou cinco reais por minuto, o cara gastou entre R$ 160,00 e R$ 200,00.

Eu e minha namorada? Ligamos para a cunhada, para dizer a ela que não tinha dado, apesar de respondermos 23 questões corretamente. Enfim, primeira moral da história: não existe dinheiro fácil. Segundo: meus conhecimentos em cultura inútil continuam de vento em popa. E, finalmente, terceiro: para toda resposta fácil há um procedimento difícil.

Nunca imaginei que, quase 120 anos após a proclamação da república, o império ainda permanecesse no Brasil. Não falo dos ineptos da família Orleans e Bragança, mas de alguns espanhóis, ansiosos por extender os domínios da coroa espanhola ao Brasil.

Estamos mudando a localização do nosso escritório na empresa. Uma vez que nossa linha não pode ser transferida e a empresa vigente não atende na região da Paulista, para onde vamos, temos de cotar outros fornecedores.

Nossa assistente administrativa ligou uma vez. Duas. Três. Nesta última logrou falar com um atendente. O rapaz ouviu nosso pedido e logo disse: “podemos estar agendando uma visita, mas a sra. precisa ter uma linha Telefónica”. Peraí, pára tudo essa porra!

Como assim eu preciso ‘ter’ uma linha para que eles agendem uma visita para que eu ‘compre’ uma linha. Acho que sou burro, pois não entendi um caralho. Ou seja, quero comprar um carro – tenho de ter outro, certo? Quero comprar um cigarro, tenho de ter outro. Voltemos com os vasilhames então, vamos trocar o “casco” do telefone.

Em resumo: seu pai tem uma linha da Telefónica? Não. Então você se fodeu, melhor comprar um dos telefones de mentira da Vésper ou instalar seu escritório ao lado de um orelhão. No meu, vai ser gato do vizinho. Tomara que ele tenha uma linha da Telefónica.

Nunca imaginei ser tão difícil ligar para Londres. Bem, já não era simples, levando em conta o número de algarismos a ser digitado: zero para dar linha no ramal, dois zeros para DDI, 44 como código da Inglaterra e mais o número do telefone a ser discado. Mas o caso é que não funcionava – ligávamos para lá e quando alguém em Londres atendia,  fone ficava mudo.

Contactamos a empresa – a Kontroll – uma dessas operadoras que intermedeiam serviços da Embratel e Telefónica. Antes de ouvir todo o problema, eles alegaram que teriam de fazer uma série de “testes”. Foi uma semana de testes, o suficiente para deixar nossa auxiliar administrativa à beira de um ataque de nervos.

Nada mudou. O problema continuava. Segundo a tal Kontroll, o problema era da Embratel; segundo a Embratel, o problema era da Kontroll; segundo nós, esses filhos da puta estavam procurando sarna para se coçar.

 Pediram que enviássemos um e-mail para a central, informando qual era o problema. Assim fizemos. Prometeram que um técnico avaliaria o problema e faria o diagnóstico. A assistente administrativa do escritório gastou as manhãs de toda uma semana, chegando cedo para realizar testes junto com o técnico, ao telefone. Passada uma semana, o diagnóstico: “a linha não aparenta qualquer problema”.

Como não tem? E por que caralho eu consigo ligar para a Inglaterra de um orelhão e não da filial brasileira de uma empresa londrina. Perdi a paciência. Separei o boleto de cobrança da empresa e resolvi engrossar: “não pagarei esta merda até que o problema tenha sido resolvido. Vocês têm uma semana e podem meter no Serasa e a merda que quiserem. Não pago e foda-se”.

Dois dias depois foi realizado um teste – funcionou. Não me dei por satisfeito, tive de arguir a Kontroll sobre a natureza do problema. Ouvi então um “TI é assim. Isso acontece mesmo”. Depois futebol é que é uma caixinha de surpresas.

O lema não é necessariamente real, mas é bem próximo do oferecido por 90% das empresas atuais de prestação de serviços. Entre elas, claro, estão os bancos, sempre “ávidos” em facilitar a vida do correntista. Pois bem.

Esta edição do “Bom Dia Sr.” inclui serviços ao correntista via telefone, mas não poderia deixar de englobar a internet. Há de se admitir que os serviços bancários online, e mesmo via telefone, avançaram enormemente nos últimos dez anos. O problema: a competência das pessoas não os acompanhou.

Noutro dia tentei investir em ações diretamente, utilizando meu acesso online do Unibanco. Falha miserável. Ele só permite o acesso via inclusão de uma “senha sei-lá-que-porra-internet-banking”. Paciente, resolvi telefonar para o atendimento do banco.

A atendente foi tão gerúndica quanto simpática, e decorrido algum tempo, disse que poderia fornecer-me uma senha do internet-banking, mas eu teria de dizer a ela a senha do Unibanco-Phone. Amigão, como assim, eu preciso de uma senha para pedir outra senha? Não. Liguei direto para meu gerente de conta.

Ele instruiu-me a ir até a agência. Minha resposta foi clara e taxativa: tenho conta na agência Unibanco da Av. Faria Lima faz três anos, mas nunca estive ali. Não será a primeira vez. Foi então que a inesperada solução apareceu: “não era o procedimento padrão”, mas ele poderia “estar enviando” ambas as senhas via correio.

Ora, “não é o procedimento padrão”, mas ele pôde adotá-lo. Por que não simplificá-lo todas as vezes então? Nesse momento, lembrei do número de empregados no segmento de telemarketing de hoje em dia e senti uma ponta de arrependimento, porém outra pontinha de raiva. Foda-se o cliente, o importante mesmo é dar emprego. E a população brasileira, que ainda reclama da falta dele…

Passivos, ativos… até no telemarketing já se usa tal terminologia. Não sei se até agora entendi muito bem o que isso quer dizer, mas o fato é que, para chegar a minha conclusão do dia, tal compreensão é dispensável.

No outro dia tive problemas com o recebimento da minha fatura do celular. Já estava muito perto da data de vencimento e nada, nem sinal da cartinha da Claro na porta do meu apê.

Passados dois dias, e faltando um para o vencimento, resolvi ligar para a Claro. Um amigo disse que eles poderiam passar-me o número do boleto por email e assim eu poderia pagar pela internet. Pela primeira vez na vida achei que algo iria ser realmente simples, em se tratando de atendimento ao consumidor.

Disquei o telefone da Claro. Em segundos, uma mensagem automática me dava as opções: “Se você já é cliente Claro, digite 1, se deseja se tornar um cliente Claro, digite 2…”. Digitei 1 e migrei para outro menu gravado de opções – digitei 3, para problemas com a conta telefônica.

Até aqui foi bastante fácil, mas o pior estava por vir. Até então eu havia digitado apenas os quatro algarismo do disque-Claro e mais dois dígitos para as opções. Foi quando ocorreu: “digite o número de seu aparelho celular com o código de área”. Lá se foram mais dez algarismos. “Digite seu número de CPF”. Mais onze dígitos, prontinho. Entre com sua senha do disque-Claro. Mais quatro.

Ok, 31 dígitos digitados, parecia ter chegado ao final. Não – após o clique, ouvi uma mensagem de “desculpe, todos os nossos atendentes estão ocupados no momento, favor tentar mais tarde”.

Após essa mensagem você, pobre mortal, não tem chances ou oportunidades de reclamar. O telefone simplesmente desliga na sua cara. Repeti os 31 dígitos e cheguei ao mesmo ponto. Novamente tudo estava ocupado.

Desencanei e fui almoçar. Após o almoço, resolvi tentar de novo. Teclei novamente os 31 dígitos. Dessa vez fui colocado numa fila de espera. Passaram-se cerca de cinco minutos e uma moça atendeu. Perguntou-me como podia ajudar e expliquei brevemente meu problema.

Ela fez que digitou algo no computador (ouvi ruídos de teclado) e fincou a pergunta na minha jugular: “você poderia confirmar o número de seu CPF, Sr.?”

Minha resposta foi simples: “Não, não poderia”. Retomando – o atendimento automático me pede para digitar não apenas o CPF, mas o fone com código de área e uma senha do disque-Claro. Pra quê???? Só para que eu não julgue que foi uma completa perda de tempo contactá-los?

Desliguei na cara da menina. Disquei mais oito dígitos em meu celular. Meu pai atendeu. Perguntei a ele, rapidamente, se a conta de meu celular havia por engano sido enviada para sua casa. Sim, estava lá. Resolvido, e nem precisei gastar o 102º dígito.

“Bom dia, Sr. Estamos com uma promoção de…”. Sempre começa assim. O maior gerador de empregos do mundo moderno – o Telemarketing. As técnicas desenvolvidas não deixam de, por vezes, ser geniais em sua simplicidade, efetuando vendas por meio do cansaço, da ameaça e do quase estelionato.

Sempre imaginei, à medida em que o mundo sucumbia aos encantos das telecomunicações, qual seria o próximo passo do infame Art. 171 – aí apareceu o telemarketing.

Antes dele, eu creio que havia ganho um sorteio ou promoção uma ou duas vezes na vida. Uma delas foi num bingo de bairro. Diversas velhotas já haviam ganho vídeocassetes, TVs e micro-systems. Minha cartela estava ficando cheia e, súbito, gritei “Bingo!”. Ganhei o prêmio – um maravilhoso quadro de natureza-morta pintado pelo presidene da associação dos amigos do bairro. O quadro ficou perto da grade de sacos-de-lixo do prédio. Espero não haver ofendido os lixeiros.

Numa outra ocasião, ganhei uma camiseta de “Dirty Dancing – Noites em Havana”, numa promoção do ClubeUOL que envolvia uma pergunta para a qual as 20 melhores respostas levariam um kit do filme. Não lembro o que respondi.

Contudo, hoje em dia, todas as vezes nas quais recebemos ligações de atendentes de telemarketing fomos ‘contemplados’, ‘premiados’, ’sorteados’, ‘escolhidos’ ou ‘agraciados’, para que recebamos algo. Obviamente o sucesso da operação-recebimento-do-prêmio exige algum desembolso em dinheiro por parte do premiado.

Muito me estranha que juízes ainda não tenham colocado essa prática no mesmo patamar de artifícios, esses sim geniais, como o Conto do Bilhete Premiado, ou o da Pepita de Ouro, ou o do Relógio Rolex.

Contudo, hoje recebi uma ligação da TIM. Meu celular é Claro, mas evidentemente fui sorteado pela TIM para que recebesse acesso sem ônus ao plano sei lá o quê. Fui sucinto: “sim, minha senhora, meu nome é Carlos. Vem cá, eu trabalho na Caixa Econômica Federal. Qual o número da autorização do sorteio realizado por vocês, só pra eu checar”.

No segundo seguinte, ouvi um “desculpe, Sr., mas essa informação eu vou precisar estar verificando com meu supervisor, mas depois tornamos a entrar em contato com o Sr. Tenha um bom dia”.

Senti aquela alegria momentânea que só as vitórias de Pirro do dia-a-dia podem causar. Acendi um cigarro e liguei para a Claro – queria saber se já tinha direito a alguma promoção do Clube Claro.