Fala-se bastante mal da estrutura aeroportuária brasileira. É justa a reclamação. De fato os aeroportos têm filas quilométricas e estacionamentos caros, porém coitado daquele que supuser que há diferenças em se tratando dos aeroportos europeus.

Madri, final de 2006. Com vôo marcado para o dia seguinte às 6h00 da manhã, deixo o hotel Tryp às 13h30 do dia anterior. Um amigo que mora na cidade me acompanha e diz que posso deixar as coisas na casa dele e mesmo puxar um ronco até que chegue a hora de meu vôo.

Meu colega morava com dois casais de romenos em um apartamento com cerca de 60 metros quadrados. Tinha um quarto próprio, pequeno, e dividia banheiro com os demais. Um situação considerada ótima por lá, dado que ele pagava barato pelo quarto, mas que aqui seria uma bela merda.

Cheguei em sua casa de deixei as malas. Três da tarde. Um dos romenos que ali viviam faz milhares de perguntas a respeito de minha estada. Sou brasileiro, é inútil dizer que não vou ficar e que estou com passagem marcada para o dia seguinte. Saímos eu e meu amigo, e quando voltamos, novas admoestações por parte do romeno. Com o saco na Lua, decido tocar para o aeroporto por volta das 20h00.

Pego o metrô rumo a Barajas, chegando ao aeroporto por volta das 21h30. Arrumo um armário para as malas, faço o check-in e preparo-me para varar a noite no lugar. Às 22h30 já deixei tudo pronto. Meu cigarro acaba e quero tomar uma coca, no bolso, apenas uma nota de 50 euros.

Sempre achei que aeroportos funcionassem 24 horas. Isso inclui algo no tocante a consumo, creio. Os espanhóis não crêem. A partir das 23h00 você só acha vending-machines por lá, mas quem disse que essas trocam notas de 50 euros?

Puto, tomo o metrô de volta para o centro da cidade, ando quilômetros para achar um lugar que venda as duas coisas, compro e retorno. Já é 0h50 e chego ao aeroporto no último trem.

Decido não dormir e viro o zumbi oficial do aeroporto, vagando por toda a madrugada entre os poucos funcionários restantes e uma multidão de turistas dormindo, os quais haviam se fodido num vôo da Air Madrid.

Já num dos últimos cigarros, resolvo fumar fora do aeroporto, na área próxima aos táxis. Ao meu lado, um rapaz pede o isqueiro. É romeno. Para passar o tempo, conto a ele minha aventura. Ele ri e dá uma resposta nada agradável: “Caralho, eu podia ter trocado para você!”. Qual o problema com os romenos?

Ando viajando bastante ultimamente. A negócios? Na maioria das vezes. Mas, este fim de semana, por exemplo, vou a Buenos Aires. Motivo: turismo. Tem feito parte do meu cotidiano nos últimos dois anos passar algum tempo em saguões e áreas de embarque e desembarque de aeroportos. Dentre os lugares com pessoas curiosas e excêntricas, talvez o aeroporto seja o pior, ou ao menos o maior deles.

Bem, voltando o cerne da questão. Semana passada estive em Belo Horizonte. Jamais havia desembarcado no aeroporto de Confins. Descobri o porquê do nome. É uma espécie de Viracopos à mineira. O táxi, pela distância mostruosa percorrida, até que saiu barato – R$ 85,00. Fui dar uma palestra. Hoje em dia o nível dos palestrantes caiu tanto em eventos que chamam até jornalistas para se apresentar.

Cheguei na sexta e fiz minha apresentação no sábado de manhã. Bom, antes do almoço da convenção resolveram despachar-me num táxi. Cheguei faminto no aeroporto. Havia lá uma espécie de “pub” matuto que não me agradou. Eu queria algo rápido, pois restava cerca de uma hora para meu embarque.

Foi quando avistei um quiosque do Bob’s, misteriosamente cheio de funcionários em pleno horário de almoço – uma da tarde – porém com um tapume e uma cancela em volta das mesas e cadeiras.

Cerca de 20 pessoas aguardavam ao redor. Perguntei porque do tapume. “É porque vamos inaugurar hoje, senhor”. Respondi, curto: “ótimo, inaugurem agora, meu vôo sai em uma hora”. Ouvi alguns protestos em apoio, das pessoas que aguardavam.

O fato é que tivemos de esperar mais meia hora. Os recém-funcionários da lanchonete tiraram fotos, fizeram poses, ensaiaram posturas e frases feitas, entoaram cânticos obviamente vendidos pelos departamentos de marketing ou R.H. e até fizeram uma oração.

Tudo pronto, enfim, e conseguimos fazer os pedidos. Os funcionários novos, coitados, tratando os clientes como completos ignorantes. Como no Bob’s há vinte anos – sempre o mesmo sanduíche, o Big Bob. Contudo, uma vez que, para os idealizadores do treinamento eu sou parte do treinamento, tive de ouvir lições, explicações e teorias científicas sobre o sanduíche que como há vinte anos e que, desde então, jamais foi alterado.

Ok, vinte minutos para o embarque no portão B, consigo meu sanduba – meio desmontado, pouco molho, o queijo cru e sem derreter e a alface em todo lugar, menos dentro do lanche. Como sem reclamar, levanto e volto para São Paulo.

Ocorreu em BH, mas poderia ser qualquer outro lugar. Entretanto, demonstra bem uma de minhas teorias a respeito das atuais empresas prestadoras de serviços: “muito espetáculo e pouco resultado”. O sanduíche, com todo o espetáculo, o treinamento e a “política de atendimento ao cliente” continua o mesmo – mas com o queijo sem derreter.