Cavalcante (leia a saga) e Tonhão rodavam tranquilamente com a viatura pela Avenida Robert Kennedy, próximo à Represa do Guarapiranga. Cavalcante ouvia Ray Charles no rádio, enquanto Tonhão estava alheio ao mundo, com os fones de seu MP3 player.

Nada acontecera durante toda a tarde e Cavalcante, alegre e audaz, olhava para as calçadas como uma águia atrás de um coelho, enquanto Tonhão quase pegava no sono.

Súbito, ouviram um barulho de vidro quebrando, em seguida um carro arrancado. Não havia dúvidas, estavam frente a frente com um furto de veículo. Cavalcante arrancou com o carro e fez a volta, indo ao encalço do ladrão. Tonhão assustou-se e despertou.

Cavalcante dirigia como um piloto de provas – estava irreconhecível. Cortava todos os carros, sem perder o rastro do elemento que se evadia. Tonhão olhou de soslaio e viu que o tanque estava cheio, não perderiam o fugitivo. Cavalcante guiava pra caralho!

Cavalcante agora pisava a 130km/h na Marginal, chegando bem próximo ao gatuno, que pegou a saída para a local e entrou rumo à Avenida dos Bandeirantes. Cavalcante entrou também, a milhão, bem na cola do fugitivo.

Quando estava prestes a pegar o fugitivo, Cavalcante puxou repentinamente o freio de mão. O carro rodou, quase bateu em outros veículos, e bateria, não fosse pela precisão de Cavalcante, e em seguida parou, em cima da faixa de pedestres.

O gatuno passou direto voando e em pouco tempo sumiu de vista. “Caralho, Cavalcante!!! Que porra você está fazendo?”, perguntou Tonhão, gritando. Cavalcante pediu desculpas e apontou para o lado esquerdo da avenida, onde um senhor terminava de atravessar a rua. “Eu vi esse senhor e resolvi parar”.

 Foi o suficiente. Sem dizer palavra alguma, Tonhão desceu do carro e acenou para um táxi. Precisava de férias.

Desde que Cavalcante (leia toda a saga) fora transferido para a 102ª DP, sua vida se tornou recheada de aventuras, o que faz lembrar o episódio do roubo do pasteleiro na feira. Era uma quinta-feira de manhã e havia uma feira de rua bem próximo à delegacia.

Tonhão chegou na DP com uma fome do cacete e, por mais que Cavalcante insistisse em fazer os “preparos” para a ronda vespertina, foi convencido a passar antes na feira, para comer um pastel.

Chegaram na barraca do senhor Fujioka. Tonhão pediu logo um pastel “especial”, que vem com tudo – carne, queijo, calabreza, tomate, bobó de camarão, ravioli, dobradinha e o caralho. Além disso, ganha-se um pastel de brinde. Já Cavalcante, tradicional, recorreu a um pastel de queijo: “pra mim, pastel que é pastel é de carne ou de queijo”. Tonhão, de boca cheia, suspirou.

A barraca de Fujioka era grande e havia atrás uma Kombi, onde eram guardados os pastéis prontos para fritar e também a sangria da grana. Não passou muito tempo e, enquanto Cavalcante investigava o vinagrete com cara de enjoado, ouviram-se gritos vindos da Lombi. “Assalto, assalto”, dizia a mulher, a qual podia ser filha mais velha, prima, tia, irmã ou esposa de Fujioka.

Tonhão e Cavalcante sacaram os revólveres e correram atrás do elemento, que ia se esgueirando entre as pessoas e barracas. Tonhão gritava para que todos se jogassem ao chão – ele percebera a 380 na mão do meliante.

Quando o cenário abriu e Tonhão percebeu que o elemento engatilhara a arma, apontou e mirou nas pernas do bandido, mas seu revólver estalou e nada. “Cavalcante, estou sem bala. Atira na perna! Atira na perna”!

Cavalcante mirou e disparou. Errou. Mirou uma mais, mas novamente errou. Decidiu que agora acertaria, enquanto o ladrão fazia a curva na rua da feira, passando em frente a uma banca de abacaxis. Cavalcante sentou o dedo – foram 11 tiros.

Embora nenhum deles tenha acertado as pernas do gatuno, os disparos rolaram os abacaxis da banca, espalhando-os pelo chão. O ladrão pisou num deles e escorregou em grande estilo, caindo em cima do tablado de outra barraca e se fodendo todo. Tonhão não perdeu a corrida e, bom lutador que era, pulou em cima do cara e o imobilizou. Em 15 segundos o bandido estava algemado.

Enquanto ajeitava o bandido para levá-lo ao distrito, Cavalcante pegava um ou dois dos abacaxis alvejados. Tonhão bradou: “que porra você está fazendo, Cavalcante”?

“Estou levando alguns desses abacaxis. Como lembrança de minha primeira prisão neste distrito”. Tonhão pediu ao companheiro que segurasse o bandido algemado, tirou vinte mangos do bolso e foi até a banquinha de ervas. “Me vê um quilo de arruda, por gentileza”.

Sacanagem. Mudaram o Cavalcante de Distrito. Agora o coitado trabalha pras bandas do Guarapiranga, na 102ª DP. Nada mais do glamour do Centro e de seus passeios pelas ruas bucólicas da Sé, República e imediações.

Marçal saiu ganhando – ficou para trás. Cavalcante teria de achar outro parceiro para suas rondas. Contudo, já viera parar ali com certa fama, e assim, mais um vez, o troço foi decidido na base do bolão. No final, o bolão não valeu nada, puseram com ele o investigador Tonhão, aquele mesmo, que tinha fodido uma viatura na parede de um puteiro da Avenida Santo Amaro e deixou no prego. O delegado aliviou o conserto do carro, mas agora, que precisava de um “favorzinho”, Tonhão rodou gostoso.

Primeiro dia de batente de Cavalcante – calça social, camisa de linho, terno no ombro e sapato brilhando. Os outros investigadores já botaram a mão na cabeça, “esse vai dar trabalho”. Chamou o Tonhão, pois já o haviam comunicado sobre a parceria. Para facilitar, o delegado deu a Cavalcante um turno vespertino. Ladrão que é ladrão rouba ou na ida, de manhã, ou na volta da “correria”, de noite. São poucas as ocorrências na parte da tarde, tirando alguns furtos e uns poucos roubos.

Tonhão aliviou, tentou ser simpático e puxou assunto sobre o trabalho de Cavalcante no Centro. Cavalcante contou várias histórias – uma mais trivial que a outra. Tonhão, repetindo o antigo parceiro Marçal, calou a boca e acendeu um cigarro.

Foi uma tarde tranquila. Uma tentativa de furto e rapidamente o meliante foi pego por Tonhão, que chamou a PM para efetuar o transporte do detido. Tonhão era policial dos bons, malandro, mas destemido. Não deixava barato, mas fazia o trabalho.

Voltaram à delegacia, cumprimentaram o delegado e foram cada um para sua casa. Cavalcante chegou feliz em casa… talvez os ares tranquilos da periferia fizessem bem a ele. Já não era novo e tinha que cuidar da saúde.

De manhã, recebe uma ligação do delegado. Roubo, mão armada, três elementos, levaram um carregamento inteiro das Casas Bahia, com carreta e tudo. O motorista não sabia mais do que isso. O delegado disse a Cavalcante que ele e Tonhão tinham que “achar” o caminhão.

Cavalcante desligou. Era uma difícil missão – “achar” o caminhão. Mas era seu trabalho e o faria da melhor maneira possível. Botou o terno e foi para o distrito encontrar com Tonhão.

Chegando ao distrito, a surpresa. Já haviam localizado o caminhão. Como a polícia hoje é aparelhada e competente, pensou logo o Cavalcante. O delegado deixou a recuperação na incumbência dos dois.

Quando chegaram ao caminhão, abandonado perto de uma padaria na Vila Natal, verificaram que faltava cerca de metade da carga. Cavalcante achou estranho, mas Tonhão logo explicou: “eles levam o que podem no braço até chegarmos, normal”.

Pois bem. Junto com a PM, levaram de volta o caminhão. No dia seguinte, ao chegar na delegacia, Cavalcante encontrou alguma algazarra, enquanto policiais saíam com caixas nas mãos. O delegado estava distribuindo as caixas. Sem graça, Cavalcante se aproximou e o delegado lançou: “aí, Cavalcante, aparelhos de DVD, pega um para ti, rapaz”.

Cavalcante, sem jeito e com expressão de agradecido, logo respondeu: “desculpe, seu delegado, mas não posso aceitar o presente. Comecei só faz dois dias e além disso, sabe como é, sou das antigas e só com meu videocassete já tropeço que é uma beleza”. Correu para a ronda, imaginando como eram desprendidos os delegados de hoje.

Não que não aconteça nada na vida do famigerado detetive-modelo Arnaldo Cavalcante (leia o início da saga). Contudo, com seus 43 anos de idade, e 24 de polícia civil, jamais fora chamado para atender a uma ocorrência de assassinato. Cavalcante não sabe, mas isso está para mudar.

Domingo, nove da manhã. Cavalcante já está de pé há duas horas, com seu sempre prestativo parceiro Marçal (ou nem tão prestativo – leia o 1º capítulo da saga), e iniciava a importantíssima rotina de domingo – ronda nas ruas do centro. Como era tradicional, a chance de algo ocorrer era de 0,0001% e Marçal e essa altura já dormia, como sempre.

O rádio foi acionado. Alguém chamava o policial mais próximo do Largo do Arouche. A ocorrência? Um 121… assassinato. Cavalcante não conteve o entusiasmo e, embora Marçal tentasse diassuadi-lo, informou à central que estava a caminho.

Os dois pararam o carro e Cavalcante apressou-se em dispersar a multidão. Obviamente Cavalcante não era capaz de perceber que as pessoas, de um modo geral, não abandonariam o local, pois estavam cagando para o fato de ele ser ou não policial.

Uma vez visualizado o corpo, Cavalcante deu um pulo, caiu em cima do corpo do rapaz e logo pensou, de modo “esperto”: “e se ele apenas está desacordado? Devo socorre-lo? Agir como se estivesse morto ou tentar reanimá-lo”?

A decisão foi tomada. Cavalcante agora fazia massagem cardíaca e soprava entre os lábios do rapaz freneticamente, tirando-lhe o pulso a cada meio minuto. Nada. Cavalcante sentia-se mal… não fora capaz de salvar uma vida. Pesaroso, levantou-se e disse a todos: “o rapaz está morto minha gente, não há mais o que ver aqui”. Sim, Cavalcante assistia TV demais.

O carro do IML chegou rápido e levou o corpo. Cavalcante e Marçal foram embora. Cavalcante não se conformava. “Talvez se tivéssemos chegado um pouco antes, poderíamos tê-lo salvo”. Marçal ignorava e acendia mais um cigarro.

No dia seguinte, o IML enviou o laudo à delegacia. Cavalcante correu à frente de todos, queria saber como o rapaz poderia estar morto, mesmo depois de suas inúmeras tentativas de reanimá-lo.

O laudo foi bastante conclusivo. “Erasmo Darcy Gonçalves” era o nome do sujeito. Na noite de sábado, recebera dezessete tiros, cinco deles entre a nuca e a cabeça. Não contente, o assassino terminou o serviço dando mais sete facadas no peito da vítima. Cavalcante não abriu a boca, mas lembrou-se da ligação que a esposa lhe fizera minutos antes, falando a respeito de umas “porras de manchas de sangue que não saíam da camisa”.

Duas da manhã, Baixada do Glicério. O detetive Cavalcante passeia pelos escombros do Elevado, enquanto seu parceiro fuma um cigarro, olhando para a janela com cara de merda. Cavalcante rodara sem parar durante as últimas duas horas e, por mais que Marçal insistisse, não parava em butecos. “Nunca se sabe quando teremos uma ocorrência”. Marçal perdera o bolão da Copa, ficara em último lugar. O prêmio maior pagava mil reais. Para o perdedor, dois anos com Cavalcante.

Cavalcante não jogava. Não bebia. Não fumava. Casara-se com dezessete, com uma prima de segundo grau… virgem. Resolvera ser policial para servir como o pai, este último coronel reformado. A caserna não era mais a mesma, mas havia alguma dignidade na polícia.

Todos odiavam Cavalcante. Com 43 anos, mantinha conduta modelo em tudo que fazia. Era como um policial certinho de filmes americanos, numa versão sem qualquer glamour e sem histórias marcantes.

Ainda dirigia um Opala. Achava que polícia tinha que ter distinção e tradição. Respeitador, o detetive não revistava, fazia “averiguações”. Não prendia, “arrestava”. Não emprendia emboscadas, “dava voz de prisão”.

Duas e meia da manhã. Marçal insiste que a ronda acabou, mas Cavalcante segue. O turno vai até as quatro. Marçal dorme. Súbito, Cavalcante acorda Marçal aos berros – uma ocorrência. Um elemento de vinte e poucos anos sai em disparada da Igreja Universal do Reino de Deus. Pessoas gritam à porta do templo.

Cavalcante acelera a viatura o mais que pode (80 km/h) e vai ao encalço do elemento, que agora mais de perto, parece gritar além de correr. Pára o carro metros adiante do rapaz que corre, desce da viatura, mostra o distintivo e o revólver e atira para o alto. Parece uma cena dos vídeos “As Fugas Mais Incríveis”.

Ao descer da viatura, Marçal põe a mão na cabeça. Cavalcante está com o rapaz algemado, que ainda treme e grita. Algumas pessoas que estavam à porta do templo se aproximam. Cavalcante prendera um “encosto”.

Ainda sem entender, Cavalcante vira para o parceiro e exclama: “esses trombadas de hoje, cada vez com reações mais bizarras”. Marçal dá de ombros, solta o rapaz e pede desculpas aos pastores, que a essa altura já colavam a viatura, putos pela intromissão em sua “Sessão Descarrego”.

Marçal puxa o companheiro em direção à viatura, dizendo “bora, Cavalcante, a ronda acabou”. Cavalcante responde de chofre: “não, não, são só três e quinze. O que é certo é certo”.

Marçal larga o companheiro e corre, a ponto de alcançar um dos pastores que iam em direção à Igreja. “Por favor, tem como incluir meu nome na lista de oração”?