Erick passou cinco anos estudando para o Instituto Rio Branco. Passou. O rapaz era inteligentíssimo e formou-se diplomata nos quatro anos propostos. Falava inglês e espanhol quando entrou, ao sair somou o francês, o russo e o mandarim a seu vocabulário. Aos 32 já havia viajado a metade dos países do globo, mas uma coisa ainda não tinha encontrado: o amor de sua vida.

Um belo dia, enquanto chegava com o carro oficial no prédio do Ministério das Relações Exteriores, deu de cara com uma passeata, ou protesto, ou o nome que se queira dar. Algumas dezenas de manifestantes reclamavam da postura pouco solidária dos diplomatas brasileiros em relação a países pobres. “Que povinho bosta”, pensou logo Erick. “Pra quê precisaria um diplomata perder seu tempo em países pobres… foda é negociar com rico, porra”!

Mas com uma coisa não contava. Ao chegar na porta do ministério, viu de canto de olho uma das meninas que estavam na multidão. Foi instantâneo, se apaixonou. Saiu correndo do carro e foi em direção ao tumulto, e disse que levaria um dos membros da manifestação para conversar. Obviamente escolheu a menina que fixara segundos antes.

Telma era o nome. Erick ficou maravilhado, embora tenha ouvido a palavra “burguês” e o vocábulo “neoliberal” dezenas de vezes. Ouviu atenciosamente e quando a menina tinha terminado, mostrou suas anotações e disse que encaminharia diretamente ao ministro o quanto antes.

A menina deu-se por satisfeita e, quando saía da sala, Erick a puxou pelo braço. “Quer sair comigo”? A donzela, atônita, demorou alguns segundo para responder. Ainda que tenha se esforçado, Telma só conseguiu proferir um “tudo bem”. Trocaram telefones.

Erick foi bastante esperto, levando a moça para jantar em um restaurantezinho bastante popular na cidade-satélite de Gama. A garota ficou impressionada que um diplomata pudesse ser tão “do povo”.

Saíram mais algumas vezes e começaram a namorar. Enquanto Telma passava a Erick suas doutrinas de responsabilidade social, ambiental e socialismo, Erick lhe ensinava política, línguas, economia e legislação internacional.

Juntaram trapos dois anos depois e viveram felizes por algum tempo. Até que Telma, já formada em Relações Internacionais, recebeu uma proposta de um instituto norte-americano. Erick a apoiou, dizendo que aceitasse a oportunidade.

Seis meses se passaram sem que Telma voltasse. As notícias rareavam e Erick entrou em depressão. Largou o ministério e decidiu seguir o legado da companheira – meteu-se em todo tipo de ativismo internacional, até que chegou à Anistia Internacional.

Alguns meses de militância depois, foi enviado aos Estados Unidos. Já eram cinco meses sem notícias de Telma. Chegando lá, descobriu que participaria de uma manifestação contra o tratamento dado a imigrantes ilegais mexicanos nos EUA. Em frente a um prédio da Imigração em Washington, ele juntou-se à turba. Em alguns minutos avistou uma limusine chegando e companheiros disseram que os adidos dos EUA para relações com o México estavam todos no carro.

O carro parou e quatro pessoas desceram. De relance, Erick pôde ver, completamente embasbacado, que Telma era uma dessas pessoas. Atropelou meia manifestação para chegar à frente da turba, no raio de visão de Telma.

Quando encontraram olhos, Erick fitou-a emocionado, quase chorando, mas Telma, embora tenha reconhecido, pareceu não despender qualquer expressão. Erick esperou que ela o chamasse, como ele havia feito anos atrás.

Telma segurou um de seus colegas pelo braço e disse algo, em seguida caminhou em direção à multidão. Erick já quase estendia seus braços… mas súbito, Telma parou em frente a um dos policiais que comandava a operação de contenção do movimento. Disse duas ou três palavras ao policial, virou-se e voltou em direção ao prédio da Imigração.

A polícia avançou e reprimiu duramente os manifestantes. Erick voltou ao Brasil mais deprimido do que nunca. Já em casa, deparou com uma única carta na caixa de correio – tinha o selo do governo norte-americano.

Abriu e leu. Em poucas palavras, numa carta que mais parecia um telegrama, Telma pedia desculpas sinceras pelo ocorrido, e dizia que tinha tido o mesmo impulso que Erick tivera anos antes, no entanto, em seu posto, jamais incorreria em tamanha falta de profissionalismo.

Graziela estava de saco cheio da universidade. Não gostava tanto assim de Sociologia e, agora que estava prestes a se formar, começava a se preocupar com a profissão. Que rumos pode tomar um sociólogo, além de dar aulas. Não tinha perspectivas e faltava muito pouco para que mandasse tudo à merda.

Faltava um mês para a formatura e conheceu Roberto, um mirrado professor de história que, apesar de delgado e franzino, era bastante bonito. Um dia resolveu usar seu trabalho de conclusão sobre a Diáspora para aproximar-se dele.

Muito sério, Roberto manteve a compostura, sugeriu uma bibliografia extensa e deu seu telefone, caso Graziela “precisasse de ajuda”. Graziela não precisava de tanta ajuda assim, mas até que precisava de um homem.

As amigas encheram o saco, pois o cara era mesmo mirrado, mas ela acabou ligando assim mesmo. Disse querer ouvir as “teorias” de Roberto sobre a diáspora judaica. Marcaram um encontro… um café.

Assim que ambos chegaram, trocaram uns 15 minutos de papo sobre a história de judeus e hebreus, mas logo Graziela perdeu a paciência e lançou um “professor nunca beija na boca”? O resultado… sim, transaram naquela noite.

O namoro acabou vindo como consequência. As amigas não podiam acreditar, mas Graziela não estava brincando – além de inteligente, Roberto transava bem, muito bem por sinal. Bem, isso acabou sendo motivo mais do que suficiente para o posterior casamento.

Além disso, Graziela terminara a dissertação de mestrado – claro que Roberto ajudou, e como ajudou. Mas Graziela era uma mulher inteligente. Só que com o tempo e a proximidade das profissões, tornou-se inevitável espelhar sua carreira no conhecimento histórico de Roberto.

Mas assim que concluiu suas titulações, Graziela começou a sentir-se desconfortável. Roberto era Império Otomano no café, Khublai Khan no almoço e Normandos no jantar. Papos dos mais triviais como “vou ao supermercado comprar leite, quer alguma coisa” evocavam passagens históricas das mais desconhecidas em Roberto.

A relação foi ficando monótona e logo Graziela tinha um punhado de amantes. Gilberto era um árabe, cuja família tinha ajudado a fundar o emirado de Abu Dhabi. Márcio era um argentino que havia perdido o pai nas Ilhas Malvinas, hoje Falkland. Arnaldo tinha parentes cubanos – moravam perto da Baía dos Porcos, lugar onde os norte-americanos fracassaram numa tentativa de invasão.

Demorou a se tocar – procurava homens com histórias interessantes. Conclusão: continuava precisando de um homem (ou vários), mas havia tomado gosto por História. Alguns meses depois largou Roberto.

Graziela foi morar nos Estados Unidos e tardou a voltar. Semana passada encontrou com as amigas. Escreveu um livro de história contemporânea, com passagens narradas por todos os seus ex-amantes. Nem a fundação do Sultanato de Brunei escapou a seu apetite sexual. Vendeu mais de 80 mil cópias – Graziela era uma celebridade entre mulheres comuns, mas também entre estudiosos.

Mas ainda precisava fazer algo. Estava de volta ao Brasil por esse motivo. Passou no casebre onde atualmente morava Roberto e enfiou um envelope por debaixo da porta. Quando Roberto chegou em casa, viu o envelope. Abriu e encontrou apenas duas coisas, sem sequer uma assinatura: 10 mil dólares em dinheiro e um pedaço de papel com os dizeres “muito obrigada”.

Maria Paula era mineira. Estava chegando em São Paulo para cursar a universidade e não encontrava um bom apartamento para alugar. Só achava boas propostas em bairros muito afastados, a partir dos quais o transporte para a faculdade era extremamente difícil.

Um dia, sentada numa mesa de bar em frente à universidade, conheceu casualmente Inácio. O rapaz já se formara, mas não trabalhava na área. Por um desses acasos do destino, era corretor imobiliário.

Inácio achou um apartamento ótimo para Maria Paula. Aluguel e condomínio baratos, próximo ao metrô e a 15 minutos da faculdade. O estado do imóvel estava excelente. Ficaram amigos os dois.

Pouco tempo depois estavam saindo juntos e, finalmente, quando Maria se formou, os dois resolveram se casar. A menina largou o apê de estudante e foi morar com o marido. A casa de Inácio era ótima e aconchegante, de modo que os dois viveram anos a fio em enorme tranquilidade e felicidade.

Mas como a cidade cresce desenfreadamente, tal qual a família, quando vêm os filhos, os dois começaram a procurar outro imóvel, pois a casa ficara pequena para as crianças, além do que o bairro cresceu demais, e a boa e velha tranquilidade foi para o saco.

Inácio parece misteriosamente acomodado. Não estava procurando demais por outro lugar e criticava todos os imóveis sugeridos por Maria. “Esse é muito frio”; “difícil acesso”; “a pintura está descancando”, e por aí vai.

Passaram-se uns dois meses e, súbito, Inácio tirou um apê da manga. A localização era perfeita, perto do metrô Trianon-MASP. O marido passava o dia elogiando o imóvel, de modo que marcaram um visita no final de semana.

O apartamento era de uma mulher que morava sozinha, mas bem grande. Estava vendendo, pois segundo Inácio, a dona iria se mudar para um outro em Higienópolis. Fazia pós-graduação na FAAP ou algo assim. Maria estranhou o grau de conhecimento de Inácio sobre a antiga proprietária, mas levou em conta que um bom corretor tem de pesquisar a fundo a vida do proprietário do imóvel. Até para conseguir um preço melhor.

Caminharam pelo apartamento, com Inácio mostrando todos os detalhes e o bom estado do imóvel. Falava alegre, como se estivesse mesmo vendendo um apê para Maria. Esse não era o Inácio-marido, era o Inácio-corretor. A desconfiança de Maria foi aumentando.

Chegando ao banheiro, Inácio mostrou o chuveiro, um daqueles bons, o box de vidro temperado e a pia de mármore. Para finalizar, apontou um ganchinho colocado ao lado do espelho, mais ou menos na altura do peito. “Isso aqui é pra colocar a bolsa, quando você estiver se arrumando pra sair ou se maquiando. Eu achei uma ótima idéia”.

Maria não disse mais nada, falou que eles entravam em contato com a imobiliária depois, mas foi embora de cara amarrada, enquanto Inácio insistia que deviam fechar logo o negócio.

Maria foi para casa, enquanto Inácio foi encontrar uns amigos. Na volta, não encontrou nem a esposa nem os filhos em casa. Ligou para a sogra, mas essa disse que a filha não queria conversar. Tempos depois se separaram.

Inácio até hoje não entendeu. Sabia que estava errado, pois tinha uma amante, mas não atinara como a mulher pôde descobrir. Maria passou por questionamentos da mãe, que a apoiou, pois assim que Maria descreveu a cena no imóvel que foram ver, teve a mesma impressão que a filha. Nenhum homem saberia a função do gancho no banheiro… pelo menos nenhum homem que não a estivesse comendo…

Eva sempre fora apaixonada por música clássica. Desde muito pequena, enquanto as amiguinhas se divertiam com hits de rádio de Menudos e Polegar, Eva divertia-se ouvindo Brahms, Mozart e Vivaldi. Não tinha paciência para as músicas atuais e achava, em sua opinião sincera, que a música terminara sua trajetória em meados do século XX.

Daniel era um pianista de relativa fama, que tocava em algumas orquestras eventualmente, como convidado e ganhava a vida em geral tocando em restaurantes e bares badalados.

Os dois se conheceram num piano bar no Itaim, em uma noite bastante chuvosa. Daniel era um músico bastante ousado e volta-e-meia arriscava novos arranjos em compositores clássicos. Eva ficou até o final da noite, depois que as amigas já tinham ido. Estava a pé e a chuva não dava trégua.

Daniel, porque achara a menina bonita e também porque era educado, ofereceu carona assim que sua apresentação terminou. Deixou-a em casa sem gracinhas, mas Eva pediu a ele uma indicação sobre onde faria suas próximas apresentações, alegando que gostara muito de seu estilo. Daniel fez algumas anotações de lugares em um pedaço de papel e o entregou.

Daí por diante, Eva aparecia em todo concerto ou apresentação do pianista. Aos poucos Daniel foi se acostumando e, como na maioria das vezes acabava dando carona para a moça, o romance desatou a rolar.

Por seis meses, encontravam-se nas apresentações do músico e saíam mais tarde, para jantar, conversar, tomar algo e principalmente transar. A coisa demorou a ficar séria, mas quase um ano depois, os dois começavam a traçar planos.

De repente, passados mais dois meses, avisaram as respectivas famílias, organizaram uma pequena festa, juntaram trapos e se casaram. Daniel tocou Chopin no casamento, com um novo arranjo mais alegre que lembrava Vivaldi. Foi perfeito.

Entretanto, assim que começaram a viver juntos, Eva se deu conta de uma terrível realidade: a diferença entre ver um músico se apresentando e um trabalhando. Seis meses de vida a dois se passaram, sem que Eva ouvisse mais uma música sequer.

Chegava em casa à noite, esperando para ouvir alguma peça sensacional do marido, mas não. Tudo o que ouvia eram ensaios e notas dissonantes, enquanto Daniel estava profundamente enclausurado em seu mundo, realizando estudos e compondo arranjos para suas próximas apresentações.

Eva não aguentava mais… algo precisava ser feito. Então, quando estavam prestes a completar um ano de casados, Eva pediu a separação. Daniel não fez impedir e realizaram um divórcio consensual.

Não daria certo mesmo. Agora Eva está sozinha. Não se aproxima de ninguém. Sai somente todas as quintas e sábados, vai às apresentações de Daniel, assiste-as com um sorriso incontido até o final e espera- o oferecer uma carona.

Gilberto fazia milagres com uma agulha. Veja bem, não era costureiro – era alfaiate. Daqueles das antigas, que faziam ternos para políticos a olho, com uma fita métrica e alguns alfinetes, nada de rabiscos e desenhos.

Fabíola era filha de vereador. Seu pai, Jucélio do Carmo, já integrava a câmara da cidade pela quarta vez consecutiva e como engordara muito desde então, pediu encarecidamente a sua filha que levasse os ternos para alargar no Gilberto.

A menina tocou a campainha do alfaiate, que abriu a porta da frente, bem distante da rua, e pediu que entrasse. Ela subiu as escadinhas segurando os ternos e adentrou a sala do rapaz, que trabalhava ajustando um vestido que parecia ser de noite.

Fabíola era uma menina linda e Gilberto não tardou a perceber. Como ele também não era de se jogar fora, ao primeiro entrecruzar dos olhos de ambos, Gilberto deixou as agulhas caírem e Fabíola fez o mesmo com o terno.

“Vim pedir… os ternos… do meu pai. Ele quer que alargue…”, Gilberto recolheu os ternos no chão e largou em cima de uma mesa. Perguntou a ela se aceitava café. Claro, mais uma semana e estavam namorando.

Quando Gilberto foi entregar o terno, já aproveitou a viagem e pediu a Jucélio a mão da filha. Este fez alguns minutos de suspense, mas aceitou. Na verdade, lhe agradava a idéia de ser alguém conhecido e de confiança a casar com a filha. Assim sendo, anuiu.

Casaram. Foi maravilhoso – Gilberto fez o próprio terno e tudo mais. Para a mulher, o casamento era um sonho. Imagine – um homem que faz roupas para ela, não era maravilhoso? Bem…

Fabíola demorou a perceber. Porém, passados dois anos, notou que todas as vezes nas quais esbarrava com uma amiga, essa lhe perguntava se havia engordado ou se estava grávida.

Um inferno, por mais magra que estivesse e por mais regimes que resolvesse fazer, o resultado era sempre o mesmo. Estava gorda. Demorou alguns meses e várias piadas, mas um dia Fabíola teve um estalo.

Pegou o primeiro vestido que viu no armário, enfiou na bolsa e levou a uma costureira de bairro. Pediu para ajustar. A senhora tirou as medidas e deu o preço. Uma semana depois, Fabíola pegou o vestido, puxou o telefone e marcou um chope com duas velhas amigas.

Chegou no bar com o vestido. Sentou, cumprimentou as amigas, pediu um chope e jogou algum tempo de conversa fora. Até que veio a surpresa, de uma de suas amigas: “nossa menina, você emagreceu”?

A outra companheira deu o mesmo veredito. Fabíola esbanjou um sorriso satisfeito e continuou a conversa. Chegando em casa de madrugada, acordou o marido. Perguntou para ele se estava gorda. A resposta foi mais do que esperada: “não, meu amor, mas você precisa de um ajustezinho no vestido”.

Maldito ciúme. Gilberto passara os últimos dois anos e meio ajustando vestidos para que a mulher parecesse gorda. Sim, era um exímio alfaiate, mas um filho da puta ainda maior. Fabíola fez suas trouxas e puxou o carro. Chegando em casa, contou tudo à mãe, e obvimente recebeu imenso apoio.

Não ouviram mais falar de Gilberto. Dizem as más línguas que casou com uma enfermeira gordinha. Jucélio passou a comprar ternos na Armani. E Fabíola, bem, só faz vestidos com costureiro agora. Viado a-do-ra mulher magra.

Marcela era uma mulher simples. Desde os dezesseis trabalhava no mesmo escritório de contabilidade. Tanto assim que quando fez 26 casou-se com um dos contadores da firma. Foi um casamento sem luxo, mas tradicional, tudo feito na ponta do lápis.

Ernesto era um bom homem. Trabalhador, metódico e bem afeiçoado à família. Um “homem à moda antiga”, como dizem por aí. Tiveram dois filhos e foram morar perto da Freguesia do Ó, num bom apartamento. Podiam ter comprado um na Vila Mariana, mas o preço não valia a pena.

Marcela parou de trabalhar. Todos os meses Ernesto separava o dinheiro das compras, fazendo a correção pela inflação a cada três meses. “O segredo é acompanhar o custo de vida”, dizia, orgulhoso.

A esposa foi aprendendo aos poucos a fazer contas, controlar o dinheiro e chegava a adivinhar quanto Ernesto ainda tinha na conta, quanto daria no próximo mês, etc.

Já iam dez anos casados e Marcela começou a agir de modo estranho. Não conversava. Sempre que Ernesto chegava em casa, ela estava entretida com um lápis e um caderno. O marido perguntava e ela tergiversava, dizendo estar “fazendo umas contas”.

O tempo passou e Marcela seguiu com sua mania. Ernesto se acostumou, e raramente perguntava algo. Continuou com sua rotina, dando o dinheiro mensalmente a mulher, corrigindo, etc.

Um belo dia, quando Ernesto chegava, a mulher o recebeu com o caderno na mão, cara enfezada e apenas bradou: “senta aí, quero conversar contigo”. Ernesto, atônito, resolveu obedecer, e sentou-se à mesa da sala.

Marcela atirou o caderno à frente do marido e ficou parada, esperando uma reação. Ernesto olhou… viu algumas anotações sobre índices de inflação, outras sobre juros de poupança e aplicações financeiras, outras de recálculos de financiamentos e compras a prazo. Pareceu entender, mas fez a pergunta “migué”: “o que significa isso, mulher”?

“Dez anos, Ernesto, dez anos… faça aí suas contas, faça”! O marido, ainda perplexo, insistiu: “não estou entendendo merda nenhuma, Marcela. O que você pretende com esse caderno e esses rabiscos aqui”?

A mulher bufou, sentou-se na cadeira em frente a Ernesto e começou: “simples, meu querido, eu aprendi a fazer contas. Como ninguém, diga-se de passagem. Por isso mesmo encontrei alguns equívocos nas suas”. Ernesto ia perguntando “que equívocos”, mas não teve muito tempo para fazê-lo.

“Quantas putas você comeu com R$ 30.000,00, seu filho da puta? Quantas”?

Ernesto não disse uma única palavra. Levantou-se e foi até quarto, pegando uma mala de viagem. Colocou a maioria das roupas, despediu-se dos filhos, pegou a chave do carro e foi embora. Juntou depois com uma jornalista – linda, bem-sucedida, mas não sabe somar dois com dois. Marcela está rica. Formou-se faz cinco anos e hoje presta consultoria.

Mariana tinha os dentes perfeitos. Perfeitos mesmo. Mas tão perfeitos que seu dentista se apaixonou e os dois se casaram. O nome dele era Almir. Assim que ele a recebeu para a primeira consulta, forçosamente inventou obturações a fazer, só para chamá-la a uma segunda consulta. Porém, quando Mariana entrou no consultório para o retorno, Almir a chamou para sair. Ela aceitou.

Cinco anos se passaram e, embora Mariana tenha se apaixonado perdidamente por Almir, vive chorando nos ombros de todas as amigas, pelo menos nos últimos três anos. Almir era violento, batia mesmo. Não gostou da comida, gritava, se ouvia resposta, já sentava a mão.

Mariana era mulher submissa, dessa das antigas. Faz tudo pelo homem como dona-de-casa, apanha vez ou outra, mas continua lá. Entretanto, suas amigas a pressionavam, pois as coisas estavam ficando feias.

Foi assim por três anos. Mariana encontrava uma amiga e estava com o olho roxo. A amiga logo mandava: “denúncia esse vagabundo”. Mariana rebatia: “não, ele é violento, mas tem suas qualidades”. Sua prima a visitava e ela estava com a boca inchada. A prima chamava a atenção: “pede o divórcio, esse cara não vale nada”. E Mariana: “vale sim, põe comida na mesa, e tem suas qualidades”.

Em pouco tempo, os dentes de Mariana continuavam perfeitos, mas o restante todo era estropiado. Roxo aqui, inchado ali, corte acolá… Almir estava caprichando nos últimos tempos. Qualquer olhar torto estava virando motivo de bordoada.

Contudo, Mariana não fazia menção de se separar. As amigas, a prima e parentes estavam já indignados, queriam denunciar Almir, mas Mariana não deixava. “Ele tem suas qualidades”… era sempre esse o bordão.

E assim se passaram mais dez anos. Um belo dia, Mariana acordou com uma dor dos infernos num dos dentes molares. Botou gelo e correu pro consultório do marido. Almir passou a esposa na frente dos outros pacientes, examinou daqui, examinou de lá e logo deu o diagnóstico: “é ciso, vai ter que ir num odontologista”.

Peraí, pensou Mariana, que porra faz um odontologista diferente de um dentista. Explodiu. “Estou casada com um filho da puta de um dentista há quinze anos e nunca tive um problema nos dentes. Agora tenho e você me manda pra outro cara”. Almir tentou argumentar e ouviu um sonoro “vá tomar no cu”.

Quando chegou em casa, de noite, Mariana já não estava lá. Foi embora para a casa da mãe. Meses depois, divorciaram-se no papel. A dor-de-dente? Não era nada, só uma fibra de carne que entrou no lugar errado – um fio-dental resolveu. Afinal, Mariana tinha dentes perfeitos.

Flávia sempre quis casar. Boa cozinheira, prendada e formada em Letras. Professora. Uma mulher à moda antiga. Augusto a conheceu numa viagem da faculdade e logo começaram a sair. Ele, acabou se formando em Nutrição.

Augusto era um bom profissional. Havia adquirido fama falando sobre nutrição em um programa de TV feminino, desses da tarde. No entanto, mesmo entendendo horrores sobre alimentos e seus nutrientes, não sabia fritar um ovo.

No começo, Flávia adorava o fato de Augusto sempre acompanhá-la nas idas ao supermercado. Ele era bastante meticuloso ao escolher os alimentos, mas dava também lugar para a opinião de Flávia.

A merda começou no primeiro aniversário de casamento. Flávia fez um nhoque ao molho pesto, montou a mesa de jantar, e aguardou a chegada do maridinho para a comemoração. Augusto chegou e recebeu um abraço – claro, que ficou surpreso, pois esquecera-se da data. Porém, assim que olhou a mesa, comentou: “putz, amor, já comemos macarrão duas vezes esta semana. Assim ingerimos carboidratos demais. E o molho? Você usou azeite extra-virgem, né”?

Flávia se abasteve, mas também comeu quieta. Augusto fez um pratinho de 100g, só para contentar a mulher, e terminou a janta comendo uma tigela de granola.

Outras datas foram chegando e era sempre a mesma coisa: “não tem uma saladinha, amor?”; “mas esse molho não é pesado pra acompanhar o pirão?”; “melhor a gente cortar a farofa, muita caloria para pouco nutriente”, etc, etc e tal.

Um belo dia, no meio da mesa de jantar na casa da mãe de Augusto, Flávia explodiu, após ouvir um comentário do marido sobre dois pratos com ingredientes fritos. “Vá se foder, filho da puta! Você não sabe fritar um ovo! Se não fosse eu, já tinha morrido de inanição! A partir de hoje, quem cozinha é você”.

O casamento durou mais algumas semanas. Separaram, Flávia foi viver no Jabaquara, enquanto Augusto continuou em Higienópolis. Ela queria distância.

Augusto hoje está feliz. Já faz dois anos que mora junto com Laura, uma personal trainer. Os dois formam um belo casal, se amam e possuem influência fundamental um sobre o trabalho do outro.

Flávia está frequentando o Vigilantes do Peso. Engordou muito desde a separação. Está solteira e mora com a mãe, mas jura que dessa vez seguirá a tabela receitada pelo nutricionista do convênio.

Heraldo era taxista. Dos bons. Conhecia não só São Paulo de cor e salteado, mas toda a região Metropolitana. Um dia, passando pela Rua da Consolação de tarde, pegou uma loirinha que acenou. A mulher ia perto, ali para os lados de Pinheiros. Ana era seu nome.

A corrida demorou mais do que deveria. Pudera, os dois conversaram para valer. Ao sair do carro, na frente de seu prédio, Ana deixou o telefone e disse a Heraldo que ligasse qualquer hora. Heraldo ligou.

Casaram, tiveram duas crianças e se mudaram para os lados da Aclimação. Era uma espécie de meio termo. Ana saíra de Pinheiros e Heraldo da Saúde. “Da Aclimação não pega trânsito. Dá pra descer na 23, pegar a Vergueiro até a Anchieta pra ir pra praia e até pra cortar pela 13 de Maio antes de entrar na Paulista”, dizia sempre Heraldo, orgulhoso.

O clima foi bastante agradável entre os dois nos cinco primeiros anos. Heraldo era atencioso, levava a mulher pra viajar e passear, as crianças também. Mas, com o tempo, o pano sempre cai. Heraldo foi descuidando da mulher e Ana começava a se irritar, pois além de sempre ter de tomar a iniciativa, Heraldo jamais estava disponível.

“Oi, amor, vamos ao cinema mais tarde, é que entrou um filme do…”; Heraldo interrompia, “desculpa, linda, estou com um passageiro na Gastão Vidigal, aqui perto do Ceasa, vou demorar”. Isso quando não era “freguês antigo” e Heraldo resolvia fazer corridas de madrugada, buscando em festas e eventos.

E o tempo foi passando. “Não posso, estou entrando no estacionamento do Aeroporto”, “acabei de virar na Avenida Marechal Tito”, “Ih, amor, peguei uma corrida até Santo André”, e por aí foi.

Um dia deu no saco. Ana ligou convidando – a ligação estava péssima – e mais uma vez Heraldou tergiversou. Ana ficou puta e gritou: “então vá pra puta que o pariu”. Com o chiado do telefonema, Heraldo não entendeu direito, e logo respondeu: “como linda? Mas pela Brigadeiro ou ali pela Praça da Bandeira?” Foi a gota d’água.

Hoje Ana namora um ciclista e mora na porta do metrô Vila Mariana. Carro nem pensar, chega. Mas, de vez em quando, toma um táxi ou outro pra matar a saudade. “Rua da Consolação, moço, por favor”; “pela Paulista, né minha senhora?”; “não, pela 13 de Maio, sou ex de taxista”. O cara pega o caminho e não discute.