Conversa de Bar
Janeiro 16, 2009
Faz mais ou menos seis meses que não posto porra nenhuma por aqui. Aparentemente, dúzias de trouxas continuam a acessar o site diariamente (cerca de 50, acreditem), na vã esperança de que novos textos apareçam. Durante um semestre, minimizei a responsabilidade que tenho de tornar o mundo um bom lugar para se viver, deixando de redigir aqui as pequenas anedotas e sentenças de humor sarcástico, desesperança e incorreção humana.
Ontem tive uma longa conversa de bar. Uma daquelas, de sempre, sem rumo, sem objetivos, mas cheia de tiradinhas-relâmpago que causam focos isolados de risos entre os amigos. Muitos me perguntaram a respeito da continuidade deste site – como todo bom blogueiro, usei o subterfúgio da falta de tempo. Falhou.
Nos dias vindouros abordarei novos casos, crônicas e fatos cotidianos os quais me acometeram neste semestre de folga. Ontem mesmo os principais temas abordados incluíram a Palestina (uma praia sem quiosques, onde ninguém usa biquini) e Angola (único país do mundo a possuir maior número de habitantes do que de pernas).
Não fiquem tão esperançosos. Provavelmente meu retorno é apenas um momeno de fraqueza emocional acompanhado de sorrateira necessidade de atenção. Mas enquanto não passam, acessem e façam do mundo um bom lugar para se viver.
Mil Reveillons – “Só Trabalhando”
Janeiro 1, 2008
Resolvi abrir espaço para algumas histórias interessantes que chegaram aos meus ouvidos neste último Reveillon. Data de muita festa e alegria, também é marcada pelas maiores cagadas e fatos de peculiaridade imensa, como o que meu irmão, que passou o dia 31 em Macaé, norte fluminense, me narrou.
Macaé era uma pequena cidade entre a capital fluminense e a cidade de Campos de Goytacazes, a qual experimentou desenfreado crescimento nos últimos anos. Isto porque, na verdade, grande parte das jazidas de petróleo da Bacia de Campos ficam no litoral do município de Macaé, e outras no município de Carapebus, adjacente e que já foi pertencente ao primeiro.
Cidade pouco turística em termos de praias, possui dois bons balneários – a praia dos Cavaleiros e a praia do Pecado. A cidade cresceu imensamente com o dinheiro do petróleo e, mesmo não sendo um paraíso turístico, conta com grande infra-estrutura hoteleira. Mas a criminalidade cresceu junto com a cidade, como não poderia deixar de ser.
Bem, estava meu irmão jantando em um desses restaurantes na beira da praia, na avenida que margeia a costa. Sentado tranquilamente ao lado do parapeito que dava para a rua, conversava com sua namorada e comia camarão tranquilamente.
Súbito, um vendedor aparece ao lado, na rua, oferecendo algumas cestas de vime e coisas do gênero. O cara era chato pra caralho. Meu irmão precisou dizer que não queria merda nenhuma umas dez vezes, mas então o cara se foi. Ofereceu para mais meia dúzia de pessoas que jantavam e uma ou duas compraram as bostas das cestas.
Dez minutos se passaram, então um homem de colete abordou o ambulante. Era um fiscal da prefeitura, chamando o cara para “conversar”. Pelo que meu irmão pôde ouvir, o fiscal já havia alertado o ambulante sobre a proibição de se comercializar mercadorias sem licença no local. O vendedor fez escândalo, brigou e fez birra. Aí então o homem de colete chamou mais três, arrancando a mochila com do cara e jogando dentro de uma perua.
Imediatamente apareceu uma revoada de pessoas da turma do “deixa disso”. “Não, o cara tá só trabalhando, merrmão”; “deixa o menino vender, não tá roubando ninguém”; “vocês querem bater no menino que eu vi”; etc.
Foram duas horas de vai-e-vém. Ao final, o cara da prefeitura, o fiscal, deu uma multa pro camelô, levou a mochila e o dispensou. “Pagando a multa devolvemos as coisas”. O cara já sabia, correu o risco. Mas as pessoas o defendiam como se fosse um cão abandonado. Um senhor chegou a dar 15 reais pro vendedor, a troco de nada.
O tempo passou e foi ficando tarde. O camelô deu uma última rodada e foi embora. Meu irmão ficou irritado com o casal da mesa de trás, que abriu a carteira e deu uma nota de dez para o ambulante.
O casal fechou a conta e foi embora. Meu irmão tomou um café, pagou e foi embora cinco minutos depois. Indo em direção ao carro, deparou com o senhor da mesa de trás – a mulher em prantos e o sujeito com cara de apavorado e nervoso ao mesmo tempo. Ele abordou meu irmão: “desculpe, amigo, você pode me dar uma carona até meu hotel, roubaram meu carro”. Meu irmão perguntou se tinha sido roubo ou assalto. O sujeito disse que o vendedor ambulante, assim que eles saíram do restaurante, os abordou com uma arma, e levou carro, carteira e bolsa.
Meu irmão deu uma risada de canto de boca, olhou o cara e disse: “fazer o quê? O cara estava só trabalhando”. Entrou no carro, ligou o motor e foi embora, deixando o casal com cara de merda na calçada.
Cervejas, 300 reais e uma história de Natal
Dezembro 25, 2007
Não gosto do Natal. Acho uma data que exalta os sentimentos de hipocrisia humanos. As pessoas abraçam pessoas as quais assassinariam com a mesma facilidade com que abraçam seus parentes mais queridos.
O fato é que este Natal, para mim, não foi diferente. Fui obrigado a quebrar um pau com minha possessiva e conservadora mãe, que deu suas “opiniões” sobre o fato de eu resolver passar parte do Natal (digo parte porque passaria com ela até onze e pouco) na casa de minha namorada. As mães costumam reduzir seus QIs a níveis de equinodermos todas as vezes que há uma possibilidade de que seus filhos deixem a casa. Minha mãe atuou como um pepino-do-mar esta noite de 24 de dezembro.
Eu poderia ter deixado barato, mas não o fiz. Não feche jamais a porta na minha cara – ela será desintegrada por um ’roundhouse kick’ imediatamente. Foi o que ocorreu. Resultado: machuquei o pé e mandei tudo à merda, resolvendo guiar sem rumo durante a noite de Natal.
Vaguei por quase uma hora. Precisava me abrir com alguém, mas não queria que fosse alguém conhecido. Vaguei por mais meia hora. Resolvi parar em um posto de gasolina e tomar uma cerveja, além de comprar cigarros, pois os meus haviam acabado.
Não havia ninguém no posto exceto pelo frentista, o rapaz da loja de conveniência e um outro cara de boné, com seus vinte e poucos. Este último ficou olhando enquanto eu descia e comprava cigarros.
Logo descobri. Assim que saí da loja, o cara deu voz de assalto. Armado, parecia nervoso. Pedi calma, dizendo que ali não havia mais ninguém e que ele não precisava ter pressa. Foi então que tive um estalo e, uma vez que o rapaz pareceu acalmar-se, comecei a falar:
- Então.. estou com 300 reais do limite no 24 horas ainda. Posso sacar para você, de boa, é só ter calma, amigo.
- Firmeza, mas saca logo então, eu espero aqui fora. Mas tô de olho, hein boy!!!
- Sossegado, sem problema. Aguenta um minuto aí.
Qual não foi a cara de surpresa do maluco quando voltei com os 300 reais na mão e mais duas latas de cerveja. “Você é meio zoado das idéia, né boy?”
Eu disse para ele que não. Disse que, já que eu já havia sido assaltado, então que se foda. Eu estava na merda em uma noite de Natal; ele, na mesma. Vamos tomar uma cerveja então e jogar conversa fora. Não paga nada.
Ainda estupefacto, o meliante botou a arma no bolso e pegou a lata. “Mas nem vem com gracinha, boy, senão te furo geral”. Disse a ele que ficasse tranquilo, que eu só queria alguém para trocar idéia e meter o pau nos filhos da puta da família.
O começo foi bastante artificial, mas em vinte minutos conversávamos como amigos de infância. Os caras do posto e da loja não entenderam merda nenhuma. Ele contou sobre seu filho, que estava com cinco anos, mas cuja mãe não deixava sequer vê-lo. Teve de enviar o presente do moleque pelo Sedex. Sua mãe e seu pai moravam em Crato, no Ceará, e em São Paulo tinha apenas um tio. Um belo filho da puta, o tio. Gastava o salário de gari para comer prostitutas no Glicério e uma vez por semana levava um leitinho para casa. Em compensação, chegava mamado de cachaça.
Conversamos durante três horas. Seis ou sete latinhas cada um, uma garrafa de Red Label 400ml e até uma Smirnoff Ice. O cara já estava bêbado, não falava mais coisa com coisa e evidentemente havia até mesmo esquecido que me assaltara.
A hora havia chegado. Eu estava mais calmo. O desabafo funcionara. Disse a ele que iria ligar para minha namorada, se ele não se importava. Ele falou que não tinha problema. Afastei-me uns dez metros, enquanto ele continuava bebendo cerveja.
Fui rápido e profissional. Liguei para o 190, passei endereço, descrição do cara, horário da ocorrência e afirmei que o elemento ainda estava no local. Voltei, sorrindo perguntei se ele aceitava a “primeira saideira”, e o rapaz fez que sim.
Em cinco minutos a polícia chegou. Corri algum risco do lado do cara, mas o álcool fez com que ele demorasse a perceber. Quando se deu conta, estava algemado, com a cara no chão e me xingando. O policial me fez algumas perguntas. Disse que o cara teria 300 reais no bolso. O policial recolheu e me devolveu. Ofereci um café aos policiais, mas eles declinaram, queriam “conversar com o filho da puta que arrancou eles da delegacia no Natal”.
O cara chorava, me xingando de “traíra”, filho da puta e uns elogios mais. Agradeci. Antes um pouco de meterem o gatuno no camburão, ele perguntou: “cara, você é doido… achei que a gente tava ficando bróder!”
Foi então que simplesmente saiu: “bróder? Você é a doença, eu sou a cura”. Obrigado, Stallone Cobra e Feliz Natal para você e todos os seus.
Argentina:os Ares do Bolivarianismo Regressam
Dezembro 12, 2007
Como comentei anteriormente, passei alguns dias em Buenos Aires na última semana. Mesmo sem querer, a reserva de meu pacote coincidiu com a posse da nova presidenta, Cristina Kirchner. Mais que isso, estive hospedado no Sheraton San Martín, onde permaneceram os líderes de Estado venezuelanos e equatorianos, entre eles, Hugo Chavez.
Mais do que a sensação de ver uma posse presidencial de outra nação, chamou-me atenção o número de comitivas pró-bolivarianas que organizaram passeatas em direção à Casa Rosada, para assistir à posse, porém não sem antes iniciar a aglomeração em frente ao hotel onde o líder venezuelano estava, com direito a brados de palavras de ordem em defesa do estado bolivariano e revolucionário.
A visita de Chavez e sua aproximação do bloco do Mercosul parece, inclusive, estar fomentando o retorno de novos motes revolucionários e nacionalistas na Argentina, por exemplo os direitos sobre o arquipélago das Malvinas, hoje Falkland, território britânico. A foto abaixo, de pixações feitas na torre do relógio da Plaza San Martín – presente este cedido pela coroa britânica – valem mais que mil palavras.