Tipos Modernos IV – “O Malandro-Agulha”
Dezembro 18, 2007
Buemba! Resolvi iniciar o texto assim só para introduzir o bom e velho conceito do malandro-agulha, ou malandro-mixirica, ou chame como quiser. De trocadilhos intermináveis e tiradinhas que se repetem à exaustão, o malandro-agulha é a encarnação da comédia moderna – a receita pronta até o limite da saturação.
O primeiro tipo de malandro-agulha é o “pegadô”. Sim, aquele cara que tem certeza que a mesma tirada funciona com todas e, destarte, a usa com metade das mulheres que conhece. Conversas iniciadas com frases como “sei de uma festa que está rolando hoje” ou “uma mulher bonita desse jeito…” geralmente são o cartão de visitas do malandro.
Estive recentemente com meus colegas de trabalho em um grande evento empresarial. Não se engane, esse é o tipo de evento com a maior concentração de malandros-agulha por metro quadrado. O caso é que uma de minhas companheiras foi abordada, em pleno evento, por uma dessas figuras. “Parece que vai rolar uma festa hoje, né?”, perguntou o rapaz. Minha amiga disse não ter conhecimento. Imediatamente, ele já contornou com algo como “é, vai ter, mas parece que é uma festa assim, mais reservada”. Ok, malandro-agulha detected!
Por que “agulha”? Já chega querendo furar. Mas voltando à história: o maluco não parou por aí, começou a insinuar alguns “você entendeu” para minha colega. De novo, o bom velho malandro-agulha, não deu certo o repertório, apela.
Pois é, xavequinho barato inicial, mas se não dá certo, o maluco tem que passar a linha no buraco. Aí não tem Cristo que ajude – papos sobre condições climáticas, fichas cadastrais do tipo “você estuda onde?” e toda sorte de assuntos de gente desesperada.
Vou indo nessa, minha namorada está esperando. Dessa vez a linha passou no buraco da agulha.
Tipos Modernos III – O Garçom Especialista
Dezembro 14, 2007
Bons tempos aqueles em que você sentava numa mesa de bar, olhava para o primeiro garçom que aparecesse e mandava “opa, me traz uma breja”. Alguns minutos depois a garrafa e os copos estavam à sua frente, para imediato consumo.
Isso é passado. Infelizmente ou felizmente? Só o tempo dirá. Hoje os garçons possuem um nível de especialização capaz de deixar qualquer engenheiro ou técnico boquiaberto. O cliente deve escolher com cuidado o garçom, sob pena de ser preterido cruel e despojadamente.
Embora minha namorada não possa ser caracterizada como dotada de paciência budista, costuma ser mais compreensiva do que eu om garçons. Em nossas várias saídas pude aprender muito sobre a nova abordagem do setor “garçoneiro”.
Noutro dia estivemos num restaurante. Nada chique demais, porém assim que sentei, chamei o garçom e logo ouvi: “perdão, senhor, vou chamar o garçom desta mesa”. Imediatamente, ouvi explanações de minha cônjuge sobre a divisão racional do restaurante em áreas, para facilitar o atendimento.
Facilitando ou não, chegou um segundo garçom. Pedi duas cocas, uma normal e outra light. Como já conhecia o restaurante, sugeri à minha namorada pedir os pratos. Fui interrompido novamente – o garçom em questão somente anotava bebidas. Com um sorriso, o rapaz saiu de fininho.
Chamei o maitre. O homem foi atencioso e disse que iria providenciar, embora também não tenha anotado o pedido. Logo chegou um terceiro garçom, incumbido de tomar nota dos pratos.
As bebidas foram trazidas por um quarto rapaz, chamado ‘cumim’, segundo minha namorada. Este seria um ajudante do garçom. Ok, mas de qual deles? Do que anota os pratos ou do que anota as bebidas? A essa altura, admito, já estava confuso.
Terminamos a refeição. O garçom das bebidas veio e perguntou se gostaríamos de uma sobremesa. Fiz que sim. O carrinho dos doces foi então trazido por um quinto lugar. Aqui, comecei a imaginar os discursos entoados a respeito do desemprego. Se há necessidade de cinco pessoas para atender-me em um restaurante, não vejo como podem ser tão altos os níveis de desemprego. Metade da população do Brasil, doravante, passou a ser constituída de garçons, maitres e cumins.
De saco cheio, pedi a conta. Claro que pedi ao cumim, que comunicou ao garçom – seja ele o dos pratos ou o das bebidas -, que advertiu o maitre, que trouxe a conta. O troco? Foi trazido pelo cumim. Na saída, entreguei o ticket ao rapaz do valet e calculei – sete pessoas foram necessárias para que eu fizesse uma única refeição.
Bom, vou indo nessa. Acabo de receber um email de minha sede em Londres, para que cubra um evento em Vitória. Preciso ligar para o Juan e pedir para ele confirmar a viagem com a empresa, para que eu possa enviar o Eduardo, no caso da Joana não poder viajar na semana que vem.
Tipos Modernos II – O Conhecido da Informática
Dezembro 7, 2007
Seu computador deu pau? Sem problemas. Pergunte a qualquer amigo e esse lhe fornecerá imediatamente um contato do “conhecido da informática”. Não se preocupe – todos eles são bons, especialistas e manjam horrores de todo o tipo de software ou sistema. Também são de confiança e JAMAIS tentarão te enrolar, afinal são conhecidos.
Quando você tem trinta anos de idade, pode-se dizer que assistiu à toda a evolução dos computadores pessoais. Você estava lá na época do Apple II ou do MSX ou do TK 95 e, por alguns anos, todos fomos especialistas em informática. Já programei em Basic, Assembler, COBOL e Turbo Pascal. Atualmente os “conhecidos da informática” não têm a mais vaga idéia do que isso representa.
O fato é que, salvo as exceções que comprovam a regra, os “conhecidos da informática” são, em geral, pós-adolescentes ou recém-adultos que não lograram um grau elevado de escolaridade e hoje sobrevivem do asco e bloqueio mental sofrido por pessoas de mais de 40 anos em relação a máquinas e softwares em geral. Sua arma: a linguagem forçosamente técnica. Suas fraquezas: o medo de se deparar com alguém que tenha mais de 15 minutos em computação. O mesmo se aplica a técnicos em geral.
Outro dia tive problemas com meu laptop. O papo do técnico, obviamente “conhecido” de alguém do escritório, não foi diferente:
- É, o wireless provavelmente não está funcionando por causa da motherboard. Você está com a configuração certa para o TCP/IP?
- Não sei. O fato é que não consigo acessar o wireless.
- Vamos ter que tentar em laboratório, mas se for um problema da motherboard não vai adiantar configurar configurar o cliente.
Ok, por partes. Sou jornalista, não fiz nenhuma questão de estudar informática. Não sei o que é TCP/IP. Quem é o “cliente”? Não era eu? Que seja. Despachei o computador para que esse fosse analisado em laboratório e solicitei um orçamento para o conserto. Resultado: R$ 1.850,00 foi o preço para o “conserto”. Levando em conta que um laptop novo pode ser comprado por R$ 1.700,00, só se pode chegar a uma única conclusão: o maluco pode ATÉ entender alguma merda de informática, mas não sabe ganhar grana.
Mas o recorde foi a vez na qual os sistema de PABX e internet do escritório, administrados por uma mesma empresa, deu pau. As panes eram frequentes e chegávamos e a ficar horas sem poder nos comunicar com ninguém.
Veio o “técnico”. Enquanto ele fornecia a um de meus colegas as supostas razões do problema, eu ouvia calado, deixando fluir o ódio por cada um de meus poros.
Decidi levantar e perguntei a ele, novamente, porque minha internet era mais lenta que a de qualquer residência e meu PABX simplesmente não fazia ligações. Foi divertido. “Vocês têm um tronco privativo e barramento próprio, a internet que fornecemos ao contrário da Speedy, é banda privativa protocolo SJ3 (perdoem, mas não lembro a merda da sigla). Vocês possuem o benefício de acessar em barramento P2P-R (de novo não lembro), com banda auxiliar de segurança….”. Nesse momento interrompi.
“Amigão, eu estou me fodendo se o seu protocolo é J3, W3, R2D2 (Copyright Star Wars) ou PSDB. Foda-se. É mais lenta, logo é uma merda. Se fosse rápida, seria boa”. Acuado em sua tentativa de fuga por intermédio de linguajar técnico inexistente, apavorou-se, e como qualquer trabalhador médio brasileiro, tratou de arranjar terceiros que pudessem expiar sua culpa por prestar um péssimo serviço.
A culpa era da Embratel, da empresa que estava instalando o cabeamento, de Deus, de Paulo Maluf e até do Piu-piu e do Frajola, menos dele. Delicadamente, dei um prazo de duas semanas, que obviamente não foi cumprido. Hoje assinamos a NET Virtua.
Enfim, vou comprar um maço de cigarros. Aliás, esse computador não anda normal, preciso ligar para o Eduardo ou o Juan e ver se eles conhecem algum cara que possa consertar.
Tipos Modernos I – A Solteirona da Yoga
Dezembro 5, 2007
É engraçado como algumas coisas rapidamente tornam-se coqueluche quando você mora em uma cidade grande como São Paulo. Com um agravante: uma cidade grande de terceiro mundo.
Ontem passei a tarde tentando entender uma daquelas pessoas as quais prefiro classificar como sendo um dos “tipos modernos”, a solteirona que frequenta a Yoga. Parece um tipo raro, mas a julgar pelo número de escolas ou academias ou sei lá como se chama a porra do lugar onde se pratica yoga, chega-se à conclusão de que deve haver suficientes pessoas matriculadas para que os donos de tais estabelecimentos não morram à míngua.
O fato é que possuo uma vizinha de quarenta e poucos anos. Em seu currículo, dois filhos, um ex-marido, alguns casos e alguma faculdade concluída tempos atrás, cuja área ou curso me foge completamente. Minha vizinha frequenta yoga.
Ok, até aí nenhum problema. Entretanto, ela não apenas frequenta a yoga, mas desenvolveu uma quantidade sem fim de crenças, superstições, simpatias, aderindo a topo o tipo de modismo esotérico de que se tem notícia.
No elevador, o papo varia: “nossa, andei comprando uns cristais… eles trazem uma energia para a casa…”; “tenho uma amiga que chamou um ‘consultor’ em feng-shui, o homem fez milagres”; “você precisa tentar qualquer dia uma sessão de cromoterapia, sua dor-de-cabeça irá sumir”; “olha, conheço um acumpunturista de primeira”.
Seguro-me para não mandar à merda, mas sempre que chego ao limite, vem à minha cabeça a imagem do ex-marido dessa senhora, que aliás não batia muito bem, gritando na sacada ao lado da minha para que o ajudasse a pular, pois a mulher o havia trancado em casa.
Pobre alma, nem todo o quartzo de Minas Gerais faria milagres ali. O fato é que passei a imaginar cada um dos meus amigos com uma vizinha da yoga na porta ao lado. Outro dia visitei um amigo o qual não via há tempos. Descendo do elevador no edifício dois-por-andar, deparei com a porta de meu amigo. Do lado oposto do rol, uma porta diferente – o tapete era hindu, ao passo que alguns ideogramas enfeitavam o batente. Perto do olho mágico, uma espécie de guirlanda ostentava caracteres de origem árabe. Uma solteirona da yoga, sem dúvida.
Bom, vou indo nessa por hoje. Amanhã acordo cedo para compras alguns presentes de Natal. Não sei o que dar a meu pai, mas devo comprar uns cristais para minha mãe.