Alguns animais são conhecidos pela capacidade de protagonizar esforços titânicos quando acuados ou em desvantagem. Tornam o que seria uma derrota em uma vitória a constar dos anais. Assim é Jeremias – feio, pouco inteligente e de família pobre, o rapaz conseguiu transformar o que o tornaria para as mulheres o equivalente a um cão raivoso com infecção hospitalar em um príncipe, aproveitando-se das sutis circunstâncias proveitosas que a vida oferece. Ou seja, em termos práticos, Jeremias é um apelão.

Na tarde da última quinta-feira, Jeremias enfim conseguiu marcar horário para realizar um exame de vista, mesmo com seu plano de saúde vagabundo. A central do plano não diferia tanto assim de qualquer hospital público da Zona Leste, porém o povo que esperava, em geral, era bem encarado. O nome do plano? Nem idéia. Mas esqueça, não era nenhum Amil, Medial, Unimed ou mesmo esses novos, como o tal Dix.

 Mal chegou e Jeremias já fitava duas garotas – meio gordinhas é bem verdade – as quais aguardavam sentadas ao fundo o momento em que a enfermeira pingaria o colírio dilatador. Instantaneamente, Jeremias lembrou-se da frase de uma enfermeira que o atendeu, ainda quando era criança: “bastam três gotas, não se deve colocar mais que isso meu filho, ou você não conseguiria enxergar nada”.

O rapaz então jogou um olho dentro do ambulatório. A enfermeira era realmente feia, feia mesmo, doía na vista – uns 100 quilos e cinquenta anos de idade. Jeremias logo percebeu que ela não usava qualquer anel. Certamente não era compromissada.

Olhando para os lados, empurrou a enfermeira dentro de uma sala e foi logo tascando um beijo de língua. Depois de um sarrinho com a gordola, comentou que as duas meninas na sala de espera eram primas suas, e que ele queria pregar-lhes uma peça. Pediu à enfermeira para que pingasse uma gotinha a mais do colírio dilatador, meio “sem querer”.

A velhota topou, na esperança de descolar uma piroca para logo mais, de noite. Fazia alguns bons anos que não via uma na sua frente e Jeremias, apesar de feio que só vendo, parecia que faria um bom serviço. Pegando o vidrinho do colírio, a volumosa enfermeira caminhou em direção às garotas.

Continua…

As obras nas calçadas da Avenida Paulista têm sido um constante estorvo para os que trabalham na região. Mas nenhum incômodo seria suficiente para desabonar o grande avanço cultural causado pela tomada das calçadas em frente ao Parque do Trianon.

Muitos, à essa altura, devem estar imaginando que me refiro aos michês que fazem ponto nas imediações. Não. Não sou veado e se fosse não pagaria para bandidinhos seminus se o fosse. Não me refiro de forma alguma aos moleques “bad-boy-style” da região, e nem mesmo às bichas velhas que os fazem ganhar seu pão.

Refiro-me aos artistas que vendiam quadros em frente ao parque, às margens da Paulista. Que vendam, se alguém os quiser comprar, mas convenhamos – por que cargas d’água todo péssimo pintor escolhe como temas barcos ou casebres barrocos? Que merda de graça tem nisso? Digo à minha namorada – ponha um rato morto pendurado na parede, mas se eu vir algum barco, pulo fora no minuto seguinte.

Já pensei em sugerir ao IBGE – que incluam no censo, além do número de televisores e geladeiras, o número de quadros de barquinhos ou casebres nas residências brasileiras. O número seria assustador. Quem sabe daqui cem anos estudantes de arte terão aulas sobre o período Trianoísta.

- Professor, qual a principal característica do Trianoísmo?

- Barcos, meu filho. Barcos.

- Mas e aqueles casebres barrocos meio sujos?

- Também – basicamente é isso: barcos e casebres.

Com o fim das obras na calçada, muito provavelmente os grandes nomes do Trianoísmo regressarão às margens do parque, porém como em todo movimento “artístico”, é capaz que sofram algum tipo de influência. Quem sabe dessa vez não mudem ao menos as calçadas em frente aos horrorosos casebres.

Bons tempos aqueles em que você sentava numa mesa de bar, olhava para o primeiro garçom que aparecesse e mandava “opa, me traz uma breja”. Alguns minutos depois a garrafa e os copos estavam à sua frente, para imediato consumo.

Isso é passado. Infelizmente ou felizmente? Só o tempo dirá. Hoje os garçons possuem um nível de especialização capaz de deixar qualquer engenheiro ou técnico boquiaberto. O cliente deve escolher com cuidado o garçom, sob pena de ser preterido cruel e despojadamente.

Embora minha namorada não possa ser caracterizada como dotada de paciência budista, costuma ser mais compreensiva do que eu om garçons. Em nossas várias saídas pude aprender muito sobre a nova abordagem do setor “garçoneiro”.

Noutro dia estivemos num restaurante. Nada chique demais, porém assim que sentei, chamei o garçom e logo ouvi: “perdão, senhor, vou chamar o garçom desta mesa”. Imediatamente, ouvi explanações de minha cônjuge sobre a divisão racional do restaurante em áreas, para facilitar o atendimento.

Facilitando ou não, chegou um segundo garçom. Pedi duas cocas, uma normal e outra light. Como já conhecia o restaurante, sugeri à minha namorada pedir os pratos. Fui interrompido novamente – o garçom em questão somente anotava bebidas. Com um sorriso, o rapaz saiu de fininho.

Chamei o maitre. O homem foi atencioso e disse que iria providenciar, embora também não tenha anotado o pedido. Logo chegou um terceiro garçom, incumbido de tomar nota dos pratos.

As bebidas foram trazidas por um quarto rapaz, chamado ‘cumim’, segundo minha namorada. Este seria um ajudante do garçom. Ok, mas de qual deles? Do que anota os pratos ou do que anota as bebidas? A essa altura, admito, já estava confuso.

Terminamos a refeição. O garçom das bebidas veio e perguntou se gostaríamos de uma sobremesa. Fiz que sim. O carrinho dos doces foi então trazido por um quinto lugar. Aqui, comecei a imaginar os discursos entoados a respeito do desemprego. Se há necessidade de cinco pessoas para atender-me em um restaurante, não vejo como podem ser tão altos os níveis de desemprego. Metade da população do Brasil, doravante, passou a ser constituída de garçons, maitres e cumins.

De saco cheio, pedi a conta. Claro que pedi ao cumim, que comunicou ao garçom – seja ele o dos pratos ou o das bebidas -, que advertiu o maitre, que trouxe a conta. O troco? Foi trazido pelo cumim. Na saída, entreguei o ticket ao rapaz do valet e calculei – sete pessoas foram necessárias para que eu fizesse uma única refeição.

Bom, vou indo nessa. Acabo de receber um email de minha sede em Londres, para que cubra um evento em Vitória. Preciso ligar para o Juan e pedir para ele confirmar a viagem com a empresa, para que eu possa enviar o Eduardo, no caso da Joana não poder viajar na semana que vem.