Contos Aeroportuários I – A Inauguração

dezembro 8, 2007

Ando viajando bastante ultimamente. A negócios? Na maioria das vezes. Mas, este fim de semana, por exemplo, vou a Buenos Aires. Motivo: turismo. Tem feito parte do meu cotidiano nos últimos dois anos passar algum tempo em saguões e áreas de embarque e desembarque de aeroportos. Dentre os lugares com pessoas curiosas e excêntricas, talvez o aeroporto seja o pior, ou ao menos o maior deles.

Bem, voltando o cerne da questão. Semana passada estive em Belo Horizonte. Jamais havia desembarcado no aeroporto de Confins. Descobri o porquê do nome. É uma espécie de Viracopos à mineira. O táxi, pela distância mostruosa percorrida, até que saiu barato – R$ 85,00. Fui dar uma palestra. Hoje em dia o nível dos palestrantes caiu tanto em eventos que chamam até jornalistas para se apresentar.

Cheguei na sexta e fiz minha apresentação no sábado de manhã. Bom, antes do almoço da convenção resolveram despachar-me num táxi. Cheguei faminto no aeroporto. Havia lá uma espécie de “pub” matuto que não me agradou. Eu queria algo rápido, pois restava cerca de uma hora para meu embarque.

Foi quando avistei um quiosque do Bob’s, misteriosamente cheio de funcionários em pleno horário de almoço – uma da tarde – porém com um tapume e uma cancela em volta das mesas e cadeiras.

Cerca de 20 pessoas aguardavam ao redor. Perguntei porque do tapume. “É porque vamos inaugurar hoje, senhor”. Respondi, curto: “ótimo, inaugurem agora, meu vôo sai em uma hora”. Ouvi alguns protestos em apoio, das pessoas que aguardavam.

O fato é que tivemos de esperar mais meia hora. Os recém-funcionários da lanchonete tiraram fotos, fizeram poses, ensaiaram posturas e frases feitas, entoaram cânticos obviamente vendidos pelos departamentos de marketing ou R.H. e até fizeram uma oração.

Tudo pronto, enfim, e conseguimos fazer os pedidos. Os funcionários novos, coitados, tratando os clientes como completos ignorantes. Como no Bob’s há vinte anos – sempre o mesmo sanduíche, o Big Bob. Contudo, uma vez que, para os idealizadores do treinamento eu sou parte do treinamento, tive de ouvir lições, explicações e teorias científicas sobre o sanduíche que como há vinte anos e que, desde então, jamais foi alterado.

Ok, vinte minutos para o embarque no portão B, consigo meu sanduba – meio desmontado, pouco molho, o queijo cru e sem derreter e a alface em todo lugar, menos dentro do lanche. Como sem reclamar, levanto e volto para São Paulo.

Ocorreu em BH, mas poderia ser qualquer outro lugar. Entretanto, demonstra bem uma de minhas teorias a respeito das atuais empresas prestadoras de serviços: “muito espetáculo e pouco resultado”. O sanduíche, com todo o espetáculo, o treinamento e a “política de atendimento ao cliente” continua o mesmo – mas com o queijo sem derreter.

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