Cervejas, 300 reais e uma história de Natal

dezembro 25, 2007

Não gosto do Natal. Acho uma data que exalta os sentimentos de hipocrisia humanos. As pessoas abraçam pessoas as quais assassinariam com a mesma facilidade com que abraçam seus parentes mais queridos.

O fato é que este Natal, para mim, não foi diferente. Fui obrigado a quebrar um pau com minha possessiva e conservadora mãe, que deu suas “opiniões” sobre o fato de eu resolver passar parte do Natal (digo parte porque passaria com ela até onze e pouco) na casa de minha namorada. As mães costumam reduzir seus QIs a níveis de equinodermos todas as vezes que há uma possibilidade de que seus filhos deixem a casa. Minha mãe atuou como um pepino-do-mar esta noite de 24 de dezembro.

Eu poderia ter deixado barato, mas não o fiz. Não feche jamais a porta na minha cara – ela será desintegrada por um ‘roundhouse kick’ imediatamente. Foi o que ocorreu. Resultado: machuquei o pé e mandei tudo à merda, resolvendo guiar sem rumo durante a noite de Natal.

Vaguei por quase uma hora. Precisava me abrir com alguém, mas não queria que fosse alguém conhecido. Vaguei por mais meia hora. Resolvi parar em um posto de gasolina e tomar uma cerveja, além de comprar cigarros, pois os meus haviam acabado.

Não havia ninguém no posto exceto pelo frentista, o rapaz da loja de conveniência e um outro cara de boné, com seus vinte e poucos. Este último ficou olhando enquanto eu descia e comprava cigarros.

Logo descobri. Assim que saí da loja, o cara deu voz de assalto. Armado, parecia nervoso. Pedi calma, dizendo que ali não havia mais ninguém e que ele não precisava ter pressa. Foi então que tive um estalo e, uma vez que o rapaz pareceu acalmar-se, comecei a falar:

– Então.. estou com 300 reais do limite no 24 horas ainda. Posso sacar para você, de boa, é só ter calma, amigo.

– Firmeza, mas saca logo então, eu espero aqui fora. Mas tô de olho, hein boy!!!

– Sossegado, sem problema. Aguenta um minuto aí.

Qual não foi a cara de surpresa do maluco quando voltei com os 300 reais na mão e mais duas latas de cerveja. “Você é meio zoado das idéia, né boy?”

Eu disse para ele que não. Disse que, já que eu já havia sido assaltado, então que se foda. Eu estava na merda em uma noite de Natal; ele, na mesma. Vamos tomar uma cerveja então e jogar conversa fora. Não paga nada.

Ainda estupefacto, o meliante botou a arma no bolso e pegou a lata. “Mas nem vem com gracinha, boy, senão te furo geral”. Disse a ele que ficasse tranquilo, que eu só queria alguém para trocar idéia e meter o pau nos filhos da puta da família.

O começo foi bastante artificial, mas em vinte minutos conversávamos como amigos de infância. Os caras do posto e da loja não entenderam merda nenhuma. Ele contou sobre seu filho, que estava com cinco anos, mas cuja mãe não deixava sequer vê-lo. Teve de enviar o presente do moleque pelo Sedex. Sua mãe e seu pai moravam em Crato, no Ceará, e em São Paulo tinha apenas um tio. Um belo filho da puta, o tio. Gastava o salário de gari para comer prostitutas no Glicério e uma vez por semana levava um leitinho para casa. Em compensação, chegava mamado de cachaça.

Conversamos durante três horas. Seis ou sete latinhas cada um, uma garrafa de Red Label 400ml e até uma Smirnoff Ice. O cara já estava bêbado, não falava mais coisa com coisa e evidentemente havia até mesmo esquecido que me assaltara.

A hora havia chegado. Eu estava mais calmo. O desabafo funcionara. Disse a ele que iria ligar para minha namorada, se ele não se importava. Ele falou que não tinha problema. Afastei-me uns dez metros, enquanto ele continuava bebendo cerveja.

Fui rápido e profissional. Liguei para o 190, passei endereço, descrição do cara, horário da ocorrência e afirmei que o elemento ainda estava no local. Voltei, sorrindo perguntei se ele aceitava a “primeira saideira”, e o rapaz fez que sim.

Em cinco minutos a polícia chegou. Corri algum risco do lado do cara, mas o álcool fez com que ele demorasse a perceber. Quando se deu conta, estava algemado, com a cara no chão e me xingando. O policial me fez algumas perguntas. Disse que o cara teria 300 reais no bolso. O policial recolheu e me devolveu. Ofereci um café aos policiais, mas eles declinaram, queriam “conversar com o filho da puta que arrancou eles da delegacia no Natal”.

O cara chorava, me xingando de “traíra”, filho da puta e uns elogios mais. Agradeci. Antes um pouco de meterem o gatuno no camburão, ele perguntou: “cara, você é doido… achei que a gente tava ficando bróder!”

Foi então que simplesmente saiu: “bróder? Você é a doença, eu sou a cura”. Obrigado, Stallone Cobra e Feliz Natal para você e todos os seus.

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3 Responses to “Cervejas, 300 reais e uma história de Natal”


  1. Olá, como você disse lá no meu blog, genial, só que acrescento o doentio….rs…
    Difícil ver alguém com uma atitude assim.
    Abraços.

  2. Stallone Cobra Says:

    A culpa é do juiz. A gente prende, o juiz solta…

  3. Mônica Says:

    Que puto!

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