Arnaldo Cavalcante, o Detetive Modelo

dezembro 29, 2007

Duas da manhã, Baixada do Glicério. O detetive Cavalcante passeia pelos escombros do Elevado, enquanto seu parceiro fuma um cigarro, olhando para a janela com cara de merda. Cavalcante rodara sem parar durante as últimas duas horas e, por mais que Marçal insistisse, não parava em butecos. “Nunca se sabe quando teremos uma ocorrência”. Marçal perdera o bolão da Copa, ficara em último lugar. O prêmio maior pagava mil reais. Para o perdedor, dois anos com Cavalcante.

Cavalcante não jogava. Não bebia. Não fumava. Casara-se com dezessete, com uma prima de segundo grau… virgem. Resolvera ser policial para servir como o pai, este último coronel reformado. A caserna não era mais a mesma, mas havia alguma dignidade na polícia.

Todos odiavam Cavalcante. Com 43 anos, mantinha conduta modelo em tudo que fazia. Era como um policial certinho de filmes americanos, numa versão sem qualquer glamour e sem histórias marcantes.

Ainda dirigia um Opala. Achava que polícia tinha que ter distinção e tradição. Respeitador, o detetive não revistava, fazia “averiguações”. Não prendia, “arrestava”. Não emprendia emboscadas, “dava voz de prisão”.

Duas e meia da manhã. Marçal insiste que a ronda acabou, mas Cavalcante segue. O turno vai até as quatro. Marçal dorme. Súbito, Cavalcante acorda Marçal aos berros – uma ocorrência. Um elemento de vinte e poucos anos sai em disparada da Igreja Universal do Reino de Deus. Pessoas gritam à porta do templo.

Cavalcante acelera a viatura o mais que pode (80 km/h) e vai ao encalço do elemento, que agora mais de perto, parece gritar além de correr. Pára o carro metros adiante do rapaz que corre, desce da viatura, mostra o distintivo e o revólver e atira para o alto. Parece uma cena dos vídeos “As Fugas Mais Incríveis”.

Ao descer da viatura, Marçal põe a mão na cabeça. Cavalcante está com o rapaz algemado, que ainda treme e grita. Algumas pessoas que estavam à porta do templo se aproximam. Cavalcante prendera um “encosto”.

Ainda sem entender, Cavalcante vira para o parceiro e exclama: “esses trombadas de hoje, cada vez com reações mais bizarras”. Marçal dá de ombros, solta o rapaz e pede desculpas aos pastores, que a essa altura já colavam a viatura, putos pela intromissão em sua “Sessão Descarrego”.

Marçal puxa o companheiro em direção à viatura, dizendo “bora, Cavalcante, a ronda acabou”. Cavalcante responde de chofre: “não, não, são só três e quinze. O que é certo é certo”.

Marçal larga o companheiro e corre, a ponto de alcançar um dos pastores que iam em direção à Igreja. “Por favor, tem como incluir meu nome na lista de oração”?

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3 Responses to “Arnaldo Cavalcante, o Detetive Modelo”

  1. Eugênio Says:

    Está engraçado. Mas permita-me apontar algumas incongruências: o cargo de detetive é da polícia judiciária. E a polícia judiciária não faz ronda. Quem o faz é a polícia militar. A polícia judiciária faz investigações para confecção do inquérito policial. A polícia militar é que faz rondas de policiamento preventivo. Detetives trabalham em delegacias, não na caserna, que é alojamento de militares.


  2. […] 31, 2007 Não que não aconteça nada na vida do famigerado detetive-modelo Arnaldo Cavalcante (leia o início da saga). Contudo, com seus 43 anos de idade, e 24 de polícia civil, jamais fora chamado para atender a […]

  3. Carlos Matos Says:

    Valeu, Eugênio, mas eu realmente estou a par de todas as incronguências. Apenas achei que, misturando funções e situações, a coisa toda ficaria mais divertida. Ademais, a corporação e a estrutura da polícia, assim como o resto do país, são uma zona. Mas continue lendo, Cavalcante ainda passará por várias.

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