Detetive Cavalcante e o Caminhão das Casas Bahia

janeiro 5, 2008

Sacanagem. Mudaram o Cavalcante de Distrito. Agora o coitado trabalha pras bandas do Guarapiranga, na 102ª DP. Nada mais do glamour do Centro e de seus passeios pelas ruas bucólicas da Sé, República e imediações.

Marçal saiu ganhando – ficou para trás. Cavalcante teria de achar outro parceiro para suas rondas. Contudo, já viera parar ali com certa fama, e assim, mais um vez, o troço foi decidido na base do bolão. No final, o bolão não valeu nada, puseram com ele o investigador Tonhão, aquele mesmo, que tinha fodido uma viatura na parede de um puteiro da Avenida Santo Amaro e deixou no prego. O delegado aliviou o conserto do carro, mas agora, que precisava de um “favorzinho”, Tonhão rodou gostoso.

Primeiro dia de batente de Cavalcante – calça social, camisa de linho, terno no ombro e sapato brilhando. Os outros investigadores já botaram a mão na cabeça, “esse vai dar trabalho”. Chamou o Tonhão, pois já o haviam comunicado sobre a parceria. Para facilitar, o delegado deu a Cavalcante um turno vespertino. Ladrão que é ladrão rouba ou na ida, de manhã, ou na volta da “correria”, de noite. São poucas as ocorrências na parte da tarde, tirando alguns furtos e uns poucos roubos.

Tonhão aliviou, tentou ser simpático e puxou assunto sobre o trabalho de Cavalcante no Centro. Cavalcante contou várias histórias – uma mais trivial que a outra. Tonhão, repetindo o antigo parceiro Marçal, calou a boca e acendeu um cigarro.

Foi uma tarde tranquila. Uma tentativa de furto e rapidamente o meliante foi pego por Tonhão, que chamou a PM para efetuar o transporte do detido. Tonhão era policial dos bons, malandro, mas destemido. Não deixava barato, mas fazia o trabalho.

Voltaram à delegacia, cumprimentaram o delegado e foram cada um para sua casa. Cavalcante chegou feliz em casa… talvez os ares tranquilos da periferia fizessem bem a ele. Já não era novo e tinha que cuidar da saúde.

De manhã, recebe uma ligação do delegado. Roubo, mão armada, três elementos, levaram um carregamento inteiro das Casas Bahia, com carreta e tudo. O motorista não sabia mais do que isso. O delegado disse a Cavalcante que ele e Tonhão tinham que “achar” o caminhão.

Cavalcante desligou. Era uma difícil missão – “achar” o caminhão. Mas era seu trabalho e o faria da melhor maneira possível. Botou o terno e foi para o distrito encontrar com Tonhão.

Chegando ao distrito, a surpresa. Já haviam localizado o caminhão. Como a polícia hoje é aparelhada e competente, pensou logo o Cavalcante. O delegado deixou a recuperação na incumbência dos dois.

Quando chegaram ao caminhão, abandonado perto de uma padaria na Vila Natal, verificaram que faltava cerca de metade da carga. Cavalcante achou estranho, mas Tonhão logo explicou: “eles levam o que podem no braço até chegarmos, normal”.

Pois bem. Junto com a PM, levaram de volta o caminhão. No dia seguinte, ao chegar na delegacia, Cavalcante encontrou alguma algazarra, enquanto policiais saíam com caixas nas mãos. O delegado estava distribuindo as caixas. Sem graça, Cavalcante se aproximou e o delegado lançou: “aí, Cavalcante, aparelhos de DVD, pega um para ti, rapaz”.

Cavalcante, sem jeito e com expressão de agradecido, logo respondeu: “desculpe, seu delegado, mas não posso aceitar o presente. Comecei só faz dois dias e além disso, sabe como é, sou das antigas e só com meu videocassete já tropeço que é uma beleza”. Correu para a ronda, imaginando como eram desprendidos os delegados de hoje.

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