Ex-Mulheres III – “O Ator de Teatro Alternativo”

janeiro 10, 2008

Todos dizem gostar de teatro alternativo. Poucos realmente gostam. Não sei se é a educação que alimenta a hipocrisia das pessoas, ou o medo de compreenderem menos que o próximo. O fato é que, ainda que 90% das peças e ensaios do teatro dito alternativo não façam um caralho de um sentido, todos elogiam seus atores e dramaturgos, elevando-os à condição de gênios.

Joelma não aguentou. Botou Helton pra fora de casa. Não adiantou… o maluco juntou toda sua companhia de teatro (que Joelma chamava carinhosa de “bando de mendigos que se acham cultos”) e prostrava-se diariamente na rua, em frente ao sobrado, fazendo serenatas, juras de amor, peças de casais que reatavam e toda a sorte de manifestações bizarras.

Joelma não aguentava mais… já passara dois meses, e a companhia de teatro da porta de sua casa seguia. Até que um dia teve uma idéia. Foi até a janela que dava pra rua e gritou: “porque vocês não seguem o exemplo dos atores da Globo? Todos eles ganham dinheiro na emissora e ainda assim conseguem tempo para atuar no teatro”.

Os atores, inclusive Helton, começaram a protestar indignados. Joelma fechou a janela. Helton se foi com sua companhia. Os dois nunca mais se viram. De lá pra cá, Joelma já saiu com muitos caras, mas nunca dá certo – conhece, marca, vai jantar, pega um cineminha, até o momento em que o cara quer ser um pouco mais classudo e manda: “está passando uma peça excelente, podemos ir ver”.

Joelma nem pensa. Manda tomar no cu, vira as costas e vai embora. Teatro? Onde já se viu? Aquele monte de palhaço metido a gênio…

Quando se tem vinte e poucos (bem poucos…) e se é uma menininha metida a intelectual, um ator do circuito alternativo, que não sai com amigos, mas “faz experiências coletivas”, é o maior barato. Quando se tem mais de 40 é certamente uma excelente justificativa para um homicídio premeditado.

Joelma era uma universitária metida a intelectual, bem, como 90% dos estudantes de nível superior da área de humanas no final da década de 70, começo dos anos 80. Helton era um rapaz bastante conhecido nos corredores da USP. Fazia apresentações inusitadas em todo o campus, alegrando e surpreendendo estudantes e agregados.

Joelma se apaixonou… normal, 90% das meninas pagavam um pau violento para tipos como Helton naquela época (pensando bem, ainda hoje). Com uma única diferença: Helton também se viu atraído pela moça. Eles, prestes a concluir o curso de artes dramáticas, já tinha sua própria companhia de teatro, que realizava espetáculos gratuitos em antigos teatros do centro da cidade.

Já Joelma estudava psicologia – boa aluna, desdobrava-se em mil para acompanhar todas as aulas e ao mesmo tempo comparecer às apresentações do namorado. Formaram-se os dois em 1983 e dois anos depois se casaram.

Helton ganhava pouco com seus espetáculos e peças. “O governo não patrocina a arte nesta merda de país”. Joelma concordava, mas já em 1988, quando estava disposta a ter seu primeiro filho, resolveu fazer as contas. Não era exatamente uma surpresa, mas ela descobriu que estava mantendo 90% da casa. E olha que, em seu trabalho como psicóloga do time de futebol do Juventus, até ganhava uma graninha, mas nada espetacular.

Helton ganhava, uma ou duas vezes por mês, um trocado ou outro, nas poucas peças não-beneficentes que fazia. Sempre dizia que “a solução deste país está em trabalhar um pouco em pról do próximo”. Bem, comida na mesa que era bom merda nenhuma.

Joelma foi perdendo a paciência. Além de não manter a casa (na verdade não colocava um puto), era um vexame em festas com amigos e parentes. Tudo para ele era atuação. Atendia convidados fazendo caras e bocas e recitando frases idiotas saídas de alguma parte do cérebro que o ser humano não costuma utilizar, mas que a natureza teve um bom motivo para não permitir o uso. Esqueci de mencionar, mas todo ator alternativo tem certeza de que também é poeta.

“Lamúrias… introspecção do ente que abraça a causa, ainda sem saber que a consequência é seu porvir”, e por aí vai. Aos 22, Joelma achava lindo. Hoje em dia tinha a mesma opinião de qualquer adulto bem instruído e que paga suas contas: uma bela duma merda!

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3 Responses to “Ex-Mulheres III – “O Ator de Teatro Alternativo””

  1. Lucas Says:

    Eu escrevi um poeminha em prosa no meu blog sobre os teatros alternativos na praça roosevelt… Todo mundo vai ver, não entende porra nenhuma e sai com cara de intelectual… hahaha… 😉

  2. Nanda UP Says:

    Perfeito!

    E a Joelma é foda! E foi a única que não se precipitou.

  3. majestor Says:

    Não cara Nanda, na verdade, essa Joelma é FOGO!!!

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