Ex-Mulheres VIII – “O Contador”

janeiro 27, 2008

Marcela era uma mulher simples. Desde os dezesseis trabalhava no mesmo escritório de contabilidade. Tanto assim que quando fez 26 casou-se com um dos contadores da firma. Foi um casamento sem luxo, mas tradicional, tudo feito na ponta do lápis.

Ernesto era um bom homem. Trabalhador, metódico e bem afeiçoado à família. Um “homem à moda antiga”, como dizem por aí. Tiveram dois filhos e foram morar perto da Freguesia do Ó, num bom apartamento. Podiam ter comprado um na Vila Mariana, mas o preço não valia a pena.

Marcela parou de trabalhar. Todos os meses Ernesto separava o dinheiro das compras, fazendo a correção pela inflação a cada três meses. “O segredo é acompanhar o custo de vida”, dizia, orgulhoso.

A esposa foi aprendendo aos poucos a fazer contas, controlar o dinheiro e chegava a adivinhar quanto Ernesto ainda tinha na conta, quanto daria no próximo mês, etc.

Já iam dez anos casados e Marcela começou a agir de modo estranho. Não conversava. Sempre que Ernesto chegava em casa, ela estava entretida com um lápis e um caderno. O marido perguntava e ela tergiversava, dizendo estar “fazendo umas contas”.

O tempo passou e Marcela seguiu com sua mania. Ernesto se acostumou, e raramente perguntava algo. Continuou com sua rotina, dando o dinheiro mensalmente a mulher, corrigindo, etc.

Um belo dia, quando Ernesto chegava, a mulher o recebeu com o caderno na mão, cara enfezada e apenas bradou: “senta aí, quero conversar contigo”. Ernesto, atônito, resolveu obedecer, e sentou-se à mesa da sala.

Marcela atirou o caderno à frente do marido e ficou parada, esperando uma reação. Ernesto olhou… viu algumas anotações sobre índices de inflação, outras sobre juros de poupança e aplicações financeiras, outras de recálculos de financiamentos e compras a prazo. Pareceu entender, mas fez a pergunta “migué”: “o que significa isso, mulher”?

“Dez anos, Ernesto, dez anos… faça aí suas contas, faça”! O marido, ainda perplexo, insistiu: “não estou entendendo merda nenhuma, Marcela. O que você pretende com esse caderno e esses rabiscos aqui”?

A mulher bufou, sentou-se na cadeira em frente a Ernesto e começou: “simples, meu querido, eu aprendi a fazer contas. Como ninguém, diga-se de passagem. Por isso mesmo encontrei alguns equívocos nas suas”. Ernesto ia perguntando “que equívocos”, mas não teve muito tempo para fazê-lo.

“Quantas putas você comeu com R$ 30.000,00, seu filho da puta? Quantas”?

Ernesto não disse uma única palavra. Levantou-se e foi até quarto, pegando uma mala de viagem. Colocou a maioria das roupas, despediu-se dos filhos, pegou a chave do carro e foi embora. Juntou depois com uma jornalista – linda, bem-sucedida, mas não sabe somar dois com dois. Marcela está rica. Formou-se faz cinco anos e hoje presta consultoria.

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