Ex-Mulheres IX – “O Alfaiate”

janeiro 28, 2008

Gilberto fazia milagres com uma agulha. Veja bem, não era costureiro – era alfaiate. Daqueles das antigas, que faziam ternos para políticos a olho, com uma fita métrica e alguns alfinetes, nada de rabiscos e desenhos.

Fabíola era filha de vereador. Seu pai, Jucélio do Carmo, já integrava a câmara da cidade pela quarta vez consecutiva e como engordara muito desde então, pediu encarecidamente a sua filha que levasse os ternos para alargar no Gilberto.

A menina tocou a campainha do alfaiate, que abriu a porta da frente, bem distante da rua, e pediu que entrasse. Ela subiu as escadinhas segurando os ternos e adentrou a sala do rapaz, que trabalhava ajustando um vestido que parecia ser de noite.

Fabíola era uma menina linda e Gilberto não tardou a perceber. Como ele também não era de se jogar fora, ao primeiro entrecruzar dos olhos de ambos, Gilberto deixou as agulhas caírem e Fabíola fez o mesmo com o terno.

“Vim pedir… os ternos… do meu pai. Ele quer que alargue…”, Gilberto recolheu os ternos no chão e largou em cima de uma mesa. Perguntou a ela se aceitava café. Claro, mais uma semana e estavam namorando.

Quando Gilberto foi entregar o terno, já aproveitou a viagem e pediu a Jucélio a mão da filha. Este fez alguns minutos de suspense, mas aceitou. Na verdade, lhe agradava a idéia de ser alguém conhecido e de confiança a casar com a filha. Assim sendo, anuiu.

Casaram. Foi maravilhoso – Gilberto fez o próprio terno e tudo mais. Para a mulher, o casamento era um sonho. Imagine – um homem que faz roupas para ela, não era maravilhoso? Bem…

Fabíola demorou a perceber. Porém, passados dois anos, notou que todas as vezes nas quais esbarrava com uma amiga, essa lhe perguntava se havia engordado ou se estava grávida.

Um inferno, por mais magra que estivesse e por mais regimes que resolvesse fazer, o resultado era sempre o mesmo. Estava gorda. Demorou alguns meses e várias piadas, mas um dia Fabíola teve um estalo.

Pegou o primeiro vestido que viu no armário, enfiou na bolsa e levou a uma costureira de bairro. Pediu para ajustar. A senhora tirou as medidas e deu o preço. Uma semana depois, Fabíola pegou o vestido, puxou o telefone e marcou um chope com duas velhas amigas.

Chegou no bar com o vestido. Sentou, cumprimentou as amigas, pediu um chope e jogou algum tempo de conversa fora. Até que veio a surpresa, de uma de suas amigas: “nossa menina, você emagreceu”?

A outra companheira deu o mesmo veredito. Fabíola esbanjou um sorriso satisfeito e continuou a conversa. Chegando em casa de madrugada, acordou o marido. Perguntou para ele se estava gorda. A resposta foi mais do que esperada: “não, meu amor, mas você precisa de um ajustezinho no vestido”.

Maldito ciúme. Gilberto passara os últimos dois anos e meio ajustando vestidos para que a mulher parecesse gorda. Sim, era um exímio alfaiate, mas um filho da puta ainda maior. Fabíola fez suas trouxas e puxou o carro. Chegando em casa, contou tudo à mãe, e obvimente recebeu imenso apoio.

Não ouviram mais falar de Gilberto. Dizem as más línguas que casou com uma enfermeira gordinha. Jucélio passou a comprar ternos na Armani. E Fabíola, bem, só faz vestidos com costureiro agora. Viado a-do-ra mulher magra.

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