Ex-Mulheres XII – “O Professor de História”

fevereiro 6, 2008

Graziela estava de saco cheio da universidade. Não gostava tanto assim de Sociologia e, agora que estava prestes a se formar, começava a se preocupar com a profissão. Que rumos pode tomar um sociólogo, além de dar aulas. Não tinha perspectivas e faltava muito pouco para que mandasse tudo à merda.

Faltava um mês para a formatura e conheceu Roberto, um mirrado professor de história que, apesar de delgado e franzino, era bastante bonito. Um dia resolveu usar seu trabalho de conclusão sobre a Diáspora para aproximar-se dele.

Muito sério, Roberto manteve a compostura, sugeriu uma bibliografia extensa e deu seu telefone, caso Graziela “precisasse de ajuda”. Graziela não precisava de tanta ajuda assim, mas até que precisava de um homem.

As amigas encheram o saco, pois o cara era mesmo mirrado, mas ela acabou ligando assim mesmo. Disse querer ouvir as “teorias” de Roberto sobre a diáspora judaica. Marcaram um encontro… um café.

Assim que ambos chegaram, trocaram uns 15 minutos de papo sobre a história de judeus e hebreus, mas logo Graziela perdeu a paciência e lançou um “professor nunca beija na boca”? O resultado… sim, transaram naquela noite.

O namoro acabou vindo como consequência. As amigas não podiam acreditar, mas Graziela não estava brincando – além de inteligente, Roberto transava bem, muito bem por sinal. Bem, isso acabou sendo motivo mais do que suficiente para o posterior casamento.

Além disso, Graziela terminara a dissertação de mestrado – claro que Roberto ajudou, e como ajudou. Mas Graziela era uma mulher inteligente. Só que com o tempo e a proximidade das profissões, tornou-se inevitável espelhar sua carreira no conhecimento histórico de Roberto.

Mas assim que concluiu suas titulações, Graziela começou a sentir-se desconfortável. Roberto era Império Otomano no café, Khublai Khan no almoço e Normandos no jantar. Papos dos mais triviais como “vou ao supermercado comprar leite, quer alguma coisa” evocavam passagens históricas das mais desconhecidas em Roberto.

A relação foi ficando monótona e logo Graziela tinha um punhado de amantes. Gilberto era um árabe, cuja família tinha ajudado a fundar o emirado de Abu Dhabi. Márcio era um argentino que havia perdido o pai nas Ilhas Malvinas, hoje Falkland. Arnaldo tinha parentes cubanos – moravam perto da Baía dos Porcos, lugar onde os norte-americanos fracassaram numa tentativa de invasão.

Demorou a se tocar – procurava homens com histórias interessantes. Conclusão: continuava precisando de um homem (ou vários), mas havia tomado gosto por História. Alguns meses depois largou Roberto.

Graziela foi morar nos Estados Unidos e tardou a voltar. Semana passada encontrou com as amigas. Escreveu um livro de história contemporânea, com passagens narradas por todos os seus ex-amantes. Nem a fundação do Sultanato de Brunei escapou a seu apetite sexual. Vendeu mais de 80 mil cópias – Graziela era uma celebridade entre mulheres comuns, mas também entre estudiosos.

Mas ainda precisava fazer algo. Estava de volta ao Brasil por esse motivo. Passou no casebre onde atualmente morava Roberto e enfiou um envelope por debaixo da porta. Quando Roberto chegou em casa, viu o envelope. Abriu e encontrou apenas duas coisas, sem sequer uma assinatura: 10 mil dólares em dinheiro e um pedaço de papel com os dizeres “muito obrigada”.

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One Response to “Ex-Mulheres XII – “O Professor de História””

  1. Nanda UP Says:

    Adorei esse conto! Esse dá pano prá manga! Literalmente, dele, podem surgir muitas histórias novas… 🙂

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