Ex-Mulheres XV – “O Tenente”

fevereiro 22, 2008

Marília morava ao lado do quartel da Vila Mariana. Desde pequena, sempre gostava de ficar horas no quintal de casa, observando os soldados e oficiais que iam e vinham fardados. Era fascinada por uniformes – já tivera namoros com bombeiros, policiais, motoristas de ônibus e até um atendente da TAM. Mas nenhum uniforme superava uma farda militar. Infelizmente, ainda que tivesse fixação na coisa, jamais havia tido a oportunidade de se relacionar com um milico.

Um dia, quando descia a rua para ir à padaria, prestando atenção na lista de comprar que sua mãe havia preparado, esbarrou em um rapaz de farda. Ao abaixar para recolher suas coisas, bateu o olho na farda e entendida que era, logo disse “desculpe, tenente”. O rapaz achou admirável que uma mulher, apenas de relance, pudesse reconhecer uma patente militar. Disse que não era nada e a convidou para um café na padoca.

A conversa foi boa e marcaram de sair. Em poucos meses estavam saindo quatro ou cinco vezes por semana. A mãe gostava do rapaz e pressionou Marília, e os dois acabaram casando. A menina acompanhava o marido – Gerson – para todo canto. Porém, aos finais de semana sempre arranjava algum compromisso religioso, de família ou algo beneficente.

Passado um ano, Gerson foi promovido a capitão, em mais cinco meses era major, e quatro anos depois, alçou um posto de coronel. A farda ia mudando e a felicidade de Marília, aumentando.

Todos estavam estupefactos com a carreira e evolução meteórica de Gerson, embora ninguém soubesse exatamente dizer porque ocorrera. O fato é que, uma vez coronel, Gerson não mais teve promoções de patente.

Quase dez anos se passaram e nada de aparecer uma chance para que se tornasse general. O general Laerte era quem mandava e desmandava na Vila Mariana e foi aquele responsável por todas as promoções de Gerson. Estranhamento, os dois nunca tinham se falado mais do que um minuto.

Mais algum tempo se passou e, aos 67 anos, o general Laerte faleceu. Mesmo postumamente, logrou a derradeira promoção para Gerson. Em uma carta, Laerte deixara uma recomendação de Gerson para assumir seu posto. O rapaz, agora um homem de 48 anos, foi convertido em general.

Após duas semanas ocupando a cadeira, recebeu uma carta. Era de Laerte. Abriu curioso o conteúdo da missiva e terminando, ligou para a mulher e imediatamente depois para seu advogado, pedindo para que procedesse o divórcio.

O conteúdo? Era este: “Caro Gerson, no exército existem duas formas de se alcançar tão rapidamente uma promoção – ou pela guerra ou pelo sexo. O Brasil é um país sem guerras. Quanto ao sexo… sua esposa possui fascínio por fardas e uniformes, mas digamos que ela gosta mesmo é de três estrelas no ombro. Boa sorte com a nova patente. Assinado: Laerte”.

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One Response to “Ex-Mulheres XV – “O Tenente””

  1. Silvana Utzig Says:

    hmm… ei, tu não atualiza mais?
    eu gosto tanto de ler teus textos =)
    beijo!

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