Ex-Mulheres XVII – “O Farmacêutico”

março 17, 2008

Jaqueline não era uma atendente das mais honestas. Arranjava remédios para as amigas sem receita e costuma dar em cima de farmacêuticos novos. Duas ou três vezes chegou até mesmo a filar alguns remédios para festinhas com amigos. No auge de seus 23 anos, era uma garota farrista como qualquer outra. Nada de excepcional.

Humberto pagava um pau em menininhas meio metidas a junkie – seu tipo era magra, branquela, vestida de preto e com cara de depressão. “Mulher pra mim tem que ter cara de doente”, dizia sempre aos amigos, quando saía de galera.

Apesar de brutamontes, usava roupas transadas, gostava de montar modelos e inventar estilos – os amigos tiravam um puta barato, mas Humberto estava pouco se fodendo. Levava a vida à base de remédios tarja vermelha (preta é caso sério) e cocotas com cara de doente terminal.

Acabou ingressando na faculdade de farmácia. Ia bem nas disciplinas, afinal conhecia mais remédios do que metade dos professores – já tinha tomado quase todos eles. Aos três anos da faculdade, começou a trabalhar – coincidentemente na mesma farmácia onde Jaqueline era balconista.

Jaqueline era tudo o que Humberto mais adorava – branca, pálida, magra, loira e com cara de doente. Além disso, trabalhava no mesmo lugar e adorava tomar remédios para dar barato. A coisa foi rolando e, mesmo porque ambos voltavam sempre de madrugada para casa, passaram os dois a morar na república de Humberto.

Os meses foram passando o Jaqueline parecendo cada vez mais doente – e Humberto, cada vez mais apaixonado. A moça já não enchia a cara de remédios e sempre perguntava ao namorado o que é que ela tinha, o que podia tomar. Humberto encarava como farra – julgava que a namorada queria era tirar onda e acabava receitando algo que dava barato para a companheira.

Jaqueline continuava cada vez mais aflita com sua saúde, mas Humberto dizia sempre que não era nada, passava um remedinho “segura-onda” qualquer e bola pra frente.

Um dia Humberto chega e a menina sumiu. Seus colegas nem a viram, nenhuma das amigas da moça sabe de nada e mesmo no trabalho, nem sinal de Jaqueline. Passam-se dois meses, até que os dois se encontram em um shopping.

Jaqueline, de mãos dadas com outro homem, vem ao encontro de Humberto e o cumprimenta. O rapaz, indignado, solta meia-dúzia de palavrões até se acalmar. Jaqueline espera-o terminar e começa a explicar o sumiço. A moça de doente já não tinha mais nada – estava até mesmo bronzeada.

“Humberto, se você quer morar numa casa decente, chama um arquiteto ou engenheiro, não um corretor de imóveis. Por outro lado, se você quer sempre sua saúde em dia, dê para um médico e não para um bosta de um farmacêutico”, concluiu a garota. Só então Humberto pôde enxergar o estetoscópio no pescoço do homem que acompanhava Jaqueline, ali, logo abaixo daquele sorrisinho jocoso.

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One Response to “Ex-Mulheres XVII – “O Farmacêutico””

  1. majestor Says:

    Caso Jaque tivesse falecido, Humberto poderia levá-la para repousar no http://www.alphacampus.com.br o melhor cemitério parque do Brasil.

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