Ex-Mulheres XVIII – “O Coveiro”

março 19, 2008

Uma colaboração de Híbsen Mestruca – Blog Van dos Quebrados

Márcia e Wallace formavam um daqueles casais que ninguém consegue entender. Não tinham absolutamente nada a ver. Ela era uma garota bonita, de classe média, astuta e inteligente, enquanto Wallace morava na favela, trabalhava em um cemitério local, além de ser introspectivo com qualquer pessoa que não frequentasse o bar do bigode na periferia de Juizadinho.

Ambos haviam nascido na cidade de pouco mais de 10.000 habitantes, mas nunca tinham se visto antes do falecimento de Dona Enésia, vizinha de Márcia, que fora sepultada no cemitério em que Wallace trabalhava como coveiro. É engraçado dizer isso, mas a garota ficou atraída pelo coveiro no momento exato em que ele praticava um sepultamento. Começou a visitar sua amiga morta, mais do que a visitava em vida, e tudo isso por causa do mais ou menos belo coveiro.

Wallace tinha o apelido de corvo, não por causa do negresco e mórbido pássaro tema de vários filmes, mas pelo fato do rapaz trabalhar como “corveiro”. Pelo menos, assim achavam seus amigos, ser o nome de sua profissão. O tempo passou e os dois engataram um namoro pouco aceito pelo lado da menina. O rapaz não tinha família e, por isso, não enfrentava as mesmas enchições de saco. A família fez de tudo para separar Márcia de um destino tão escasso em expectativas e realizações, mas ela estava apaixonada e afirmava que sempre seguiria seu coração.

O relacionamento foi ficando cada vez mais sério, e “Corvo” pediu a namorada que largasse a faculdade, pois dali em diante eles deveriam ficar juntos e o fato dela estudar seria prejudicial ao relacionamento dos dois. O pai de Márcia queria matá-la quando ouviu da boca da filha que ela abandonaria os estudos, mas ela respondia que estava seguindo seu coração.

Ela arranjou um emprego em uma pequena loja de confecções, e o salário que recebia era repassado para Wallace, que não perdia tempo para ir torrá-lo no Bar do Bigode. O “Corvo” pode tudo, diziam seus amigos. A mãe, ao saber, que a filha cedia sua remuneração para que o cafajeste fosse beber num bar, a visitou exigindo que ela cessasse aquela história toda ali. Mas a filha repetia que apenas seguia o que seu coração determinava.

Contra a vontade de todos e sem a presença da família de Márcia, os dois casaram em um 13 de agosto. Não fizeram festa pois não tinham dinheiro e o pai de Márcia recusou-se a gastar um centavo que fosse. Os anos foram passando, e a garota perdendo contato com a família. Tudo ia bem, mas vez em quando aparecia no trabalho com um olho roxo. Corvo havia se revelado um homem bem violento. As amigas de confecção imploravam para que ela deixasse o marido, mas ela continuava repetindo o discurso do coração.

Meses depois, a garota estava em casa se recuperando de uma surra que havia levado do marido, quando ouviu um bater de palmas no portão. Ficou emocionada ao ver que era sua mãe quem estava ali. Correu para abraçá-la, mas teve o pulso agarrado pela senhora que começou a arrastá-la pela rua. Márcia pedia inutilmente para que a mãe a soltasse, porém a determinação daquela senhora era louvável. Alguns quarteirões depois, a mulher avistou o que sua mãe queria lhe mostrar: Corvo estava no bar bebendo cachaça cercado de amigos e com uma fogosa morena a tira-colo. A visaão daquela traição foi demais para Márcia que começou a sentir uma forte dor no peito, caindo desmaiada no duro paralelepípedo da rua.

Minutos depois recobrou a consciência, acalmou a preocupação da mãe soltando um “agora, estou bem.” Levantou-se e caminhou para a casa. A mãe aguardou do lado de fora do portão enquanto Márcia pegava seus pertences na casa. Todavia, ao invés de levar os pertences embora, começou a cavar um buraco no jardim da casa. E lá colocou seus pertences.

Algumas horas depois, Wallace o “Corvo” retornou para sua casa. Estava relativamente bêbado e cantarolava músicas indecifráveis. Ao abrir o portão, viu a casa toda apagada. No jardim havia uma cruz de madeira semelhante às colocadas no cemitério em que trabalhava. Aproximou-se apenas para ler no epitáfio: “AQUI JAZ UM CORAÇÃO TOLO”. Sabia exatamente o que aquilo significava. Então, ajoelhado, começou a chorar copiosamente.

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