Ex-Mulheres XIX – “O Cabeleireiro”

março 20, 2008

Clodoaldo era cabeleireiro. Isso. Cabeleireiro e não barbeiro. Desde pequeno tinha jeito para arrumar o cabelo da irmã, da mãe, das tias, vizinhas e todas as mulheres do bairro. Manjava tudo a respeito de cortes, tratamentos, produtos e as demais parafernálias que as mulheres fazem na cabeça. Tinha tudo para ser viado, mas não era.

Fabiane era tímida, sempre chorosa e tinha aversão a salões de beleza. Não via graça em ficar horas se empetecando e sempre deixava o cabelo crescer demais, para não enfrentar os cabeleireiros afetados das amigas, ou as cabeleireiras de salão, que mais falavam do que faziam o serviço.

Um dia, depois de muita insistência de um grupo de amigas, concordou em ir ao salão. Seu cabelo realmente estava um trapo e gritava por um corte. Chegando ao salão, Fabiane se surpreendeu com a beleza do cabeleireiro, mas logo pensou, consigo mesma: “que desperdício! Tão bonito e é bicha!”

O rapaz, Clodoaldo, começou lavando os cabelos da moça – Fabiane se surpreendeu com a firmeza das mãos. “Até parece macho esse aí”, pensou, com um riso no rosto. “Clô”, como era conhecido, secou o cabelo da garota e a colocou na cadeira. Seu corte era preciso e o rapaz não conversava muito – pelo contrário, parecia concentrado e não demonstrou qualquer tipo de trejeito ou afetação.

O corte ficou divino. Clô era um artista e Fabiane saiu do salão com um brilho que nunca havia estado ali. Tomou gosto pela coisa e passou a voltar mensalmente no salão de Clodoaldo. Lá pela sua terceira ou quarta visita, teve uma surpresa quando estava indo embora. Clô a puxou pelo braço e lhe lascou beijo, sem falar nada. Em seguida pegou um papel e um lápis, anotou seu telefone e deu para a moça. “Me liga”, disse ele, curto e grosso.

Fabiane ligou. Foram ao cinema, jantaram e transaram. Assim como no salão, Clô era um artista na cama. Sem pudores, com a “pegada” e viril, o rapaz deixou Fabiane completamente fora de controle. Após dois meses de sexo de tudo quanto é jeito, começaram a namorar. Fabiane não apenas encontrara o melhor cabeleireiro de sua vida, mas também a foda do século!

A história provavelmente terminaria por aqui. Terminaria, não fossem as amigas, parentes, conhecidos e até companheiros de trabalho de Fabiane. “Namorar cabeleireiro? Onde já se viu essa porra?”, gritava o pai. “Ele pode te fazer feliz, filha, mas é estranho…”, completava a mãe.

Conversou, chorosa como sempre, com Clô. O rapaz era macho, ela sabia, mas não aguentava a pressão. Foi então que Clodoaldo teve a idéia – estava disposto a tudo para viver seu amor com Fabiane. Clodoaldo tinha um amigo engenheiro – bem aprumado, respeitável, cara de homem, mas uma moça por dentro. João era bicha, e também amigo de infância de Clô.

Clodoaldo “terminaria” com Fabiane, que iniciaria um romance com João. Mas este, o amigo bicha, acorbetaria os encontros dos dois. Tudo estava arranjado e a notícia espalhou. “Até que enfim a Fabiane se mancou – agora está com um engenheiro”, diziam pelas ruas.

Três meses se passaram e o plano de Clô ia funcionando bem, até que o pai de Fabiane resolveu convidar João para um jantar de família. Clô tergiversou, mas acabou anuindo. João e Fabiane apareceram na casa dos pais da menina por volta das oito de uma sexta-feira. A mãe da garota não continha a emoção e deu um abraço em João quando este entrou na casa.

Tudo corria às mil maravilhas – João falava imponente de suas conquistas profissionais e Fabiane ria de felicidade, com a primorosa atuação do amigo. Tudo terminaria bem, não fosse uma reles barata. João assustou com a bichinha e soltou o que um estivador ou um caminhoneiro chamariam, tecnicamente, de “gritinho”. Para completar, o rapaz saltou da cadeira e parou ao lado da mesa com pose digna de O Lago dos Cisnes.

O desespero tomou conta da família, que agora discutia em brados o ocorrido. João pediu desculpas a Fabiane, mas a farsa havia sido despedaçada. Não havia mais o que fazer. Em um ato de confissão, Fabiane admitiu aos pais que João era homossexual.

O pai da menina botou a mão na testa, suspirou, deu um gole de 200ml no vinho, levantou a taça e anunciou um brinde. Todos levantaram os copos, sem ter a menor idéia do que aquilo queria dizer. Então, o velho mandou o discurso: “entendo, minha filha. Sua felicidade para mim, como sempre, é o que mais importa. Nada no mundo é perfeito, mas convenhamos: antes viado do que cabeleireiro”. Todos bateram copos e Fabiane foi para o quarto, aos prantos.

Anúncios

2 Responses to “Ex-Mulheres XIX – “O Cabeleireiro””

  1. majestor Says:

    Boa! Mas queria ver esse pai andando sem camisa com um genro gay em casa.

  2. Daniel - London Says:

    Adorei a historia. Morri de ri.
    Bjs
    Daniel
    http://www.sembolso.blogspot.com

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s