O Homem e o Mundo – “Acessibilidade”

abril 13, 2008

Acessibilidade. Uma bela palavra – está até mesmo na moda, pelo que venho constatando. Mas o que significa? Em suma, significa criar soluções hipócritas e baratas, que tornem a vida de um cidadão sem limitações físicas um inferno, supostamente auxiliando portadores de deficiências.

Começo aqui pelo estacionamento de supermercados e shoppings – não bastasse a multiplicação desenfreada do número de vagas de deficientes físicos, há agora vagas exclusivas para idosos também. Além de reduzir fudidamente o números de vagas disponíveis, ainda é uma forma cínica de dizer “e aí, velhote, não consegue botar a porra do carro na vaga” ou então “fala, ponto-e-vírgula, aposto que você não bota um triciclo nessa vaga de caminhão”. Na boa, se eu fosse deficiente ficaria puto e provavelmente poria o carro numa vaga comum, só pra tirar onda.

Aqui na Paulista agora estão concluindo a reforma da calçada. Bem distante da avenida, o piso é diferente – possui uma tarja que segue paralela, reta, com o que chamam “piso tátil”. Supostamente isso auxiliará os cegos a se deslocarem, tateando o piso com suas bengalas. Ou seja, o coitado do cego só pode andar em linha reta, e pobre dele se outro cego resolver parar na frente. Terá de esperar. Será que a CET vai divulgar números sobre o congestionamento de cegos na Paulista, em metros? Ou multará o cego que sair da faixa para passar à frente por “ultrapassagem perigosa”? São perguntas que me faço enquanto observo ao excesso de zêlo aparente da sociedade atual.

Não obstante, e retornando ao tema dos supermercados, ok, o cara ali da cadeira de rodas pode estacionar. Porém como fará as compras? O coitado parece estar fadado a passar a vida consumindo produtos das duas prateleiras mais baixas, a não ser que seja transviado o suficiente para trombar com a cadeira de rodas nas gôndolas, derrubando os produtos de cima.

Na sessão de frutas, pegará as laranjas das fileiras inferiores, mas com todo o cuidado possível, caso contrário será soterrado por uma avalanche de hortaliças. Ao chegar no caixa, tem de ser um piloto de provas para manobrar a cadeira por entre o corredor – sim, alargam a porra da vaga no estacionamento, mas não os corredores dos caixas. Por fim, só pode levar produtos que caibam numa cestinha, pois ainda não inventaram os carrinhos-reboque, para enganchar na cadeira de rodas e puxar.

Mas o Grand Finale ainda está por vir: ao sair da loja, depois de passar por todas as demais provações, o sujeito da cadeira de rodas vê o pessoal do apoio e da gerência dos caixas passeando pela loja de patins. Um dia ainda vou entender.

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4 Responses to “O Homem e o Mundo – “Acessibilidade””

  1. Ragas Says:

    Em tempo: O porteiro do meu antigo edifício, o conhecido e aclamado “Pedi depitsa”, quando interrogado por mim, sobre o motivo de determinada moradora ter reservada a ela a melhor vaga da garagem, respondeu:

    “Dona Clotilde é paralérgica”

    DEUS e seus mistérios urbanos!!!

    http://www.vandosquebrados.wordpress.com


  2. […] Acessibilidade – É sobre essa palavra que o Carlos, colega de Orkut, profissão e blogs, medita e escreve com um forte sarcasmo. Confira aqui. […]

  3. paulinha Says:

    hipocrisia pouca é bobagem?

    as marcações na calçada são muito boas, eu posso andar de olhos fechados pelo centro se eu quiser, elas são legais… mas fiquei imaginando eles fazendo compras no Carrefour que eu gostava de ir de madrugada… terrível!

    ah, e aqui não tem vaga preferencial não porque o cara chega aos lugares com muito mais facilidade…

    enfim, o make up brasileiro. de praxe.

  4. Piso Tátil Says:

    Em primeiro lugar o piso tátil não é dedicado para cegos. Não é para ser sentido com bengalas, e sim com os pés descalços ou não. Tente você mesmo, funciona. É apenas uma referência e não uma trilha que tem que ser seguida como a estrada de tijolos amarelos.

    Relamente nesse país temos muito pela frente, mas como agora é lei, todos os estabelecimentos terão que se adaptar. Claro que isso acontece naturalmente no setor público para dar exemplo, e em bancos(onde a fiscalização é dura).

    Daqui a pouco seguindo a tendência de “captar recursos” o estado intensificará a fiscalização e todos os estabelecimentos públicos terão de contar com itens obrigatórios de acessibilidade.

    Parabéns pelo blog

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