Ex-Mulheres XX – “O Senhorio”

janeiro 19, 2009

Agenor era um homem de sorte… e azar. Embora perdesse o pai e a mãe num acidente de automóvel, faleceu na mesma ocasião seu único tio, sem filhos e proprietário de diversos imóveis na região da Paulista. Do dia para a noite, Agenor era órfão, mas um órfão com renda praticamente eterna garantida.

Passados cinco anos, era um bem-sucedido senhorio na região dos Jardins e Bela Vista. Já contava com 26 apartamentos, todos alugados, que lhe proporcionavam uma renda de uns 20 paus por mês, já pagos impostos e tudo mais.

Embora muitos dos imóveis tivessem uma rotatividade alta, alugados por estudantes e universitários, alguns deles já possuíam inquilinos de longa data. Um deles inquilino de seu falecido pai. Esteves, sua esposa e a filha, moravam em um dos apartamentos hoje administrados por Agenor havia mais de quinze anos.

De qualquer modo, dali três meses o contrato venceria, de modo que Agenor resolveu contactar o Esteves e marcar um dia para conversar. Queria conhecer o mais velho de seus inquilinos. Qual não foi a surpresa quando o Esteves chamou de “amigo”, disse ter conhecido seu pai e o convidou para jantar um dia, por sua conta.

Chegando na casa do Esteves, Agenor recebeu o recado para descer até a garagem. Ali Esteves esperava e disse a Agenor que colocasse o carro em uma vaga tal, ao lado de outros três veículos – todos novos e luxuosos. “Quatro vagas na garagem – esse homem tem dinheiro”, pensou logo Agenor, fazendo tilintar os cifrões em sua mente.

Agenor subiu ao apartamento. Ali foi apresentado a Márcia – esposa de Esteves – e Glorinha. Que filha maravilhosa tinha o Esteves: loira, de uns vinte e cinco, bunda carnuda, seios obviamente com silicone (Deus não dava aquilo a ninguém) e olhos amendoados de uma cor jamais repetida na humanidade. Agenor já estava “mais alegre”.

A casa tinha de tudo – TV a cabo com infinitos canais, ofurô, toda reformada e pintada (parecia serviço feito ontem). Não parecia haver nada o que faltasse a Esteves. Homem abastado, de sorte. Sei lá que porra fazia para viver, mas com certeza tinha grana.

Jantaram – sobremesa, aperitivo e café. Já na hora de ir, Esteves puxa o Agenor: “olha, rapaz, minha filha gostou de você. Acho que vai te ligar. Eu conheci teu pai e sei que você é homem direito. Tem minha aprovação”. E dizendo isso, despediu-se do rapaz e fechou a porta.

Dito e feito – passados dois dias, Glorinha ligou. Marcaram e saíram na quinta-feira. Durante meses, repetiram. Todas as quintas saíam, jantavam, iam a bares, transavam… até que Agenor começou a querer algo mais sério. A moça desconversava.

Um dia, numa conversa, Glorinha se abriu. “Não posso, Agenor, tenho que me formar, fazer uma pós e ajudar meus pais”, dizia. Agenor, indignado, começou a ralhar com ela… o pai era cheio da grana, tinha de tudo, que cuidar porra nenhuma.

Glorinha, então, pôs-se a explicar. Disse que Esteves vivia de aparência. Há alguns anos havia recebido uma herança e também vivia de renda – mas queimara boa parte da grana e hoje vivia apenas para pagar as dívidas que havia feito: carros, reformas no apê, eletrônicos e tudo mais.

Tendo isso em vista, Agenor tomou uma decisão. Não mais cobraria o aluguel do Esteves e pediria a mão de sua filha. Juntaram, sem casar de papel passado, e passaram juntos um ano inteiro. No décimo-terceiro mês, Glorinha surtou. Não aguentava mais viver com Agenor, queria largá-lo e voltar para a casa dos pais. E foi.

Agenor ficou arrasado e puto. No dia 30 do mês seguinte, já sem contato nenhum com Glorinha, mandou entregar o boleto do aluguel para o Esteves – a primeira cobrança após 13 meses.

No dia seguinte, ainda cedinho, recebe uma ligação. Era o Esteves. Ameaçava processá-lo junto com a filha, por união estável, e pedir pensão. Gritaram os dois ao telefone por meia hora e firmaram então um acordo de cavalheiros – sem aluguel e sem pedido de pensão. Feito.

O tempo foi-se e mais um ano se passou, até que um dia, Agenor encontrou Glorinha no shopping, junto com um outro sujeito. O cara foi ao banheiro e Agenor, indignado, foi em direção a Glorinha. “E aí, outro otário para enganar. Você não presta menina, não fiz nada de errado contigo, você nunca me amou”.

Calma e plácida, Glorinha disse: “eu te avisei, Agenor, que tinha que cuidar dos meus pais. Você não ouviu. Tinha que querer lance sério. Eu tenho que ajudar meus pais”.

“Como assim ajudar seus pais. Não teve nada a ver. Você me largou sem aviso nem nada e um mês depois, teu pai me ameaça com processo de união estável. E esse sujeito aí, quem é afinal”?

Sem titubear, Glorinha respondeu: “arquiteto, meu pai está reformando de novo o apê”. Virou de costas e saiu andando.

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