Memórias Póstumas – “O Japonês e o Cabeleireiro”

fevereiro 10, 2009

Uns dez ou onze anos atrás, quando comecei e obviamente não prossegui no curso de Engenharia Elétrica, conheci uma das mais fantásticas personagens de toda minha vida. O japonês gordo, com cara de acabado e sempre com a fumaça do cigarro cobrindo a cara era um tipo, uma caricatura, mas sua história não parava por aí. Não julgo necessário citar nomes.

Cinco anos após abandonar o curso, tive notícias de que o japonês continuava a passar suas tardes e noites fechado no diretório acadêmico da universidade, jogando intermináveis partidas de truco. O cigarro, à boca, cobria a cara de fumaça, e seus dedos, sempre tortos, seguravam as cartas tal como uma preá com uma semente de girassol.

Anos se passaram até que alguém descobrisse onde residia lendária figura. Nunca alguém pisou no apartamento da figura e, como o tempo passasse, decerto alguém um dia iria parar ali. Pois não aconteceu. Em dez anos, ninguém o visitou e ele não convidou a um só colega para que fosse à sua residência. “Moro perto”, dizia ele, e imaginávamos quão perto ele moraria, pois da faculdade não saía jamais.

Até que um dia, o avistaram, enquanto passando de carro, entrando em um salão de cabeleireiro. Resolveram esperar. Por mais de duas horas meus colegas pararam num ba ao lado, mas nada do japonês sair. Desistiram.

Contudo, persistia a dúvida. O que fora o japonês fazer no salão, já que no dia seguinte trazia o mesmo penteado de sempre. Pior – o salão ficava próximo a um ponto de travestis e ao mesmo tempo ao lado de um posto policial. Pois bem, decidimos que o seguiríamos naquela noite.

Bom, a faculdade fechou às meia-noite, e dali saiu matreiro o rechonchudo oriental, rumo ao salão novamente. Esperamos por horas, e nada ocorreu. Repetimos a receita por três dias seguidos. Nos três, o japonês entrou, mas não saiu.

Duas semanas depois, tentamos novamente. Nada. Irritado, um de nossos colegas levantou do bar e foi em direção ao salão. O seguimos. Chegando ali, uma bicha nos recebeu, mas passamos direto, de solavanco.

No fundo do salão, numa parte mais escura, estava ali o japonês. Sentado numa cadeira, dormindo. Irritado, meu colega o acordou – nessa altura já era mais de seis da manhã. O oriental acordou assustado, olhou o relógio e começou a trocar de roupa.

Indignados, perguntamos o que estava acontecendo. “Eu disse que morava perto”, comentou o nipônico. “Mas num salão de cabeleireiro?”, gritamos em uníssono. “O corte aqui é R$ 5,00… o motel mais vagabundo da região, R$ 10,00 por noite… e o aluguel mais barato R$ 300 por mês… japonês pode ser doido, mas sabe fazer conta”, e dizendo isso, botou a mochila nas costas e seguiu rumo à faculdade, sem o corte de cabelo.

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