Ex-Mulheres XXIII – “O Delegador”

fevereiro 13, 2011

Tiago tinha certeza de que era genial. Colocava todas as suas “brilhantes” idéias como “sugestões”, principalmente para seus subalternos, e ai daquele que achasse uma merda – era imediatamente colocado de lado com aqueles argumentos infantis que só os chefes de segunda sabem dar, como a história do “faço isso faz tantos anos” ou “no último evento que fiz isso deu certo”. Em outras palavras, um daqueles caras que se utilizava de referências que ninguém conhece para dar ordens que ninguém aprova.

Se apegava a detalhes com pouca relevância como estratégia para não botar a mão na massa, enquanto seus lacaios se apinhavam de trabalho para receber um elogio magro no final de tudo, seguido de uma crítica “construtiva”.

Num desses episódios de despotismo, conheceu Ana Carolina. Como uma criança que ganha um brinquedo novo, pareceu esquecer imediatamente de que era casado com filhos e resolveu partir para cima. Enquanto seus funcionários davam o típico duro para resolver, decidir, carregar, montar, desmontar e enviar as coisas com as quais ele não se preocupava ou simplesmente esquecia, Tiago bolava estratégias infalíveis para subjugar sua nova vítima.

Enquanto todos desmontavam e organizavam o final do evento que acabara de ocorrer, Tiago já solicitava táxis e falava em pagar uma rodada para todos que haviam trabalhado. Como esperava, no entanto, metade da equipe, cansada e esgotada por fazer não apenas o trabalho deles, mas também o de Tiago, desistiu da empreitada, e assim o rapaz conseguiu reduzir grande parte dos obstáculos para realização de seu intento.

Não foi difícil. Ana Carolina já estava meio no papo e não parecia muito inteligente – não tardou mais que cinco minutos para que Tiago abatesse a vítima. A caminhada rumo aos três pontos foi uma estrada de tijolos amarelos e, no dia seguinte, o rapaz pegou o vôo de volta para a matriz da empresa. “Vini, vidi, vici” e um sono com um sorriso na boca.

Contudo, a história se tornou frequente, e Tiago, já de saco cheio de sua esposa bem sucedida, começou a se afeiçoar a Ana Carolina. Como um adolescente, passava horas ao telefone e por vezes era possível até mesmo pegá-lo desenhando com os pés enquanto conversava com sua recém-descoberta paixão. De diretor passou a colegial deslumbrada em menos de uma semana.

Enquanto isso, Tiago seguia cada vez mais delegando. Sem tempo para suas “tradicionais” funções de diretor, passava a bola em quase tudo, desde decidir até limpar a bunda. Quando todos se pensavam livres dele, no entanto, reaparecia, ávido por saber como as coisas estavam, uma vez que não havia até ali acompanhado porra nenhuma. Com sua mulher, a rotina não era muito diferente: toda vez que ela pensava estar se acostumando a tocar as coisas sozinhas, o fidalgo reaparecia exigindo relatório completo de tempos e movimentos.

Ana Carolina não tardou muito a perceber o grau de inocência de seu novo parceiro. Criada pela família para ser uma moça “para casar”, logo começou pressões e sugestões a respeito do futuro e Tiago, como todo homem casado, passou a contar com a distância e com o caráter esporádico de sua relação para evitar uma tomada de decisão.

Aparentemente feliz e satisfeito com o melhor de dois mundos, Tiago não fez caso e continuou a estender a coisa, incerta mesmo do jeito que estava. Como um marinheiro, sustentava dois portos com presentinhos comprados em liquidações do duty-free e clichês de dias dos namorados.

Um ano se passou e Tiago foi promovido. Seu novo cargo tornava viagens ainda mais frequentes e com o tempo, o ato de “tirar o atraso” não fazia sequer mais sentido – uma vez que o atraso era tirado antes mesmo de atrasar. Com toda uma nova legião de lacaios, Tiago se surpreendeu e se alegrou com o fato de poder trabalhar ainda menos do que antes e mandar ver ainda mais.

Como uma Cinderela de barbas, achou que seu sonho duraria para sempre, até que o dia em que Ana Carolina avisou aos colegas que estava deixando a empresa. A menina, com um plano cuja justificativa profissional e pessoal pareceria estranha a um hamster em coma, decidira deixar a empresa para fazer um curso e viver no exterior – na cidade onde Tiago vivia apenas por uma daquelas coincidências de filmes da Sessão da Tarde.

Aparentemente ciente e feliz, Tiago na verdade começara a desmoronar por dentro. Sonhava com notinhas de 100 dólares se suicidando em um penhasco e com a mulher e a amante saindo juntas para fazer compras no shopping, enquanto ele cuidava das tarefas domésticas e dos filhos de ambas. Algo precisava ser feito imediatamente – mas como decidir o que ser feito após uma vida inteira sem decidir merda nenhuma.

Tiago aquiesceu e Ana fez todos os preparativos. Seis meses depois e três mil dólares por mês mais pobres, Tiago e Ana casaram-se. A desculpa dos estudos e da falta de oportunidades num país estrangeiro levaram Tiago a implorar por mais funções na empresa, de forma a garantir os trocados a mais que pudessem manter os presentinhos para a nova esposa – agora não mais escolhidos em liquidações e queimas de estoque.

Em um fim de semana, enquanto lavava a louça e cuidava de seu novo rebento, de avental, pensou pela primeira vez nos funcionários a quem delegava funções. Entendeu o desejo de liberdade e o instinto sanguinário que seus lacaios sentiam e, num acesso de fúria, arrancou avental e roupas e saiu correndo nu, pelas ruas, gritando “liberdade”.

Ana Carolina pegou uma pensão gorda e voltou a viver com seus pais – o certificado do curso no exterior ainda está no fundo da gaveta de meias e calcinhas. Enquanto isso, em uma casa de repouso nos confins da zona rural, um paciente quase sempre nu pede aos loucos e idosos relatórios sobre suas realizações diárias.

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2 Responses to “Ex-Mulheres XXIII – “O Delegador””

  1. jocunda Says:

    Ótimo texto……. porém o autor deixa muito explícito seu envolvimento pessoal com a historia. Enfim tem tudo a ver com o nome do blog….. Já virei fã, Alias já pensou em publicar seus textos?

    Abç

  2. Ragazzo Says:

    É vEni, vidi, vici seu energúmeno! AHUAhUAH. Beiçudo dos infernos! Brad Pitt do capeta!!

    Enfim, passei aqui para dar um oi, dizer que estou com saudades (ahã!) e informá-lo que em junho é o lançamento do meu thriller “72 Horas para Morrer” pela Novo Século.

    Você ainda está naquele apê perto da Brigadeiro?

    Abrazzo Ragazzo

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