Felício era um pintor de primeira, não apenas um pedreiro com “nome bonito”, mas entendia da coisa de verdade. Dominava técnicas de pintura e mistura de tintas, diferentes acabamentos e fazia milagres com as cagadas que seus colegas de obra deixavam para a fase de entrega do imóvel.

Era minimamente estudado e muitos perguntavam porque não fazia uma universidade, ou ia “buscar algo melhor”. A resposta era sempre um franzido de testa – dizia que estava bem como pintor, e que não queria ser só mais um formado implorando emprego por aí. Com a economia aquecida, não faltava serviço para Felício e o homem tirava uma bela grana. Organizado, limpo e competente – todo empreiteiro queria um funcionário assim.

Um dia, passando pelo boteco do Calixto, a duas quadras de seu humilde sobrado no Cangaíba, viu uma menina de saia, que discutia com um dos pinguços locais. Não teve dúvida: entrou gritando, meteu a mão no peito do bêbado e empurrou, enxotando o pudim de pinga. Perguntou à menina se queria companhia até em casa, e ela anuiu. Marina também morava a poucas quadras dali.

Quase todo dia os dois se visitavam. Marina ajudava uma costureira do bairro e, invariavelmente, estava pelas redondezas. Felício começou a acelerar o serviço para ter com a menina mais cedo todos os dias e acompanhá-la até em casa.

Os anos se passaram. Pegação, namoro, caso, noivado… até que um dia Felício tomou coragem, pediu a mão da menina e marcaram data para o casório. Faltando seis meses para a cerimônia, os dois já moravam juntos, e Marina começou a ter irritações e brotoejas por todo o corpo. “É a tinta… alergia”, diagnosticou a costureira com quem a garota trabalhava.

Felício, que já era limpo, passou a ser neurótico. Saía da obra e lavava o corpo com tinner até tirar a última molécula de tinta do corpo. Sempre sobrava um pouco, e Marina tornava a pipocar. Alguns meses se passaram, médicos, conselhos, mas ninguém achava jeito de parar a alergia.

Acabaram se separando, os dois. Em meio a muito choro e tristeza, chegaram juntos à conclusão de que não daria certo. Cada um seguiu para seu canto e o tempo passou.

Dois anos depois, Felício soube que Marina havia casado – com um pintor. O rapaz quase se matou, mas a curiosidade era maior que a depressão, e resolveu investigar. Foi ter com a costureira, que já não empregava mais Marina.

A costureira contou que Marina conhecera Adriano – às vezes pedreiro, às vezes pintor, um desses “faz-tudo”. Na verdade não tinha a mão muito boa, era relaxado e só conseguia serviço por intermédio de colegas e gatos de obra. Chegava todos os dias sujo de tinta, cal, cimento e o que mais houvesse na obra.

Felício falou à costureira a respeito da alergia, aliás, diagnosticada por ela. A velhota riu-se e limitou-se a sentenciar: “que alergia a tinta que nada – era o tinner. Aprende isso, meu filho, mulher gosta mesmo é de homem sujo”. Marina ainda mora no bairro. Quando se aproxima do boteco do Calixto, a rapaziada faz as apostas: de que cor a menina vai vir suja hoje?

Anúncios

Tiago tinha certeza de que era genial. Colocava todas as suas “brilhantes” idéias como “sugestões”, principalmente para seus subalternos, e ai daquele que achasse uma merda – era imediatamente colocado de lado com aqueles argumentos infantis que só os chefes de segunda sabem dar, como a história do “faço isso faz tantos anos” ou “no último evento que fiz isso deu certo”. Em outras palavras, um daqueles caras que se utilizava de referências que ninguém conhece para dar ordens que ninguém aprova.

Se apegava a detalhes com pouca relevância como estratégia para não botar a mão na massa, enquanto seus lacaios se apinhavam de trabalho para receber um elogio magro no final de tudo, seguido de uma crítica “construtiva”.

Num desses episódios de despotismo, conheceu Ana Carolina. Como uma criança que ganha um brinquedo novo, pareceu esquecer imediatamente de que era casado com filhos e resolveu partir para cima. Enquanto seus funcionários davam o típico duro para resolver, decidir, carregar, montar, desmontar e enviar as coisas com as quais ele não se preocupava ou simplesmente esquecia, Tiago bolava estratégias infalíveis para subjugar sua nova vítima.

Enquanto todos desmontavam e organizavam o final do evento que acabara de ocorrer, Tiago já solicitava táxis e falava em pagar uma rodada para todos que haviam trabalhado. Como esperava, no entanto, metade da equipe, cansada e esgotada por fazer não apenas o trabalho deles, mas também o de Tiago, desistiu da empreitada, e assim o rapaz conseguiu reduzir grande parte dos obstáculos para realização de seu intento.

Não foi difícil. Ana Carolina já estava meio no papo e não parecia muito inteligente – não tardou mais que cinco minutos para que Tiago abatesse a vítima. A caminhada rumo aos três pontos foi uma estrada de tijolos amarelos e, no dia seguinte, o rapaz pegou o vôo de volta para a matriz da empresa. “Vini, vidi, vici” e um sono com um sorriso na boca.

Contudo, a história se tornou frequente, e Tiago, já de saco cheio de sua esposa bem sucedida, começou a se afeiçoar a Ana Carolina. Como um adolescente, passava horas ao telefone e por vezes era possível até mesmo pegá-lo desenhando com os pés enquanto conversava com sua recém-descoberta paixão. De diretor passou a colegial deslumbrada em menos de uma semana.

Enquanto isso, Tiago seguia cada vez mais delegando. Sem tempo para suas “tradicionais” funções de diretor, passava a bola em quase tudo, desde decidir até limpar a bunda. Quando todos se pensavam livres dele, no entanto, reaparecia, ávido por saber como as coisas estavam, uma vez que não havia até ali acompanhado porra nenhuma. Com sua mulher, a rotina não era muito diferente: toda vez que ela pensava estar se acostumando a tocar as coisas sozinhas, o fidalgo reaparecia exigindo relatório completo de tempos e movimentos.

Ana Carolina não tardou muito a perceber o grau de inocência de seu novo parceiro. Criada pela família para ser uma moça “para casar”, logo começou pressões e sugestões a respeito do futuro e Tiago, como todo homem casado, passou a contar com a distância e com o caráter esporádico de sua relação para evitar uma tomada de decisão.

Aparentemente feliz e satisfeito com o melhor de dois mundos, Tiago não fez caso e continuou a estender a coisa, incerta mesmo do jeito que estava. Como um marinheiro, sustentava dois portos com presentinhos comprados em liquidações do duty-free e clichês de dias dos namorados.

Um ano se passou e Tiago foi promovido. Seu novo cargo tornava viagens ainda mais frequentes e com o tempo, o ato de “tirar o atraso” não fazia sequer mais sentido – uma vez que o atraso era tirado antes mesmo de atrasar. Com toda uma nova legião de lacaios, Tiago se surpreendeu e se alegrou com o fato de poder trabalhar ainda menos do que antes e mandar ver ainda mais.

Como uma Cinderela de barbas, achou que seu sonho duraria para sempre, até que o dia em que Ana Carolina avisou aos colegas que estava deixando a empresa. A menina, com um plano cuja justificativa profissional e pessoal pareceria estranha a um hamster em coma, decidira deixar a empresa para fazer um curso e viver no exterior – na cidade onde Tiago vivia apenas por uma daquelas coincidências de filmes da Sessão da Tarde.

Aparentemente ciente e feliz, Tiago na verdade começara a desmoronar por dentro. Sonhava com notinhas de 100 dólares se suicidando em um penhasco e com a mulher e a amante saindo juntas para fazer compras no shopping, enquanto ele cuidava das tarefas domésticas e dos filhos de ambas. Algo precisava ser feito imediatamente – mas como decidir o que ser feito após uma vida inteira sem decidir merda nenhuma.

Tiago aquiesceu e Ana fez todos os preparativos. Seis meses depois e três mil dólares por mês mais pobres, Tiago e Ana casaram-se. A desculpa dos estudos e da falta de oportunidades num país estrangeiro levaram Tiago a implorar por mais funções na empresa, de forma a garantir os trocados a mais que pudessem manter os presentinhos para a nova esposa – agora não mais escolhidos em liquidações e queimas de estoque.

Em um fim de semana, enquanto lavava a louça e cuidava de seu novo rebento, de avental, pensou pela primeira vez nos funcionários a quem delegava funções. Entendeu o desejo de liberdade e o instinto sanguinário que seus lacaios sentiam e, num acesso de fúria, arrancou avental e roupas e saiu correndo nu, pelas ruas, gritando “liberdade”.

Ana Carolina pegou uma pensão gorda e voltou a viver com seus pais – o certificado do curso no exterior ainda está no fundo da gaveta de meias e calcinhas. Enquanto isso, em uma casa de repouso nos confins da zona rural, um paciente quase sempre nu pede aos loucos e idosos relatórios sobre suas realizações diárias.

Desde criança, Osmar era um baita jogador de xadrez. Enquanto a molecada se divertia no futebol, taco e andando de bicicleta, Osmar rapelava a velharada na praça do bairro onde morava. Era um prodígio. Na escola, claro que se deu muito bem em matemática. Acabou se formando na área e, como não queria dar aulas, começou a ganhar a vida vencendo torneios de xadrez.

Ganhava uma boa grana… mas nada de especial. Morava num bairro bacana… mas nada de especial. E pegava uma mulher ou outra… mas nada de especial. Tímido, retraído e sem jeito com o sexo oposto, Osmar só se envolvia com intelectuais. E para quem pensa que ser nerd é ter pau pequeno, Osmar tinha um cacete de 24 cm. Muitas das mulheres com quem se envolvia acabavam pulando fora por dois motivos: Osmar só falava em xadrez; e tinha um pau de cavalo, além de foder como um. Sempre assim; se preparava, montava, dava umas cavalgadas e gozava. A merda é que além de pintudo o filho da puta era sem jeito e a mulherada saída da foda doída que era uma beleza.

Mas um belo dia, Osmar esbarrou com Vanessa. Saíram algumas vezes e, embora a garota gostasse de uma tromba, não esperava que fosse daquele tamanho. Contudo, os dois pareciam ter sido feitos um para o outro. Osmar tinha uma piça enorme, mas Vanessa aguentava firme, sem reclamar. Contudo, sempre o avisava: “Osmar, no cu jamais”.

O tempo foi passando. Um belo dia, enquanto transavam no quarto de Osmar, o rapaz assistia, aficcionado que era, a uma partida do mestre Kasparov. Com metade da atenção na foda e metade na TV, Osmar mal percebera que Vanessa estava quase chegando a um orgasmo.

Atônito e hipnotizado pelos lances da partida, Osmar começou a torcer, em voz alta. “Joga o bispo, o bispo, na casa 3”; “não avança, empurra na lateral”; “não faça isso com o cavalo”, e por aí foi. Vanessa, que como eu já dizia, estava quase tendo um orgasmo, começou a se irritar – ela gozando sem parar e o mané colado na TV, narrando partida de xadrez.

Osmar percebeu a inquietude da menina, mas seguiu fazendo observações sobre os lances, tentando prestar mais atenção em Vanessa, de quando e quando. A garota já estava perto de seu limite, quando Osmar lançou a pergunta, com um olho na TV e outro na menina: “e a torre?”

Vanessa não se aguentou e gritou de maneira estridente – “ENFIA NO CU!!!”. Os dois passaram a noite no pronto-socorro, antes de parar de se ver.

Vítor não era um homem – era um touro. Quase dois metros, cento e vinte quilos, a força de um caminhão Volvo e perito em cinco ou seis artes marciais. Apesar da estatura e porte descomunais, dava-se bem e preferia as mulheres pequenas.

Trabalhava num hotel dos Jardins de dia e numa boate da Augusta na parte da noite. Certo dia, parado em posiçao “Men in Black” na porta do hotel, como era usual, viu passar uma bela morena, a qual o encarou com um sorriso. Apesar de sentir imediata vontade de largar o posto e ir ter com a menina, para passar um xaveco e jogar papo fora, zeloso que era resolveu ali ficar. “Onde se ganha o pão não se come a carne” – pensou, tentando conformar a si mesmo por perder a chance.

Chegando de noite à boate, mal se emprumava à frente do estabelecimento e eis que viu entrar pela porta a tal morena – aquela mesma que vira no hotel, durante o dia. Estava ainda mais bela e radiante do antes, mas o reino das obviedades existia, mesmo para um pobre trabalhador de poucos estudos como Vítor. A morena era puta.

A ele intrigou que ela novamente lhe lançasse o mesmo olhar que havia lançado de dia. Gostou, e mesmo sabendo que isso poderia comprometer seu emprego, decidiu com ela papear após o “expediente”. Cinco da manhã e os dois tomavam um táxi até Interlagos. A morena, Matilde, ficava ali pelos lados da Chácara Flora. Vítor ia descer até o Grajaú.

Quando saltou do carro, Matilde agradeceu a companhia e estendeu algumas notas de dinheiro para Vítor. O rapaz era direito e recusou. Ela insistiu, lhe dizendo que ou aceitava, ou ficava na casa dela hoje. Vítor era pobre e pouco estudado, mas não burro. Pagou o motorista e saltou junto do veículo.

Treparam como loucos – Matilde contou ao homem que havia feito cinco programas na noite, mas nenhum deles “pesado”. Lá pelas oito da manhã, capotaram. Vítor chegou atrasado meia hora ao hotel, mas não houve muito problema.

Repetiram a dose uma dúzia de vezes, até que Matilde lhe confessou estar apaixonada. Queria que vivessem juntos, ali na Chácara Flora, em seu apê. Vítor também estava gamado e adorava a idéia. Mas homem honesto e direito que era, alegou que não a podia sustentar, ainda mais ali naquele bairro. Matilde disse que, pelo menos por um tempo, não largaria o “ofício” – Vítor estava apaixonado demais e acabou cedendo. “Mas só até ajeitarmos as coisas, mulher”, falava.

Mas a vida de segurança não era nada fácil. Vítor não ganhava nem pra ele, quanto mais para dois. Matilde seguia fazendo o trampo na boate e a notícia de que os dois estavam juntos começou a espalhar. Matilde caiu fora e a grana começou a apertar.

Até que Matilde teve a idéia genial – atenderia em casa mesmo, no melhor estilo “privê” moderno – e Vítor lhe faria a segurança, caso algum cliente passasse dos limites. Os anos se passaram e Matilde ampliou a clientela. Das dez da manhã às dez da noite era uma foda atrás da outra, sempre com Vítor na butuca, em qualquer caso.

Cinco anos foram assim, até que Matilde juntou uma grana – mas grana mesmo. O resultado de cinco anos levando pau doze horas ao dia havia sido uma gorda conta bancária, de mais de R$ 10 milhões. Matilde, já com seus trinta e dois anos, já estava perdendo a juventude, embora ainda fosse uma baita de uma morena. Resolveu largar a vida de puta, para se dedicar a seu paciente e amoroso marido, que esteve todo esse tempo ao seu lado, mesmo com a profissão que mantinha.

Dois anos se passaram. Os dois levavam uma vida para lá de confortável, mas a cada dia que passava, Vítor parecia mais deprimido. Havia perdido a vontade e, para quem quer que olhasse, parecia estar à beira da depressão. Matilde desesperava-se, mas não tinha idéia do que fazer. Tudo o que podia fazia para agradar ao marido, mas nada lhe funcionava.

Um dia, no café da manhã, resolveu abrir o coração para o marido. Queria, pelo amor de Deus, que ele ao menos dissesse a ela o que podia fazer, para que visse de novo sua felicidade. Vítor disse a ela que não tinha o direito de lhe pedir o que queria, mas Matilde foi irredutível: “faço qualquer coisa, qualquer coisa mesmo”. Vítor então lhe pediu que ficasse em casa, que sairia e voltaria logo mais. Matilde obedeceu.

Duas horas depois, Vítor retornou. Entrou em casa junto com um outro senhor, de uns cinquenta anos de idade. Matilde olhou fixo sem entender, enquanto o coroa puxava duzentos reais da carteira e entregava a Vítor, que apontou Matilde e o quarto atrás dela. Compreendendo razoavelmente o que se passava, Matilde acompanhou o outro homem até o quarto, deitou na cama, se despiu e começou a chupá-lo. Ainda pôde ver Vítor fechando a porta.

Terminado o “serviço”, o homem virou de lado na cama e começou a cochilar. Matilde levantou com cuidado, nua mesmo, abriu a porta do quarto e seguiu em direção ao quarto ao lado, onde Vítor costumava montar tocaia como “segurança”.

Abriu a porta e viu Vítor – braguilha aberta, pênis para fora… o sêmen na calça e um sorriso feliz e prazeroso no rosto. Ao contemplar a cena – e ver que finalmente havia trazido de volta a felicidade do marido – não sabia se chorava de felicidade ou tristeza. Chorou mesmo sem ter decidido.

Agenor era um homem de sorte… e azar. Embora perdesse o pai e a mãe num acidente de automóvel, faleceu na mesma ocasião seu único tio, sem filhos e proprietário de diversos imóveis na região da Paulista. Do dia para a noite, Agenor era órfão, mas um órfão com renda praticamente eterna garantida.

Passados cinco anos, era um bem-sucedido senhorio na região dos Jardins e Bela Vista. Já contava com 26 apartamentos, todos alugados, que lhe proporcionavam uma renda de uns 20 paus por mês, já pagos impostos e tudo mais.

Embora muitos dos imóveis tivessem uma rotatividade alta, alugados por estudantes e universitários, alguns deles já possuíam inquilinos de longa data. Um deles inquilino de seu falecido pai. Esteves, sua esposa e a filha, moravam em um dos apartamentos hoje administrados por Agenor havia mais de quinze anos.

De qualquer modo, dali três meses o contrato venceria, de modo que Agenor resolveu contactar o Esteves e marcar um dia para conversar. Queria conhecer o mais velho de seus inquilinos. Qual não foi a surpresa quando o Esteves chamou de “amigo”, disse ter conhecido seu pai e o convidou para jantar um dia, por sua conta.

Chegando na casa do Esteves, Agenor recebeu o recado para descer até a garagem. Ali Esteves esperava e disse a Agenor que colocasse o carro em uma vaga tal, ao lado de outros três veículos – todos novos e luxuosos. “Quatro vagas na garagem – esse homem tem dinheiro”, pensou logo Agenor, fazendo tilintar os cifrões em sua mente.

Agenor subiu ao apartamento. Ali foi apresentado a Márcia – esposa de Esteves – e Glorinha. Que filha maravilhosa tinha o Esteves: loira, de uns vinte e cinco, bunda carnuda, seios obviamente com silicone (Deus não dava aquilo a ninguém) e olhos amendoados de uma cor jamais repetida na humanidade. Agenor já estava “mais alegre”.

A casa tinha de tudo – TV a cabo com infinitos canais, ofurô, toda reformada e pintada (parecia serviço feito ontem). Não parecia haver nada o que faltasse a Esteves. Homem abastado, de sorte. Sei lá que porra fazia para viver, mas com certeza tinha grana.

Jantaram – sobremesa, aperitivo e café. Já na hora de ir, Esteves puxa o Agenor: “olha, rapaz, minha filha gostou de você. Acho que vai te ligar. Eu conheci teu pai e sei que você é homem direito. Tem minha aprovação”. E dizendo isso, despediu-se do rapaz e fechou a porta.

Dito e feito – passados dois dias, Glorinha ligou. Marcaram e saíram na quinta-feira. Durante meses, repetiram. Todas as quintas saíam, jantavam, iam a bares, transavam… até que Agenor começou a querer algo mais sério. A moça desconversava.

Um dia, numa conversa, Glorinha se abriu. “Não posso, Agenor, tenho que me formar, fazer uma pós e ajudar meus pais”, dizia. Agenor, indignado, começou a ralhar com ela… o pai era cheio da grana, tinha de tudo, que cuidar porra nenhuma.

Glorinha, então, pôs-se a explicar. Disse que Esteves vivia de aparência. Há alguns anos havia recebido uma herança e também vivia de renda – mas queimara boa parte da grana e hoje vivia apenas para pagar as dívidas que havia feito: carros, reformas no apê, eletrônicos e tudo mais.

Tendo isso em vista, Agenor tomou uma decisão. Não mais cobraria o aluguel do Esteves e pediria a mão de sua filha. Juntaram, sem casar de papel passado, e passaram juntos um ano inteiro. No décimo-terceiro mês, Glorinha surtou. Não aguentava mais viver com Agenor, queria largá-lo e voltar para a casa dos pais. E foi.

Agenor ficou arrasado e puto. No dia 30 do mês seguinte, já sem contato nenhum com Glorinha, mandou entregar o boleto do aluguel para o Esteves – a primeira cobrança após 13 meses.

No dia seguinte, ainda cedinho, recebe uma ligação. Era o Esteves. Ameaçava processá-lo junto com a filha, por união estável, e pedir pensão. Gritaram os dois ao telefone por meia hora e firmaram então um acordo de cavalheiros – sem aluguel e sem pedido de pensão. Feito.

O tempo foi-se e mais um ano se passou, até que um dia, Agenor encontrou Glorinha no shopping, junto com um outro sujeito. O cara foi ao banheiro e Agenor, indignado, foi em direção a Glorinha. “E aí, outro otário para enganar. Você não presta menina, não fiz nada de errado contigo, você nunca me amou”.

Calma e plácida, Glorinha disse: “eu te avisei, Agenor, que tinha que cuidar dos meus pais. Você não ouviu. Tinha que querer lance sério. Eu tenho que ajudar meus pais”.

“Como assim ajudar seus pais. Não teve nada a ver. Você me largou sem aviso nem nada e um mês depois, teu pai me ameaça com processo de união estável. E esse sujeito aí, quem é afinal”?

Sem titubear, Glorinha respondeu: “arquiteto, meu pai está reformando de novo o apê”. Virou de costas e saiu andando.

Clodoaldo era cabeleireiro. Isso. Cabeleireiro e não barbeiro. Desde pequeno tinha jeito para arrumar o cabelo da irmã, da mãe, das tias, vizinhas e todas as mulheres do bairro. Manjava tudo a respeito de cortes, tratamentos, produtos e as demais parafernálias que as mulheres fazem na cabeça. Tinha tudo para ser viado, mas não era.

Fabiane era tímida, sempre chorosa e tinha aversão a salões de beleza. Não via graça em ficar horas se empetecando e sempre deixava o cabelo crescer demais, para não enfrentar os cabeleireiros afetados das amigas, ou as cabeleireiras de salão, que mais falavam do que faziam o serviço.

Um dia, depois de muita insistência de um grupo de amigas, concordou em ir ao salão. Seu cabelo realmente estava um trapo e gritava por um corte. Chegando ao salão, Fabiane se surpreendeu com a beleza do cabeleireiro, mas logo pensou, consigo mesma: “que desperdício! Tão bonito e é bicha!”

O rapaz, Clodoaldo, começou lavando os cabelos da moça – Fabiane se surpreendeu com a firmeza das mãos. “Até parece macho esse aí”, pensou, com um riso no rosto. “Clô”, como era conhecido, secou o cabelo da garota e a colocou na cadeira. Seu corte era preciso e o rapaz não conversava muito – pelo contrário, parecia concentrado e não demonstrou qualquer tipo de trejeito ou afetação.

O corte ficou divino. Clô era um artista e Fabiane saiu do salão com um brilho que nunca havia estado ali. Tomou gosto pela coisa e passou a voltar mensalmente no salão de Clodoaldo. Lá pela sua terceira ou quarta visita, teve uma surpresa quando estava indo embora. Clô a puxou pelo braço e lhe lascou beijo, sem falar nada. Em seguida pegou um papel e um lápis, anotou seu telefone e deu para a moça. “Me liga”, disse ele, curto e grosso.

Fabiane ligou. Foram ao cinema, jantaram e transaram. Assim como no salão, Clô era um artista na cama. Sem pudores, com a “pegada” e viril, o rapaz deixou Fabiane completamente fora de controle. Após dois meses de sexo de tudo quanto é jeito, começaram a namorar. Fabiane não apenas encontrara o melhor cabeleireiro de sua vida, mas também a foda do século!

A história provavelmente terminaria por aqui. Terminaria, não fossem as amigas, parentes, conhecidos e até companheiros de trabalho de Fabiane. “Namorar cabeleireiro? Onde já se viu essa porra?”, gritava o pai. “Ele pode te fazer feliz, filha, mas é estranho…”, completava a mãe.

Conversou, chorosa como sempre, com Clô. O rapaz era macho, ela sabia, mas não aguentava a pressão. Foi então que Clodoaldo teve a idéia – estava disposto a tudo para viver seu amor com Fabiane. Clodoaldo tinha um amigo engenheiro – bem aprumado, respeitável, cara de homem, mas uma moça por dentro. João era bicha, e também amigo de infância de Clô.

Clodoaldo “terminaria” com Fabiane, que iniciaria um romance com João. Mas este, o amigo bicha, acorbetaria os encontros dos dois. Tudo estava arranjado e a notícia espalhou. “Até que enfim a Fabiane se mancou – agora está com um engenheiro”, diziam pelas ruas.

Três meses se passaram e o plano de Clô ia funcionando bem, até que o pai de Fabiane resolveu convidar João para um jantar de família. Clô tergiversou, mas acabou anuindo. João e Fabiane apareceram na casa dos pais da menina por volta das oito de uma sexta-feira. A mãe da garota não continha a emoção e deu um abraço em João quando este entrou na casa.

Tudo corria às mil maravilhas – João falava imponente de suas conquistas profissionais e Fabiane ria de felicidade, com a primorosa atuação do amigo. Tudo terminaria bem, não fosse uma reles barata. João assustou com a bichinha e soltou o que um estivador ou um caminhoneiro chamariam, tecnicamente, de “gritinho”. Para completar, o rapaz saltou da cadeira e parou ao lado da mesa com pose digna de O Lago dos Cisnes.

O desespero tomou conta da família, que agora discutia em brados o ocorrido. João pediu desculpas a Fabiane, mas a farsa havia sido despedaçada. Não havia mais o que fazer. Em um ato de confissão, Fabiane admitiu aos pais que João era homossexual.

O pai da menina botou a mão na testa, suspirou, deu um gole de 200ml no vinho, levantou a taça e anunciou um brinde. Todos levantaram os copos, sem ter a menor idéia do que aquilo queria dizer. Então, o velho mandou o discurso: “entendo, minha filha. Sua felicidade para mim, como sempre, é o que mais importa. Nada no mundo é perfeito, mas convenhamos: antes viado do que cabeleireiro”. Todos bateram copos e Fabiane foi para o quarto, aos prantos.

Uma colaboração de Híbsen Mestruca – Blog Van dos Quebrados

Márcia e Wallace formavam um daqueles casais que ninguém consegue entender. Não tinham absolutamente nada a ver. Ela era uma garota bonita, de classe média, astuta e inteligente, enquanto Wallace morava na favela, trabalhava em um cemitério local, além de ser introspectivo com qualquer pessoa que não frequentasse o bar do bigode na periferia de Juizadinho.

Ambos haviam nascido na cidade de pouco mais de 10.000 habitantes, mas nunca tinham se visto antes do falecimento de Dona Enésia, vizinha de Márcia, que fora sepultada no cemitério em que Wallace trabalhava como coveiro. É engraçado dizer isso, mas a garota ficou atraída pelo coveiro no momento exato em que ele praticava um sepultamento. Começou a visitar sua amiga morta, mais do que a visitava em vida, e tudo isso por causa do mais ou menos belo coveiro.

Wallace tinha o apelido de corvo, não por causa do negresco e mórbido pássaro tema de vários filmes, mas pelo fato do rapaz trabalhar como “corveiro”. Pelo menos, assim achavam seus amigos, ser o nome de sua profissão. O tempo passou e os dois engataram um namoro pouco aceito pelo lado da menina. O rapaz não tinha família e, por isso, não enfrentava as mesmas enchições de saco. A família fez de tudo para separar Márcia de um destino tão escasso em expectativas e realizações, mas ela estava apaixonada e afirmava que sempre seguiria seu coração.

O relacionamento foi ficando cada vez mais sério, e “Corvo” pediu a namorada que largasse a faculdade, pois dali em diante eles deveriam ficar juntos e o fato dela estudar seria prejudicial ao relacionamento dos dois. O pai de Márcia queria matá-la quando ouviu da boca da filha que ela abandonaria os estudos, mas ela respondia que estava seguindo seu coração.

Ela arranjou um emprego em uma pequena loja de confecções, e o salário que recebia era repassado para Wallace, que não perdia tempo para ir torrá-lo no Bar do Bigode. O “Corvo” pode tudo, diziam seus amigos. A mãe, ao saber, que a filha cedia sua remuneração para que o cafajeste fosse beber num bar, a visitou exigindo que ela cessasse aquela história toda ali. Mas a filha repetia que apenas seguia o que seu coração determinava.

Contra a vontade de todos e sem a presença da família de Márcia, os dois casaram em um 13 de agosto. Não fizeram festa pois não tinham dinheiro e o pai de Márcia recusou-se a gastar um centavo que fosse. Os anos foram passando, e a garota perdendo contato com a família. Tudo ia bem, mas vez em quando aparecia no trabalho com um olho roxo. Corvo havia se revelado um homem bem violento. As amigas de confecção imploravam para que ela deixasse o marido, mas ela continuava repetindo o discurso do coração.

Meses depois, a garota estava em casa se recuperando de uma surra que havia levado do marido, quando ouviu um bater de palmas no portão. Ficou emocionada ao ver que era sua mãe quem estava ali. Correu para abraçá-la, mas teve o pulso agarrado pela senhora que começou a arrastá-la pela rua. Márcia pedia inutilmente para que a mãe a soltasse, porém a determinação daquela senhora era louvável. Alguns quarteirões depois, a mulher avistou o que sua mãe queria lhe mostrar: Corvo estava no bar bebendo cachaça cercado de amigos e com uma fogosa morena a tira-colo. A visaão daquela traição foi demais para Márcia que começou a sentir uma forte dor no peito, caindo desmaiada no duro paralelepípedo da rua.

Minutos depois recobrou a consciência, acalmou a preocupação da mãe soltando um “agora, estou bem.” Levantou-se e caminhou para a casa. A mãe aguardou do lado de fora do portão enquanto Márcia pegava seus pertences na casa. Todavia, ao invés de levar os pertences embora, começou a cavar um buraco no jardim da casa. E lá colocou seus pertences.

Algumas horas depois, Wallace o “Corvo” retornou para sua casa. Estava relativamente bêbado e cantarolava músicas indecifráveis. Ao abrir o portão, viu a casa toda apagada. No jardim havia uma cruz de madeira semelhante às colocadas no cemitério em que trabalhava. Aproximou-se apenas para ler no epitáfio: “AQUI JAZ UM CORAÇÃO TOLO”. Sabia exatamente o que aquilo significava. Então, ajoelhado, começou a chorar copiosamente.

Jaqueline não era uma atendente das mais honestas. Arranjava remédios para as amigas sem receita e costuma dar em cima de farmacêuticos novos. Duas ou três vezes chegou até mesmo a filar alguns remédios para festinhas com amigos. No auge de seus 23 anos, era uma garota farrista como qualquer outra. Nada de excepcional.

Humberto pagava um pau em menininhas meio metidas a junkie – seu tipo era magra, branquela, vestida de preto e com cara de depressão. “Mulher pra mim tem que ter cara de doente”, dizia sempre aos amigos, quando saía de galera.

Apesar de brutamontes, usava roupas transadas, gostava de montar modelos e inventar estilos – os amigos tiravam um puta barato, mas Humberto estava pouco se fodendo. Levava a vida à base de remédios tarja vermelha (preta é caso sério) e cocotas com cara de doente terminal.

Acabou ingressando na faculdade de farmácia. Ia bem nas disciplinas, afinal conhecia mais remédios do que metade dos professores – já tinha tomado quase todos eles. Aos três anos da faculdade, começou a trabalhar – coincidentemente na mesma farmácia onde Jaqueline era balconista.

Jaqueline era tudo o que Humberto mais adorava – branca, pálida, magra, loira e com cara de doente. Além disso, trabalhava no mesmo lugar e adorava tomar remédios para dar barato. A coisa foi rolando e, mesmo porque ambos voltavam sempre de madrugada para casa, passaram os dois a morar na república de Humberto.

Os meses foram passando o Jaqueline parecendo cada vez mais doente – e Humberto, cada vez mais apaixonado. A moça já não enchia a cara de remédios e sempre perguntava ao namorado o que é que ela tinha, o que podia tomar. Humberto encarava como farra – julgava que a namorada queria era tirar onda e acabava receitando algo que dava barato para a companheira.

Jaqueline continuava cada vez mais aflita com sua saúde, mas Humberto dizia sempre que não era nada, passava um remedinho “segura-onda” qualquer e bola pra frente.

Um dia Humberto chega e a menina sumiu. Seus colegas nem a viram, nenhuma das amigas da moça sabe de nada e mesmo no trabalho, nem sinal de Jaqueline. Passam-se dois meses, até que os dois se encontram em um shopping.

Jaqueline, de mãos dadas com outro homem, vem ao encontro de Humberto e o cumprimenta. O rapaz, indignado, solta meia-dúzia de palavrões até se acalmar. Jaqueline espera-o terminar e começa a explicar o sumiço. A moça de doente já não tinha mais nada – estava até mesmo bronzeada.

“Humberto, se você quer morar numa casa decente, chama um arquiteto ou engenheiro, não um corretor de imóveis. Por outro lado, se você quer sempre sua saúde em dia, dê para um médico e não para um bosta de um farmacêutico”, concluiu a garota. Só então Humberto pôde enxergar o estetoscópio no pescoço do homem que acompanhava Jaqueline, ali, logo abaixo daquele sorrisinho jocoso.

Toda mulher já teve fantasias sexuais das mais diversas com cantores. Quantas mulheres já tiveram alguma fantasia com um barítono? Possivelmente seria bem mais indicado do que recorrer a um castrato, mas ainda assim é um pouco difícil de se imaginar.

Geovanna não pensava assim. Tinha paixão pelas vozes potentes de cantores velhos presentes em discos de sua mãe e considerava charmosos homens cantando música clássica. Apesar de achincalhada pelas amigas, que iam a bares e baladas enquanto Geovanna ia a ensaios de ópera, ao fazer 23 anos conheceu Pedro, um dos barítonos da ópera amadora do municipal.

Pedro era bastante arrogante, mas após muita insistência de Geovanna, concordou em ir com a menina a um bar. A coisa deu certo e ambos começaram a sair com maior frequência.

Só um problema – Geovanna era fumante e sim, gostava de um goró. Aos poucos Pedro se acostumou aos vícios da mulher, mas não os aprovava para si, isso era bem verdade – sua voz era seu ganha-pão.

Com o tempo as amigas deram o braço a torcer – até que era charmoso um homem com um vozeirão daqueles. Só havia um problema: todos sabemos que músicos no Brasil ganham um salário de merda, e Pedro não era uma das exceções.

Veja bem, uma mulher pode gostar de um cara – gostar mesmo, sem falsidade. Mas quando a grana rareia e o sexo já não é lá coisa de filme, vai tudo para o vinagre. A relação de Pedro e Geovanna foi caindo na rotina.

Um dia, pra mudar de ares, Pedro resolveu levar Geovanna num show de rock, até por insistência das amigas das meninas. A moça não queria ir, dizia que tinha ouvido apurado e o escambau e que rock era coisa para tiete.

Mas foi. Pedro não era apenas músico – era também azarado pra cacete. Assim que Geovanna adentrou o Café Piu-Piu, ficou maravilhada com o vocalista da banda que estava se apresentando. A bandinha não tinha nada de especial, mas fazia uma musiquinha boa.

Mesmo com a cara feia de Pedro, Geovanna pegou o contato da banda ao final do show. Manteve dois meses de relacionamento com a banda, ao mesmo tempo em que o namoro com Pedro ia ficando distante. A banda foi ganhando algum nome.

Um dia jogou tudo pro alto. Disse a Pedro que não sentia mais “aquilo” do início e tals; as desculpas de sempre. Semanas depois, Pedro soube que Geovanna estava saindo com o tal vocalista. Foi um escarcéu.

Pedro foi até a casa de Geovanna e fez escândalo, acusava-a de traí-lo. Ela foi sucinta e o dispensou. A vida é dura. Afinal, o roqueiro tinha uma voz de bosta, bebia e fumava, mas podia levar Geovanna toda a semana no Municipal – mas sem ter que cantar por merreca na companhia de ópera.

Marília morava ao lado do quartel da Vila Mariana. Desde pequena, sempre gostava de ficar horas no quintal de casa, observando os soldados e oficiais que iam e vinham fardados. Era fascinada por uniformes – já tivera namoros com bombeiros, policiais, motoristas de ônibus e até um atendente da TAM. Mas nenhum uniforme superava uma farda militar. Infelizmente, ainda que tivesse fixação na coisa, jamais havia tido a oportunidade de se relacionar com um milico.

Um dia, quando descia a rua para ir à padaria, prestando atenção na lista de comprar que sua mãe havia preparado, esbarrou em um rapaz de farda. Ao abaixar para recolher suas coisas, bateu o olho na farda e entendida que era, logo disse “desculpe, tenente”. O rapaz achou admirável que uma mulher, apenas de relance, pudesse reconhecer uma patente militar. Disse que não era nada e a convidou para um café na padoca.

A conversa foi boa e marcaram de sair. Em poucos meses estavam saindo quatro ou cinco vezes por semana. A mãe gostava do rapaz e pressionou Marília, e os dois acabaram casando. A menina acompanhava o marido – Gerson – para todo canto. Porém, aos finais de semana sempre arranjava algum compromisso religioso, de família ou algo beneficente.

Passado um ano, Gerson foi promovido a capitão, em mais cinco meses era major, e quatro anos depois, alçou um posto de coronel. A farda ia mudando e a felicidade de Marília, aumentando.

Todos estavam estupefactos com a carreira e evolução meteórica de Gerson, embora ninguém soubesse exatamente dizer porque ocorrera. O fato é que, uma vez coronel, Gerson não mais teve promoções de patente.

Quase dez anos se passaram e nada de aparecer uma chance para que se tornasse general. O general Laerte era quem mandava e desmandava na Vila Mariana e foi aquele responsável por todas as promoções de Gerson. Estranhamento, os dois nunca tinham se falado mais do que um minuto.

Mais algum tempo se passou e, aos 67 anos, o general Laerte faleceu. Mesmo postumamente, logrou a derradeira promoção para Gerson. Em uma carta, Laerte deixara uma recomendação de Gerson para assumir seu posto. O rapaz, agora um homem de 48 anos, foi convertido em general.

Após duas semanas ocupando a cadeira, recebeu uma carta. Era de Laerte. Abriu curioso o conteúdo da missiva e terminando, ligou para a mulher e imediatamente depois para seu advogado, pedindo para que procedesse o divórcio.

O conteúdo? Era este: “Caro Gerson, no exército existem duas formas de se alcançar tão rapidamente uma promoção – ou pela guerra ou pelo sexo. O Brasil é um país sem guerras. Quanto ao sexo… sua esposa possui fascínio por fardas e uniformes, mas digamos que ela gosta mesmo é de três estrelas no ombro. Boa sorte com a nova patente. Assinado: Laerte”.