João era alérgico a arruda. Não é muito comum, eu sei, mas o fato é que o fulano desembestava a espirrar toda vez que sentia o mais discreto sinal do cheiro da erva. A vida foi passando e João conheceu uma menina, Vânia, com a qual acabou casando.

Não demorou muito até que o casamento começasse a dar merda. Vânia era bastante supersticiosa – e a sogra de João ainda mais. O fato que as duas benziam tudo quanto era coisa que havia na casa, com um maldito ramo de arruda. Carro, sofá, máquina de lavar e até talheres – tudo trazia o maldito cheiro de arruda.

Em pouco mais de três meses morando com Vânia, João só fazia espirrar. Para não desagradar a menina, a qual amava muito, fingia ser resfriado, rinite ou qualquer outra coisa.

Assim, resolveu recorrer a ajuda “profissional”. Alguns colegas do trabalho haviam falado de uma tenda cigana, que agora estava lá pelas bandas do Largo do Payssandu. Diziam que a velhota era realmente milagreira e que resolvia qualquer problema, principalmente de cunho conjugal.

João engoliu seus preconceitos e, um dia após o almoço, foi ter com a velha.

A senhora ouviu calma e atenciosamente a narrativa do pobre rapaz, apens meneando a cabeça de quando em quando. João terminou e a velha pegou um pedaço de papel – chá de barba de bode, alfazema e algun fios de cabelo da mulher. Depois era só tacar pimenta e deixar ferver um pouco, largando o líquido quente numa vasilha aberta sobre a pia.

O negócio realmente “funcionou” rápido. Em três dias, descobriu-se uma antiga dívida de sua família e João teve de vender a casa para quitá-la. Vânia ficou puta e acabou indo morar de novo com a mãe. O sofá, pegou fogo; a lavadora, quebrou; o carro tomou uma porrada enquanto estacionado e acabou levando perda total.

Irritadíssimo, João voltou na cigana. Reclamou horas, mas novamente, a velhota só fazia ouvir. Quando terminou a narrativa, João implorou para a velhota – ela tinha que dar uma receita para que ele recuperasse tudo o que fora perdido.

A velha, dessa vez, nem pegou papel. Foi até uma prateleira, puxou um saco e estendeu para João. “O que raios é isso?”. A velha, placidamente, respondeu: “arruda, você precisa se benzer meu rapaz”. João só conseguiu ser contido após imobilizado e algemado por cinco policiais.

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Gabriel era um cara realmente azarado. Faltava a entrevistas de emprego por que o metrô ou o ônibus quebraram, as mulheres que chamava para sair sempre conheciam o homem da vida delas logo em seguida e sempre que escorregava havia um prego ou cacos de vidro para completar o serviço.

Um dia, Gabriel ouvir falar de uma tenda, ali para os lados do Brás, a qual prometia realizar pedidos e fazer milagres. Ainda que não fosse supersticioso, chegou à conclusão de que não perderia absolutamente nada tentando. Tomou um ônibus, que quebrou no caminho, e até lá foi ter.

Ao adentrar a tenda, antes que pudesse falar qualquer coisa, viu ao fundo uma velha cigana, a qual imediatamente lhe dirigiu a palavra. “Em busca de sorte você vem, meu filho. Sente-se e veremos o que podemos fazer”. Gabriel se acomodou em uma almofada, enquanto a anciã se aproximava.

Sem dizer mais palavra sequer, a velha abriu um baú, de onde tirou um horrível anel. Uma pedra vermelha incrustada na peça media mais de 5cm e os adornos na circuferência eram péssimos. Olhou para o rapaz e disse: “são cinco reais para cada vez que lhe dê sorte”, e lhe estendeu o anel.

Gabriel pensou em perguntar como iria a velha cobrar tal dívida, sem saber quando o anel iria ou não dar-lhe sorte. Mas desistiu – agradeceu, vestiu o anel, e saiu caminhando.

Nada mudou na semana seguinte. Gabriel continuava desempregado, não via mulher nem de perto e já havia contundido o cotovelo e tomado cinco pontos no braço devido a uma queda. O anel da cigana obviamente não havia funcionado.

Na semana seguinte, vestiu o anel para testá-lo um vez mais. Nada – tudo continuava dando errado e agora, além de tudo, o anel lhe causara uma terrível dermatite nos dedos. Resolveu que ia devolver o anel à maldita velha.

Chegando ao Brás, nada da tenda. Perguntava a ambulantes e lojistas, mas ninguém tinha notícias da velha. Rodou o bairro inteiro, até que foi parado por uma jovem. “Você está usando o anel da minha mãe… onde o conseguiu”. Sem entender nada, Gabriel contou à jovem sua história. Sem graça, devolveu o anel à jovem.

A menina o vestiu e chamou Gabriel para tomar um café. Estava feliz por recuperar o pertence de sua mãe. Passados cinco minutos, a jovem encontrou na sarjeta uma nota de 100 reais. Gabriel olhou estupefacto, mas julgou ser uma coincidência.

No café, mal se sentaram, e a garçonete informou-os que não seriam cobrados por nada – a menina era a centésima cliente do dia e havia uma promoção. Tudo de graça. Gabriel começava a se irritar – não é que o maldito anel dava sorte mesmo!

Terminou o café com bolo de chocolate na faixa e chamou a jovem para caminhar. Já anoitecia no Brás e os dois iam em direção ao metrô. Quando passavam por um trecho de rua mais escuro, Gabriel aproveitou a chance. Atirou  jovem ao chão, arrancou-lhe o anel e saiu correndo. Na pressa, mal pôde ver o ônibus que virava a esquina. Foi pego em cheio.

Agora Gabriel jazia no asfalto, ensanguentado e alquebrado, respirando com dificuldade. Os transeuntes se aproximavam e formavam um círculo à sua volta. Não podia ver e perceber seu estado, mas ouvia os observadores dizerem coisas como “esse já era”, “coitado, tão novo”, etc.

Nesse momento, sentiu o anel sair de seus dedos e uma mão entrar-lhe no bolso. Olhou com dificuldade para o lado e viu a velha cigana, com um expressão de pesar. A velha lhe tirou cinco reais e o anel e foi embora – em seu último suspiro, a Gabriel ocorreu: a cigana lhe dissera que o anel traria sorte, mas nunca lhe disse que seria em suas mãos. E ali faleceu.