Uns dez ou onze anos atrás, quando comecei e obviamente não prossegui no curso de Engenharia Elétrica, conheci uma das mais fantásticas personagens de toda minha vida. O japonês gordo, com cara de acabado e sempre com a fumaça do cigarro cobrindo a cara era um tipo, uma caricatura, mas sua história não parava por aí. Não julgo necessário citar nomes.

Cinco anos após abandonar o curso, tive notícias de que o japonês continuava a passar suas tardes e noites fechado no diretório acadêmico da universidade, jogando intermináveis partidas de truco. O cigarro, à boca, cobria a cara de fumaça, e seus dedos, sempre tortos, seguravam as cartas tal como uma preá com uma semente de girassol.

Anos se passaram até que alguém descobrisse onde residia lendária figura. Nunca alguém pisou no apartamento da figura e, como o tempo passasse, decerto alguém um dia iria parar ali. Pois não aconteceu. Em dez anos, ninguém o visitou e ele não convidou a um só colega para que fosse à sua residência. “Moro perto”, dizia ele, e imaginávamos quão perto ele moraria, pois da faculdade não saía jamais.

Até que um dia, o avistaram, enquanto passando de carro, entrando em um salão de cabeleireiro. Resolveram esperar. Por mais de duas horas meus colegas pararam num ba ao lado, mas nada do japonês sair. Desistiram.

Contudo, persistia a dúvida. O que fora o japonês fazer no salão, já que no dia seguinte trazia o mesmo penteado de sempre. Pior – o salão ficava próximo a um ponto de travestis e ao mesmo tempo ao lado de um posto policial. Pois bem, decidimos que o seguiríamos naquela noite.

Bom, a faculdade fechou às meia-noite, e dali saiu matreiro o rechonchudo oriental, rumo ao salão novamente. Esperamos por horas, e nada ocorreu. Repetimos a receita por três dias seguidos. Nos três, o japonês entrou, mas não saiu.

Duas semanas depois, tentamos novamente. Nada. Irritado, um de nossos colegas levantou do bar e foi em direção ao salão. O seguimos. Chegando ali, uma bicha nos recebeu, mas passamos direto, de solavanco.

No fundo do salão, numa parte mais escura, estava ali o japonês. Sentado numa cadeira, dormindo. Irritado, meu colega o acordou – nessa altura já era mais de seis da manhã. O oriental acordou assustado, olhou o relógio e começou a trocar de roupa.

Indignados, perguntamos o que estava acontecendo. “Eu disse que morava perto”, comentou o nipônico. “Mas num salão de cabeleireiro?”, gritamos em uníssono. “O corte aqui é R$ 5,00… o motel mais vagabundo da região, R$ 10,00 por noite… e o aluguel mais barato R$ 300 por mês… japonês pode ser doido, mas sabe fazer conta”, e dizendo isso, botou a mochila nas costas e seguiu rumo à faculdade, sem o corte de cabelo.

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Ninguém gosta de ter um pneu furado. Melhor ainda, ninguém gosta de trocar um pneu. Entretanto, certas situações exigem soluções rápidas e, cá para nós, mesmo a mais inepta das cocotas não demora mais de meia hora para colocar um estepe.

A história a seguir é completamente baseada em fatos reais.

Uma grande amiga possui um namorado que, por assim dizer, é razoavelmente encostado. Rolos vazios de papel higiênico, cestos de lixo transbordando e potes de danoninho ou iogurte jogados em cima do sofá pela manhã são apenas exemplos desse comportamento. Não são falhas dignas de prisão perpétua, mas denotam características peculiares da personalidade de alguém.

Pois bem – o namorado aparece na residência de minha amiga às nove horas da noite de um domingo. Sem menção ao fato, liga a TV e coloca na ESPN – ele quer assistir ao Super Bowl. Entendo que o futebol americano seja o esporte nacional dos Estados Unidos, mas o brasileiro não costuma dar muita importância.

Já assisti a alguns jogos do referido esporte em minha vida. Nunca vi nenhum lance digno de “urrú urrú urrú”, “caralho, olha, olha” ou “nooooossa, essa foi inacreditável”. Na dinâmica redundante do jogo, brutamontes com capacetes se enfileiram téte-a-téte e se trombam, permitindo a um cara mais “magrinho” lançar a bola a um que corre na frente. Com o cara da frente derrubado, pára-se o lance e forma-se nova linha téte-a-téte.

Pois bem, contei três “urrús”, dois “caralho, olha, olha”, além de um fantástico “noooossa, o cara esbarrou no juiz”, muito embora eu suponha seja normal, em jogo que consiste basicamente de ombradas, esbarrar em um dos árbitros, que devem somar dez ao todo.

Dois quartos do jogo e uma cerimônia de intervalo depois, eis que toca o interfone. Claro, o rapaz não o atende, ainda está fissurado na queda do juiz. Minha amiga o atende, dizendo com expressão de dúvida: “o ‘guincho’ está aí amor…”

Óbvio. O guincho veio em busca do rapaz, que ligou para o seguro assim que ouviu o pneu de seu carro estourando. O seguro tardou apenas duas horas a chegar, mesmo porque ninguém em São Paulo bate o carro, e as seguradoras existem basicamente para trocar pneus. Ou seja, uma troca de pneus tão cara quanto a dos boxes da Fórmula 1. Fico imaginando a cena: “Zacarias de Pneus, boa tarde”; “Por favor, eu queria colar o estepe e fazer o rodízio dos pneus”; “Pois não, são R$ 3.000,00, senhor”.

Sem se fazer de rogado, o rapaz subiu no guincho e foi até em casa, onde o funcionário da seguradora trocou o pneu, ou onde o carro está até hoje com o pneu furado. Nada contra, mas só imagino que no dia em que ferver a água do radiador do moçoilo, teremos a primeira troca de água televisionada da história.

Vítor não era um homem – era um touro. Quase dois metros, cento e vinte quilos, a força de um caminhão Volvo e perito em cinco ou seis artes marciais. Apesar da estatura e porte descomunais, dava-se bem e preferia as mulheres pequenas.

Trabalhava num hotel dos Jardins de dia e numa boate da Augusta na parte da noite. Certo dia, parado em posiçao “Men in Black” na porta do hotel, como era usual, viu passar uma bela morena, a qual o encarou com um sorriso. Apesar de sentir imediata vontade de largar o posto e ir ter com a menina, para passar um xaveco e jogar papo fora, zeloso que era resolveu ali ficar. “Onde se ganha o pão não se come a carne” – pensou, tentando conformar a si mesmo por perder a chance.

Chegando de noite à boate, mal se emprumava à frente do estabelecimento e eis que viu entrar pela porta a tal morena – aquela mesma que vira no hotel, durante o dia. Estava ainda mais bela e radiante do antes, mas o reino das obviedades existia, mesmo para um pobre trabalhador de poucos estudos como Vítor. A morena era puta.

A ele intrigou que ela novamente lhe lançasse o mesmo olhar que havia lançado de dia. Gostou, e mesmo sabendo que isso poderia comprometer seu emprego, decidiu com ela papear após o “expediente”. Cinco da manhã e os dois tomavam um táxi até Interlagos. A morena, Matilde, ficava ali pelos lados da Chácara Flora. Vítor ia descer até o Grajaú.

Quando saltou do carro, Matilde agradeceu a companhia e estendeu algumas notas de dinheiro para Vítor. O rapaz era direito e recusou. Ela insistiu, lhe dizendo que ou aceitava, ou ficava na casa dela hoje. Vítor era pobre e pouco estudado, mas não burro. Pagou o motorista e saltou junto do veículo.

Treparam como loucos – Matilde contou ao homem que havia feito cinco programas na noite, mas nenhum deles “pesado”. Lá pelas oito da manhã, capotaram. Vítor chegou atrasado meia hora ao hotel, mas não houve muito problema.

Repetiram a dose uma dúzia de vezes, até que Matilde lhe confessou estar apaixonada. Queria que vivessem juntos, ali na Chácara Flora, em seu apê. Vítor também estava gamado e adorava a idéia. Mas homem honesto e direito que era, alegou que não a podia sustentar, ainda mais ali naquele bairro. Matilde disse que, pelo menos por um tempo, não largaria o “ofício” – Vítor estava apaixonado demais e acabou cedendo. “Mas só até ajeitarmos as coisas, mulher”, falava.

Mas a vida de segurança não era nada fácil. Vítor não ganhava nem pra ele, quanto mais para dois. Matilde seguia fazendo o trampo na boate e a notícia de que os dois estavam juntos começou a espalhar. Matilde caiu fora e a grana começou a apertar.

Até que Matilde teve a idéia genial – atenderia em casa mesmo, no melhor estilo “privê” moderno – e Vítor lhe faria a segurança, caso algum cliente passasse dos limites. Os anos se passaram e Matilde ampliou a clientela. Das dez da manhã às dez da noite era uma foda atrás da outra, sempre com Vítor na butuca, em qualquer caso.

Cinco anos foram assim, até que Matilde juntou uma grana – mas grana mesmo. O resultado de cinco anos levando pau doze horas ao dia havia sido uma gorda conta bancária, de mais de R$ 10 milhões. Matilde, já com seus trinta e dois anos, já estava perdendo a juventude, embora ainda fosse uma baita de uma morena. Resolveu largar a vida de puta, para se dedicar a seu paciente e amoroso marido, que esteve todo esse tempo ao seu lado, mesmo com a profissão que mantinha.

Dois anos se passaram. Os dois levavam uma vida para lá de confortável, mas a cada dia que passava, Vítor parecia mais deprimido. Havia perdido a vontade e, para quem quer que olhasse, parecia estar à beira da depressão. Matilde desesperava-se, mas não tinha idéia do que fazer. Tudo o que podia fazia para agradar ao marido, mas nada lhe funcionava.

Um dia, no café da manhã, resolveu abrir o coração para o marido. Queria, pelo amor de Deus, que ele ao menos dissesse a ela o que podia fazer, para que visse de novo sua felicidade. Vítor disse a ela que não tinha o direito de lhe pedir o que queria, mas Matilde foi irredutível: “faço qualquer coisa, qualquer coisa mesmo”. Vítor então lhe pediu que ficasse em casa, que sairia e voltaria logo mais. Matilde obedeceu.

Duas horas depois, Vítor retornou. Entrou em casa junto com um outro senhor, de uns cinquenta anos de idade. Matilde olhou fixo sem entender, enquanto o coroa puxava duzentos reais da carteira e entregava a Vítor, que apontou Matilde e o quarto atrás dela. Compreendendo razoavelmente o que se passava, Matilde acompanhou o outro homem até o quarto, deitou na cama, se despiu e começou a chupá-lo. Ainda pôde ver Vítor fechando a porta.

Terminado o “serviço”, o homem virou de lado na cama e começou a cochilar. Matilde levantou com cuidado, nua mesmo, abriu a porta do quarto e seguiu em direção ao quarto ao lado, onde Vítor costumava montar tocaia como “segurança”.

Abriu a porta e viu Vítor – braguilha aberta, pênis para fora… o sêmen na calça e um sorriso feliz e prazeroso no rosto. Ao contemplar a cena – e ver que finalmente havia trazido de volta a felicidade do marido – não sabia se chorava de felicidade ou tristeza. Chorou mesmo sem ter decidido.

O português tem fama de burro, o brasileiro é estatisticamente analfabeto, e Angola e Moçambique falam praticamente zulu com sotaque de dono de padaria. Não era de se espantar que uma reforma linguística na verdade fosse uma mera simplificação do léxico em favor do populacho.

Mais uma ou duas reformas e palavras como “crônico” ou “averiguar” se tornarão praticamente machadianas. Por volta de 2030, 90% da população mundial de fala portuguesa não utilizará hífens, tremas, vírgulas, travessões, acentos circunflexos e consoantes mudas.

A nova reforma, porém não extinguiu a mesóclise, bastião máximo da pedância e desfaçatez na língua portuguesa. Só reside aí um problema – ninguém sabe usar a mesóclise. Para tanto, um programa ‘open-source’ gratuito, podendo ser baixado inclusive no celular, sugeriria automaticamente uma mesóclise todas as vezes em que o usuário incorresse em uma chance de usá-la.

Pesquisas da Universidade de Tóquio, Pensilvânia, comprovam que a partir de 2020, o uso da mesóclise será sexualmente provocante e que muitas mulheres e homens basearão a escolha de seus parceiros na colocação pronominal. O mesmo estudo aponta que a conjugação de verbos no subjuntivo pode levar ao orgasmo.

O futuro é incerto e ninguém sabe o que nos é reservado. Porém, proliferando pequenas e simples idéias, podemos tornar o mundo um lugar bom para se viver, ainda que longe do que chamaríamos de ideal. Nos dias atuais, não mais se paga coisa alguma em dinheiro em espécie – todos andam com cartões, que cada dia se tornam mais versáteis e se aplicam em setores e áreas que sequer imaginaríamos na década de 80, por exemplo.

O dízimo é uma prática comum em igrejas e templos erguidos sem precisão de projeto em suas colunas de sustentação – como podemos observar no caso da Renascer em Cristo. Porém, não é justo que os fiés tenham de carregar vultosas somas em dinheiro, ainda que seja para a benfeitoria divina. Infelizmente, Cristo traz felicidade e riqueza, mas como não é da PM, não impede gatunos de levar sua grana.

Demorou para a Visa ou a Mastercard criarem o Cartão-Dízimo. O mecanismo é simples – o fiel cadastraria uma senha, equivalente a seu salmo favorito e quando cobrado o dízimo, a digitaria, debitando automaticamente 10% de seus rendimentos de sua conta corrente.

O famoso “passem a sacolinha” seria substituído pelo high-tech “passem a maquininha”. O sistema operacional da máquina, completamente adaptado, seria de fácil utilização por parte de pastores e ajudantes. “POR FAVOR, DIGITE OS QUATRO ÚLTIMOS DÍGITOS DO CARTÃO, COM A GRAÇA DE DEUS”; “FAVOR DIGITE O SALMO, E QUE CRISTO ESTEJA COM VOCÊ”.

O sistema e a maquininha não implicariam em custo algum, pois a “usura é pecado” e a anuidade poderia ser paga em duas, três, quatro vezes, ou em orações.

Afinal de contas, Deus é Pai, Cristo é o Senhor, mas Visa é o cartão em mais aceito em estabelecimentos em todo o mundo.

Não raro impressiono-me com o cotidiano das mulheres, mas talvez nada seja mais torturante e medieval do que o processo da depilação em suas várias vertentes. Se me perguntassem a respeito das origens do processo, minha memória traria à tona certamente a caça às bruxas protagonizada pela Inquisição Espanhola (não por acaso em Portugal, Espanha e França estão as mulheres mais bigodudas e dotadas de pêlos nas axilas de todo o mundo, eu diria).

Nessa época, a cera quente para extrair os pêlos das pernas e buço era tido como a derradeira tortura antes da fogueira. “Morte rápida” era ser queimado, enforcado ou empalado. Lento mesmo era ter de ser depilado antes disso tudo.

O advento da Gilette tornou o processo um pouco menos escabrosos, mas com uma desvantagem – as mulheres desde então JAMAIS aprenderam a raspar a favor, e não contra o fio, o que faz com que sintam coceiras indizíveis após o processo estar completo. Com essa desvantagem, regressam sem titubear ao medieval processo – “com cera quente é bem melhor!” – costumam dizer.

Com o objetivo de, psicologicamente, tornar o processo menos doloroso, inventaram ceras de depilação com todas as cores, aromas, odores e sabores – lavanda, babosa e recentemente até mesmo ‘frutas vermelhas’. Novamente me vem à cabeça a cena da Inquisição Espanhola, ‘aliviando’ o sofrimento de um condenado atirando um preparado de lavanda do pobre diabo enquanto esse queima na cruz. Refrescante.

O fato é que agradeço a disposição das mulheres em recorrer a mais esse sofrimento para satisfazer à nossa classe, no entanto espero que corram mais cem anos antes que a moda chegue ao lado masculino – embora eu já conheça um par de amigos dispostos a se submeter aos terrores da Inquisição.

Após uma longa viagem de “auto-conhecimento”, Sobral resolveu voltar a tatuar. Sua estada no exterior arrancou toda a sua pouca noção de singular e plural, mas nós, do Cu de Lontra, temos fé. Vai que é tua, Sobral.

É nóis

É nóis

Agenor era um homem de sorte… e azar. Embora perdesse o pai e a mãe num acidente de automóvel, faleceu na mesma ocasião seu único tio, sem filhos e proprietário de diversos imóveis na região da Paulista. Do dia para a noite, Agenor era órfão, mas um órfão com renda praticamente eterna garantida.

Passados cinco anos, era um bem-sucedido senhorio na região dos Jardins e Bela Vista. Já contava com 26 apartamentos, todos alugados, que lhe proporcionavam uma renda de uns 20 paus por mês, já pagos impostos e tudo mais.

Embora muitos dos imóveis tivessem uma rotatividade alta, alugados por estudantes e universitários, alguns deles já possuíam inquilinos de longa data. Um deles inquilino de seu falecido pai. Esteves, sua esposa e a filha, moravam em um dos apartamentos hoje administrados por Agenor havia mais de quinze anos.

De qualquer modo, dali três meses o contrato venceria, de modo que Agenor resolveu contactar o Esteves e marcar um dia para conversar. Queria conhecer o mais velho de seus inquilinos. Qual não foi a surpresa quando o Esteves chamou de “amigo”, disse ter conhecido seu pai e o convidou para jantar um dia, por sua conta.

Chegando na casa do Esteves, Agenor recebeu o recado para descer até a garagem. Ali Esteves esperava e disse a Agenor que colocasse o carro em uma vaga tal, ao lado de outros três veículos – todos novos e luxuosos. “Quatro vagas na garagem – esse homem tem dinheiro”, pensou logo Agenor, fazendo tilintar os cifrões em sua mente.

Agenor subiu ao apartamento. Ali foi apresentado a Márcia – esposa de Esteves – e Glorinha. Que filha maravilhosa tinha o Esteves: loira, de uns vinte e cinco, bunda carnuda, seios obviamente com silicone (Deus não dava aquilo a ninguém) e olhos amendoados de uma cor jamais repetida na humanidade. Agenor já estava “mais alegre”.

A casa tinha de tudo – TV a cabo com infinitos canais, ofurô, toda reformada e pintada (parecia serviço feito ontem). Não parecia haver nada o que faltasse a Esteves. Homem abastado, de sorte. Sei lá que porra fazia para viver, mas com certeza tinha grana.

Jantaram – sobremesa, aperitivo e café. Já na hora de ir, Esteves puxa o Agenor: “olha, rapaz, minha filha gostou de você. Acho que vai te ligar. Eu conheci teu pai e sei que você é homem direito. Tem minha aprovação”. E dizendo isso, despediu-se do rapaz e fechou a porta.

Dito e feito – passados dois dias, Glorinha ligou. Marcaram e saíram na quinta-feira. Durante meses, repetiram. Todas as quintas saíam, jantavam, iam a bares, transavam… até que Agenor começou a querer algo mais sério. A moça desconversava.

Um dia, numa conversa, Glorinha se abriu. “Não posso, Agenor, tenho que me formar, fazer uma pós e ajudar meus pais”, dizia. Agenor, indignado, começou a ralhar com ela… o pai era cheio da grana, tinha de tudo, que cuidar porra nenhuma.

Glorinha, então, pôs-se a explicar. Disse que Esteves vivia de aparência. Há alguns anos havia recebido uma herança e também vivia de renda – mas queimara boa parte da grana e hoje vivia apenas para pagar as dívidas que havia feito: carros, reformas no apê, eletrônicos e tudo mais.

Tendo isso em vista, Agenor tomou uma decisão. Não mais cobraria o aluguel do Esteves e pediria a mão de sua filha. Juntaram, sem casar de papel passado, e passaram juntos um ano inteiro. No décimo-terceiro mês, Glorinha surtou. Não aguentava mais viver com Agenor, queria largá-lo e voltar para a casa dos pais. E foi.

Agenor ficou arrasado e puto. No dia 30 do mês seguinte, já sem contato nenhum com Glorinha, mandou entregar o boleto do aluguel para o Esteves – a primeira cobrança após 13 meses.

No dia seguinte, ainda cedinho, recebe uma ligação. Era o Esteves. Ameaçava processá-lo junto com a filha, por união estável, e pedir pensão. Gritaram os dois ao telefone por meia hora e firmaram então um acordo de cavalheiros – sem aluguel e sem pedido de pensão. Feito.

O tempo foi-se e mais um ano se passou, até que um dia, Agenor encontrou Glorinha no shopping, junto com um outro sujeito. O cara foi ao banheiro e Agenor, indignado, foi em direção a Glorinha. “E aí, outro otário para enganar. Você não presta menina, não fiz nada de errado contigo, você nunca me amou”.

Calma e plácida, Glorinha disse: “eu te avisei, Agenor, que tinha que cuidar dos meus pais. Você não ouviu. Tinha que querer lance sério. Eu tenho que ajudar meus pais”.

“Como assim ajudar seus pais. Não teve nada a ver. Você me largou sem aviso nem nada e um mês depois, teu pai me ameaça com processo de união estável. E esse sujeito aí, quem é afinal”?

Sem titubear, Glorinha respondeu: “arquiteto, meu pai está reformando de novo o apê”. Virou de costas e saiu andando.

Gabriel era um cara realmente azarado. Faltava a entrevistas de emprego por que o metrô ou o ônibus quebraram, as mulheres que chamava para sair sempre conheciam o homem da vida delas logo em seguida e sempre que escorregava havia um prego ou cacos de vidro para completar o serviço.

Um dia, Gabriel ouvir falar de uma tenda, ali para os lados do Brás, a qual prometia realizar pedidos e fazer milagres. Ainda que não fosse supersticioso, chegou à conclusão de que não perderia absolutamente nada tentando. Tomou um ônibus, que quebrou no caminho, e até lá foi ter.

Ao adentrar a tenda, antes que pudesse falar qualquer coisa, viu ao fundo uma velha cigana, a qual imediatamente lhe dirigiu a palavra. “Em busca de sorte você vem, meu filho. Sente-se e veremos o que podemos fazer”. Gabriel se acomodou em uma almofada, enquanto a anciã se aproximava.

Sem dizer mais palavra sequer, a velha abriu um baú, de onde tirou um horrível anel. Uma pedra vermelha incrustada na peça media mais de 5cm e os adornos na circuferência eram péssimos. Olhou para o rapaz e disse: “são cinco reais para cada vez que lhe dê sorte”, e lhe estendeu o anel.

Gabriel pensou em perguntar como iria a velha cobrar tal dívida, sem saber quando o anel iria ou não dar-lhe sorte. Mas desistiu – agradeceu, vestiu o anel, e saiu caminhando.

Nada mudou na semana seguinte. Gabriel continuava desempregado, não via mulher nem de perto e já havia contundido o cotovelo e tomado cinco pontos no braço devido a uma queda. O anel da cigana obviamente não havia funcionado.

Na semana seguinte, vestiu o anel para testá-lo um vez mais. Nada – tudo continuava dando errado e agora, além de tudo, o anel lhe causara uma terrível dermatite nos dedos. Resolveu que ia devolver o anel à maldita velha.

Chegando ao Brás, nada da tenda. Perguntava a ambulantes e lojistas, mas ninguém tinha notícias da velha. Rodou o bairro inteiro, até que foi parado por uma jovem. “Você está usando o anel da minha mãe… onde o conseguiu”. Sem entender nada, Gabriel contou à jovem sua história. Sem graça, devolveu o anel à jovem.

A menina o vestiu e chamou Gabriel para tomar um café. Estava feliz por recuperar o pertence de sua mãe. Passados cinco minutos, a jovem encontrou na sarjeta uma nota de 100 reais. Gabriel olhou estupefacto, mas julgou ser uma coincidência.

No café, mal se sentaram, e a garçonete informou-os que não seriam cobrados por nada – a menina era a centésima cliente do dia e havia uma promoção. Tudo de graça. Gabriel começava a se irritar – não é que o maldito anel dava sorte mesmo!

Terminou o café com bolo de chocolate na faixa e chamou a jovem para caminhar. Já anoitecia no Brás e os dois iam em direção ao metrô. Quando passavam por um trecho de rua mais escuro, Gabriel aproveitou a chance. Atirou  jovem ao chão, arrancou-lhe o anel e saiu correndo. Na pressa, mal pôde ver o ônibus que virava a esquina. Foi pego em cheio.

Agora Gabriel jazia no asfalto, ensanguentado e alquebrado, respirando com dificuldade. Os transeuntes se aproximavam e formavam um círculo à sua volta. Não podia ver e perceber seu estado, mas ouvia os observadores dizerem coisas como “esse já era”, “coitado, tão novo”, etc.

Nesse momento, sentiu o anel sair de seus dedos e uma mão entrar-lhe no bolso. Olhou com dificuldade para o lado e viu a velha cigana, com um expressão de pesar. A velha lhe tirou cinco reais e o anel e foi embora – em seu último suspiro, a Gabriel ocorreu: a cigana lhe dissera que o anel traria sorte, mas nunca lhe disse que seria em suas mãos. E ali faleceu.

Chewbacca - foda e peludo

Chewbacca - foda e peludo

Luke Skywalker? Han Solo? Princesa Léia? Nem pensar. Herói mesmo na série Star Wars só mesmo o Chewbacca. Mais alto, mais forte, mais ignorante e menos roupas. Ninguém mexe com Chewie – ele não gostou, ele quebra, é assim que a coisa funciona.

E a melhor parte de todas – ao contrário do patético Luke, ele não tem falas no filme – como um bom macho, limita-se a grunhir. E finalmente, nada de heroizinhos enberbes como o pueril Skywalker – Chewbacca não tem apenas barba, ele é praticamente só pelo. Com isso, Chewbacca é nosso Ídolo da Sessão da Tarde de hoje.