Josias abriu cuidadosamente a porta da cozinha. Assim que escancarou a porta-camarão que separava o cômodo da ampla sala de jantar sentiu um vento gelado nas canelas e chegou até mesmo a ouvir um zunido. A cozinha parecia ter sido levada por uma quadrilha daquelas que assaltam caminhões das Casas Bahia. Sem fogão, sem armários, sem nenhum mobiliário, sem mesa, sem gaveteiros, sem panelas e até mesmo sem cortinas. Apenas, como se fora um monolito medieval, a tal geladeira em inox de porta dupla – e claro, com seu dispenser especial para água e gelo.

A esposa, Fátima, vinha enchendo o saco para que ele comprasse a tal geladeira desde que começaram a organizar a mudança. De nada adiantava Josias argumentar a respeito do orçamento, que era curto e tudo mais. Fátima tinha certeza que na base das prestações “dava pra segurar”. Dava o cacete, mas o fato é que Josias, além de meio pau-mandado, tinha pouca paciência. Um dia ficou puto, botou todos os móveis e utensílios da cozinha no prego e deu entrada na merda da geladeira.

Como mulher satisfeita só existe em filme, assim que chegaram na casa nova, com a cozinha virando o “quarto de bebê da geladeira”, Fátima desatou a reclamar. Precisava de fogão, armário, gaveteiro e a puta que pariu. De novo, a história do orçamento não funcionou e dá-lhe Josias nas Casas André Luiz, procurar de segunda-mão o que havia botado no prego de primeira.

Gastou uns 500 contos, mas conseguiu quase tudo o que queria. Descolou um carreto, enfiou tudo na caçamba e foi para casa descarregar. Como além de pau-mandado e sem paciência Josias também não tinha muitos neurônios, resolveu amarrar as tralhas com um cabo de aço.

Chegando em casa, começaram ele e o cara do carreto a descer tudo. Quando chegou no fogão, que ia amarrado com o cabo de aço, o sujeito do carreto deixou escorregar e cair no chão. O problema seria só o fogão, se o idiota do Josias não estivesse com o cabo atado ao pulso. O peso do fogão desabando fez o cabo correr em seu pulso, e o sangue jorrou para todo lado.

O coitado foi para o Hospital das Clínicas, onde teve de amputar a mão direita. Ficou só o toquinho. Chegou em casa no dia seguinte, todo fodido, sem dormir, com a mão amputada e uma sede do cacete. Foi para a cozinha, pegou um copo e foi em direção à geladeira. Pôs o copo em cima da pia e abriu a porta – praguejou quando viu que não conseguiria manusear a garrafa para encher o copo – e foi aí que lembrou da merda do dispenser. Pressionou o copo contra a alavanca e o encheu de água gelada.

Quando dava os primeiros goles, Fátima entrou na cozinha. Olhou para o marido e limitou-se a comentar: “eu não disse que precisávamos dessa geladeira”. Josias passou o resto do dia descendo bordoada na mulher, com o toquinho mesmo.

Mande sua sugestão para o novo tema do “Desafio do Literato”. Mande um objeto, móvel, figura, qualquer coisa o mais detalhadamente e com mais descrição quanto possível e leia o próximo conto. Sugestões para lipsworld@hotmail.com

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Sacanagem. Mudaram o Cavalcante de Distrito. Agora o coitado trabalha pras bandas do Guarapiranga, na 102ª DP. Nada mais do glamour do Centro e de seus passeios pelas ruas bucólicas da Sé, República e imediações.

Marçal saiu ganhando – ficou para trás. Cavalcante teria de achar outro parceiro para suas rondas. Contudo, já viera parar ali com certa fama, e assim, mais um vez, o troço foi decidido na base do bolão. No final, o bolão não valeu nada, puseram com ele o investigador Tonhão, aquele mesmo, que tinha fodido uma viatura na parede de um puteiro da Avenida Santo Amaro e deixou no prego. O delegado aliviou o conserto do carro, mas agora, que precisava de um “favorzinho”, Tonhão rodou gostoso.

Primeiro dia de batente de Cavalcante – calça social, camisa de linho, terno no ombro e sapato brilhando. Os outros investigadores já botaram a mão na cabeça, “esse vai dar trabalho”. Chamou o Tonhão, pois já o haviam comunicado sobre a parceria. Para facilitar, o delegado deu a Cavalcante um turno vespertino. Ladrão que é ladrão rouba ou na ida, de manhã, ou na volta da “correria”, de noite. São poucas as ocorrências na parte da tarde, tirando alguns furtos e uns poucos roubos.

Tonhão aliviou, tentou ser simpático e puxou assunto sobre o trabalho de Cavalcante no Centro. Cavalcante contou várias histórias – uma mais trivial que a outra. Tonhão, repetindo o antigo parceiro Marçal, calou a boca e acendeu um cigarro.

Foi uma tarde tranquila. Uma tentativa de furto e rapidamente o meliante foi pego por Tonhão, que chamou a PM para efetuar o transporte do detido. Tonhão era policial dos bons, malandro, mas destemido. Não deixava barato, mas fazia o trabalho.

Voltaram à delegacia, cumprimentaram o delegado e foram cada um para sua casa. Cavalcante chegou feliz em casa… talvez os ares tranquilos da periferia fizessem bem a ele. Já não era novo e tinha que cuidar da saúde.

De manhã, recebe uma ligação do delegado. Roubo, mão armada, três elementos, levaram um carregamento inteiro das Casas Bahia, com carreta e tudo. O motorista não sabia mais do que isso. O delegado disse a Cavalcante que ele e Tonhão tinham que “achar” o caminhão.

Cavalcante desligou. Era uma difícil missão – “achar” o caminhão. Mas era seu trabalho e o faria da melhor maneira possível. Botou o terno e foi para o distrito encontrar com Tonhão.

Chegando ao distrito, a surpresa. Já haviam localizado o caminhão. Como a polícia hoje é aparelhada e competente, pensou logo o Cavalcante. O delegado deixou a recuperação na incumbência dos dois.

Quando chegaram ao caminhão, abandonado perto de uma padaria na Vila Natal, verificaram que faltava cerca de metade da carga. Cavalcante achou estranho, mas Tonhão logo explicou: “eles levam o que podem no braço até chegarmos, normal”.

Pois bem. Junto com a PM, levaram de volta o caminhão. No dia seguinte, ao chegar na delegacia, Cavalcante encontrou alguma algazarra, enquanto policiais saíam com caixas nas mãos. O delegado estava distribuindo as caixas. Sem graça, Cavalcante se aproximou e o delegado lançou: “aí, Cavalcante, aparelhos de DVD, pega um para ti, rapaz”.

Cavalcante, sem jeito e com expressão de agradecido, logo respondeu: “desculpe, seu delegado, mas não posso aceitar o presente. Comecei só faz dois dias e além disso, sabe como é, sou das antigas e só com meu videocassete já tropeço que é uma beleza”. Correu para a ronda, imaginando como eram desprendidos os delegados de hoje.