Felício era um pintor de primeira, não apenas um pedreiro com “nome bonito”, mas entendia da coisa de verdade. Dominava técnicas de pintura e mistura de tintas, diferentes acabamentos e fazia milagres com as cagadas que seus colegas de obra deixavam para a fase de entrega do imóvel.

Era minimamente estudado e muitos perguntavam porque não fazia uma universidade, ou ia “buscar algo melhor”. A resposta era sempre um franzido de testa – dizia que estava bem como pintor, e que não queria ser só mais um formado implorando emprego por aí. Com a economia aquecida, não faltava serviço para Felício e o homem tirava uma bela grana. Organizado, limpo e competente – todo empreiteiro queria um funcionário assim.

Um dia, passando pelo boteco do Calixto, a duas quadras de seu humilde sobrado no Cangaíba, viu uma menina de saia, que discutia com um dos pinguços locais. Não teve dúvida: entrou gritando, meteu a mão no peito do bêbado e empurrou, enxotando o pudim de pinga. Perguntou à menina se queria companhia até em casa, e ela anuiu. Marina também morava a poucas quadras dali.

Quase todo dia os dois se visitavam. Marina ajudava uma costureira do bairro e, invariavelmente, estava pelas redondezas. Felício começou a acelerar o serviço para ter com a menina mais cedo todos os dias e acompanhá-la até em casa.

Os anos se passaram. Pegação, namoro, caso, noivado… até que um dia Felício tomou coragem, pediu a mão da menina e marcaram data para o casório. Faltando seis meses para a cerimônia, os dois já moravam juntos, e Marina começou a ter irritações e brotoejas por todo o corpo. “É a tinta… alergia”, diagnosticou a costureira com quem a garota trabalhava.

Felício, que já era limpo, passou a ser neurótico. Saía da obra e lavava o corpo com tinner até tirar a última molécula de tinta do corpo. Sempre sobrava um pouco, e Marina tornava a pipocar. Alguns meses se passaram, médicos, conselhos, mas ninguém achava jeito de parar a alergia.

Acabaram se separando, os dois. Em meio a muito choro e tristeza, chegaram juntos à conclusão de que não daria certo. Cada um seguiu para seu canto e o tempo passou.

Dois anos depois, Felício soube que Marina havia casado – com um pintor. O rapaz quase se matou, mas a curiosidade era maior que a depressão, e resolveu investigar. Foi ter com a costureira, que já não empregava mais Marina.

A costureira contou que Marina conhecera Adriano – às vezes pedreiro, às vezes pintor, um desses “faz-tudo”. Na verdade não tinha a mão muito boa, era relaxado e só conseguia serviço por intermédio de colegas e gatos de obra. Chegava todos os dias sujo de tinta, cal, cimento e o que mais houvesse na obra.

Felício falou à costureira a respeito da alergia, aliás, diagnosticada por ela. A velhota riu-se e limitou-se a sentenciar: “que alergia a tinta que nada – era o tinner. Aprende isso, meu filho, mulher gosta mesmo é de homem sujo”. Marina ainda mora no bairro. Quando se aproxima do boteco do Calixto, a rapaziada faz as apostas: de que cor a menina vai vir suja hoje?

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Desde criança, Osmar era um baita jogador de xadrez. Enquanto a molecada se divertia no futebol, taco e andando de bicicleta, Osmar rapelava a velharada na praça do bairro onde morava. Era um prodígio. Na escola, claro que se deu muito bem em matemática. Acabou se formando na área e, como não queria dar aulas, começou a ganhar a vida vencendo torneios de xadrez.

Ganhava uma boa grana… mas nada de especial. Morava num bairro bacana… mas nada de especial. E pegava uma mulher ou outra… mas nada de especial. Tímido, retraído e sem jeito com o sexo oposto, Osmar só se envolvia com intelectuais. E para quem pensa que ser nerd é ter pau pequeno, Osmar tinha um cacete de 24 cm. Muitas das mulheres com quem se envolvia acabavam pulando fora por dois motivos: Osmar só falava em xadrez; e tinha um pau de cavalo, além de foder como um. Sempre assim; se preparava, montava, dava umas cavalgadas e gozava. A merda é que além de pintudo o filho da puta era sem jeito e a mulherada saída da foda doída que era uma beleza.

Mas um belo dia, Osmar esbarrou com Vanessa. Saíram algumas vezes e, embora a garota gostasse de uma tromba, não esperava que fosse daquele tamanho. Contudo, os dois pareciam ter sido feitos um para o outro. Osmar tinha uma piça enorme, mas Vanessa aguentava firme, sem reclamar. Contudo, sempre o avisava: “Osmar, no cu jamais”.

O tempo foi passando. Um belo dia, enquanto transavam no quarto de Osmar, o rapaz assistia, aficcionado que era, a uma partida do mestre Kasparov. Com metade da atenção na foda e metade na TV, Osmar mal percebera que Vanessa estava quase chegando a um orgasmo.

Atônito e hipnotizado pelos lances da partida, Osmar começou a torcer, em voz alta. “Joga o bispo, o bispo, na casa 3”; “não avança, empurra na lateral”; “não faça isso com o cavalo”, e por aí foi. Vanessa, que como eu já dizia, estava quase tendo um orgasmo, começou a se irritar – ela gozando sem parar e o mané colado na TV, narrando partida de xadrez.

Osmar percebeu a inquietude da menina, mas seguiu fazendo observações sobre os lances, tentando prestar mais atenção em Vanessa, de quando e quando. A garota já estava perto de seu limite, quando Osmar lançou a pergunta, com um olho na TV e outro na menina: “e a torre?”

Vanessa não se aguentou e gritou de maneira estridente – “ENFIA NO CU!!!”. Os dois passaram a noite no pronto-socorro, antes de parar de se ver.

Agenor era um homem de sorte… e azar. Embora perdesse o pai e a mãe num acidente de automóvel, faleceu na mesma ocasião seu único tio, sem filhos e proprietário de diversos imóveis na região da Paulista. Do dia para a noite, Agenor era órfão, mas um órfão com renda praticamente eterna garantida.

Passados cinco anos, era um bem-sucedido senhorio na região dos Jardins e Bela Vista. Já contava com 26 apartamentos, todos alugados, que lhe proporcionavam uma renda de uns 20 paus por mês, já pagos impostos e tudo mais.

Embora muitos dos imóveis tivessem uma rotatividade alta, alugados por estudantes e universitários, alguns deles já possuíam inquilinos de longa data. Um deles inquilino de seu falecido pai. Esteves, sua esposa e a filha, moravam em um dos apartamentos hoje administrados por Agenor havia mais de quinze anos.

De qualquer modo, dali três meses o contrato venceria, de modo que Agenor resolveu contactar o Esteves e marcar um dia para conversar. Queria conhecer o mais velho de seus inquilinos. Qual não foi a surpresa quando o Esteves chamou de “amigo”, disse ter conhecido seu pai e o convidou para jantar um dia, por sua conta.

Chegando na casa do Esteves, Agenor recebeu o recado para descer até a garagem. Ali Esteves esperava e disse a Agenor que colocasse o carro em uma vaga tal, ao lado de outros três veículos – todos novos e luxuosos. “Quatro vagas na garagem – esse homem tem dinheiro”, pensou logo Agenor, fazendo tilintar os cifrões em sua mente.

Agenor subiu ao apartamento. Ali foi apresentado a Márcia – esposa de Esteves – e Glorinha. Que filha maravilhosa tinha o Esteves: loira, de uns vinte e cinco, bunda carnuda, seios obviamente com silicone (Deus não dava aquilo a ninguém) e olhos amendoados de uma cor jamais repetida na humanidade. Agenor já estava “mais alegre”.

A casa tinha de tudo – TV a cabo com infinitos canais, ofurô, toda reformada e pintada (parecia serviço feito ontem). Não parecia haver nada o que faltasse a Esteves. Homem abastado, de sorte. Sei lá que porra fazia para viver, mas com certeza tinha grana.

Jantaram – sobremesa, aperitivo e café. Já na hora de ir, Esteves puxa o Agenor: “olha, rapaz, minha filha gostou de você. Acho que vai te ligar. Eu conheci teu pai e sei que você é homem direito. Tem minha aprovação”. E dizendo isso, despediu-se do rapaz e fechou a porta.

Dito e feito – passados dois dias, Glorinha ligou. Marcaram e saíram na quinta-feira. Durante meses, repetiram. Todas as quintas saíam, jantavam, iam a bares, transavam… até que Agenor começou a querer algo mais sério. A moça desconversava.

Um dia, numa conversa, Glorinha se abriu. “Não posso, Agenor, tenho que me formar, fazer uma pós e ajudar meus pais”, dizia. Agenor, indignado, começou a ralhar com ela… o pai era cheio da grana, tinha de tudo, que cuidar porra nenhuma.

Glorinha, então, pôs-se a explicar. Disse que Esteves vivia de aparência. Há alguns anos havia recebido uma herança e também vivia de renda – mas queimara boa parte da grana e hoje vivia apenas para pagar as dívidas que havia feito: carros, reformas no apê, eletrônicos e tudo mais.

Tendo isso em vista, Agenor tomou uma decisão. Não mais cobraria o aluguel do Esteves e pediria a mão de sua filha. Juntaram, sem casar de papel passado, e passaram juntos um ano inteiro. No décimo-terceiro mês, Glorinha surtou. Não aguentava mais viver com Agenor, queria largá-lo e voltar para a casa dos pais. E foi.

Agenor ficou arrasado e puto. No dia 30 do mês seguinte, já sem contato nenhum com Glorinha, mandou entregar o boleto do aluguel para o Esteves – a primeira cobrança após 13 meses.

No dia seguinte, ainda cedinho, recebe uma ligação. Era o Esteves. Ameaçava processá-lo junto com a filha, por união estável, e pedir pensão. Gritaram os dois ao telefone por meia hora e firmaram então um acordo de cavalheiros – sem aluguel e sem pedido de pensão. Feito.

O tempo foi-se e mais um ano se passou, até que um dia, Agenor encontrou Glorinha no shopping, junto com um outro sujeito. O cara foi ao banheiro e Agenor, indignado, foi em direção a Glorinha. “E aí, outro otário para enganar. Você não presta menina, não fiz nada de errado contigo, você nunca me amou”.

Calma e plácida, Glorinha disse: “eu te avisei, Agenor, que tinha que cuidar dos meus pais. Você não ouviu. Tinha que querer lance sério. Eu tenho que ajudar meus pais”.

“Como assim ajudar seus pais. Não teve nada a ver. Você me largou sem aviso nem nada e um mês depois, teu pai me ameaça com processo de união estável. E esse sujeito aí, quem é afinal”?

Sem titubear, Glorinha respondeu: “arquiteto, meu pai está reformando de novo o apê”. Virou de costas e saiu andando.

Clodoaldo era cabeleireiro. Isso. Cabeleireiro e não barbeiro. Desde pequeno tinha jeito para arrumar o cabelo da irmã, da mãe, das tias, vizinhas e todas as mulheres do bairro. Manjava tudo a respeito de cortes, tratamentos, produtos e as demais parafernálias que as mulheres fazem na cabeça. Tinha tudo para ser viado, mas não era.

Fabiane era tímida, sempre chorosa e tinha aversão a salões de beleza. Não via graça em ficar horas se empetecando e sempre deixava o cabelo crescer demais, para não enfrentar os cabeleireiros afetados das amigas, ou as cabeleireiras de salão, que mais falavam do que faziam o serviço.

Um dia, depois de muita insistência de um grupo de amigas, concordou em ir ao salão. Seu cabelo realmente estava um trapo e gritava por um corte. Chegando ao salão, Fabiane se surpreendeu com a beleza do cabeleireiro, mas logo pensou, consigo mesma: “que desperdício! Tão bonito e é bicha!”

O rapaz, Clodoaldo, começou lavando os cabelos da moça – Fabiane se surpreendeu com a firmeza das mãos. “Até parece macho esse aí”, pensou, com um riso no rosto. “Clô”, como era conhecido, secou o cabelo da garota e a colocou na cadeira. Seu corte era preciso e o rapaz não conversava muito – pelo contrário, parecia concentrado e não demonstrou qualquer tipo de trejeito ou afetação.

O corte ficou divino. Clô era um artista e Fabiane saiu do salão com um brilho que nunca havia estado ali. Tomou gosto pela coisa e passou a voltar mensalmente no salão de Clodoaldo. Lá pela sua terceira ou quarta visita, teve uma surpresa quando estava indo embora. Clô a puxou pelo braço e lhe lascou beijo, sem falar nada. Em seguida pegou um papel e um lápis, anotou seu telefone e deu para a moça. “Me liga”, disse ele, curto e grosso.

Fabiane ligou. Foram ao cinema, jantaram e transaram. Assim como no salão, Clô era um artista na cama. Sem pudores, com a “pegada” e viril, o rapaz deixou Fabiane completamente fora de controle. Após dois meses de sexo de tudo quanto é jeito, começaram a namorar. Fabiane não apenas encontrara o melhor cabeleireiro de sua vida, mas também a foda do século!

A história provavelmente terminaria por aqui. Terminaria, não fossem as amigas, parentes, conhecidos e até companheiros de trabalho de Fabiane. “Namorar cabeleireiro? Onde já se viu essa porra?”, gritava o pai. “Ele pode te fazer feliz, filha, mas é estranho…”, completava a mãe.

Conversou, chorosa como sempre, com Clô. O rapaz era macho, ela sabia, mas não aguentava a pressão. Foi então que Clodoaldo teve a idéia – estava disposto a tudo para viver seu amor com Fabiane. Clodoaldo tinha um amigo engenheiro – bem aprumado, respeitável, cara de homem, mas uma moça por dentro. João era bicha, e também amigo de infância de Clô.

Clodoaldo “terminaria” com Fabiane, que iniciaria um romance com João. Mas este, o amigo bicha, acorbetaria os encontros dos dois. Tudo estava arranjado e a notícia espalhou. “Até que enfim a Fabiane se mancou – agora está com um engenheiro”, diziam pelas ruas.

Três meses se passaram e o plano de Clô ia funcionando bem, até que o pai de Fabiane resolveu convidar João para um jantar de família. Clô tergiversou, mas acabou anuindo. João e Fabiane apareceram na casa dos pais da menina por volta das oito de uma sexta-feira. A mãe da garota não continha a emoção e deu um abraço em João quando este entrou na casa.

Tudo corria às mil maravilhas – João falava imponente de suas conquistas profissionais e Fabiane ria de felicidade, com a primorosa atuação do amigo. Tudo terminaria bem, não fosse uma reles barata. João assustou com a bichinha e soltou o que um estivador ou um caminhoneiro chamariam, tecnicamente, de “gritinho”. Para completar, o rapaz saltou da cadeira e parou ao lado da mesa com pose digna de O Lago dos Cisnes.

O desespero tomou conta da família, que agora discutia em brados o ocorrido. João pediu desculpas a Fabiane, mas a farsa havia sido despedaçada. Não havia mais o que fazer. Em um ato de confissão, Fabiane admitiu aos pais que João era homossexual.

O pai da menina botou a mão na testa, suspirou, deu um gole de 200ml no vinho, levantou a taça e anunciou um brinde. Todos levantaram os copos, sem ter a menor idéia do que aquilo queria dizer. Então, o velho mandou o discurso: “entendo, minha filha. Sua felicidade para mim, como sempre, é o que mais importa. Nada no mundo é perfeito, mas convenhamos: antes viado do que cabeleireiro”. Todos bateram copos e Fabiane foi para o quarto, aos prantos.

Jaqueline não era uma atendente das mais honestas. Arranjava remédios para as amigas sem receita e costuma dar em cima de farmacêuticos novos. Duas ou três vezes chegou até mesmo a filar alguns remédios para festinhas com amigos. No auge de seus 23 anos, era uma garota farrista como qualquer outra. Nada de excepcional.

Humberto pagava um pau em menininhas meio metidas a junkie – seu tipo era magra, branquela, vestida de preto e com cara de depressão. “Mulher pra mim tem que ter cara de doente”, dizia sempre aos amigos, quando saía de galera.

Apesar de brutamontes, usava roupas transadas, gostava de montar modelos e inventar estilos – os amigos tiravam um puta barato, mas Humberto estava pouco se fodendo. Levava a vida à base de remédios tarja vermelha (preta é caso sério) e cocotas com cara de doente terminal.

Acabou ingressando na faculdade de farmácia. Ia bem nas disciplinas, afinal conhecia mais remédios do que metade dos professores – já tinha tomado quase todos eles. Aos três anos da faculdade, começou a trabalhar – coincidentemente na mesma farmácia onde Jaqueline era balconista.

Jaqueline era tudo o que Humberto mais adorava – branca, pálida, magra, loira e com cara de doente. Além disso, trabalhava no mesmo lugar e adorava tomar remédios para dar barato. A coisa foi rolando e, mesmo porque ambos voltavam sempre de madrugada para casa, passaram os dois a morar na república de Humberto.

Os meses foram passando o Jaqueline parecendo cada vez mais doente – e Humberto, cada vez mais apaixonado. A moça já não enchia a cara de remédios e sempre perguntava ao namorado o que é que ela tinha, o que podia tomar. Humberto encarava como farra – julgava que a namorada queria era tirar onda e acabava receitando algo que dava barato para a companheira.

Jaqueline continuava cada vez mais aflita com sua saúde, mas Humberto dizia sempre que não era nada, passava um remedinho “segura-onda” qualquer e bola pra frente.

Um dia Humberto chega e a menina sumiu. Seus colegas nem a viram, nenhuma das amigas da moça sabe de nada e mesmo no trabalho, nem sinal de Jaqueline. Passam-se dois meses, até que os dois se encontram em um shopping.

Jaqueline, de mãos dadas com outro homem, vem ao encontro de Humberto e o cumprimenta. O rapaz, indignado, solta meia-dúzia de palavrões até se acalmar. Jaqueline espera-o terminar e começa a explicar o sumiço. A moça de doente já não tinha mais nada – estava até mesmo bronzeada.

“Humberto, se você quer morar numa casa decente, chama um arquiteto ou engenheiro, não um corretor de imóveis. Por outro lado, se você quer sempre sua saúde em dia, dê para um médico e não para um bosta de um farmacêutico”, concluiu a garota. Só então Humberto pôde enxergar o estetoscópio no pescoço do homem que acompanhava Jaqueline, ali, logo abaixo daquele sorrisinho jocoso.

Toda mulher já teve fantasias sexuais das mais diversas com cantores. Quantas mulheres já tiveram alguma fantasia com um barítono? Possivelmente seria bem mais indicado do que recorrer a um castrato, mas ainda assim é um pouco difícil de se imaginar.

Geovanna não pensava assim. Tinha paixão pelas vozes potentes de cantores velhos presentes em discos de sua mãe e considerava charmosos homens cantando música clássica. Apesar de achincalhada pelas amigas, que iam a bares e baladas enquanto Geovanna ia a ensaios de ópera, ao fazer 23 anos conheceu Pedro, um dos barítonos da ópera amadora do municipal.

Pedro era bastante arrogante, mas após muita insistência de Geovanna, concordou em ir com a menina a um bar. A coisa deu certo e ambos começaram a sair com maior frequência.

Só um problema – Geovanna era fumante e sim, gostava de um goró. Aos poucos Pedro se acostumou aos vícios da mulher, mas não os aprovava para si, isso era bem verdade – sua voz era seu ganha-pão.

Com o tempo as amigas deram o braço a torcer – até que era charmoso um homem com um vozeirão daqueles. Só havia um problema: todos sabemos que músicos no Brasil ganham um salário de merda, e Pedro não era uma das exceções.

Veja bem, uma mulher pode gostar de um cara – gostar mesmo, sem falsidade. Mas quando a grana rareia e o sexo já não é lá coisa de filme, vai tudo para o vinagre. A relação de Pedro e Geovanna foi caindo na rotina.

Um dia, pra mudar de ares, Pedro resolveu levar Geovanna num show de rock, até por insistência das amigas das meninas. A moça não queria ir, dizia que tinha ouvido apurado e o escambau e que rock era coisa para tiete.

Mas foi. Pedro não era apenas músico – era também azarado pra cacete. Assim que Geovanna adentrou o Café Piu-Piu, ficou maravilhada com o vocalista da banda que estava se apresentando. A bandinha não tinha nada de especial, mas fazia uma musiquinha boa.

Mesmo com a cara feia de Pedro, Geovanna pegou o contato da banda ao final do show. Manteve dois meses de relacionamento com a banda, ao mesmo tempo em que o namoro com Pedro ia ficando distante. A banda foi ganhando algum nome.

Um dia jogou tudo pro alto. Disse a Pedro que não sentia mais “aquilo” do início e tals; as desculpas de sempre. Semanas depois, Pedro soube que Geovanna estava saindo com o tal vocalista. Foi um escarcéu.

Pedro foi até a casa de Geovanna e fez escândalo, acusava-a de traí-lo. Ela foi sucinta e o dispensou. A vida é dura. Afinal, o roqueiro tinha uma voz de bosta, bebia e fumava, mas podia levar Geovanna toda a semana no Municipal – mas sem ter que cantar por merreca na companhia de ópera.

Marília morava ao lado do quartel da Vila Mariana. Desde pequena, sempre gostava de ficar horas no quintal de casa, observando os soldados e oficiais que iam e vinham fardados. Era fascinada por uniformes – já tivera namoros com bombeiros, policiais, motoristas de ônibus e até um atendente da TAM. Mas nenhum uniforme superava uma farda militar. Infelizmente, ainda que tivesse fixação na coisa, jamais havia tido a oportunidade de se relacionar com um milico.

Um dia, quando descia a rua para ir à padaria, prestando atenção na lista de comprar que sua mãe havia preparado, esbarrou em um rapaz de farda. Ao abaixar para recolher suas coisas, bateu o olho na farda e entendida que era, logo disse “desculpe, tenente”. O rapaz achou admirável que uma mulher, apenas de relance, pudesse reconhecer uma patente militar. Disse que não era nada e a convidou para um café na padoca.

A conversa foi boa e marcaram de sair. Em poucos meses estavam saindo quatro ou cinco vezes por semana. A mãe gostava do rapaz e pressionou Marília, e os dois acabaram casando. A menina acompanhava o marido – Gerson – para todo canto. Porém, aos finais de semana sempre arranjava algum compromisso religioso, de família ou algo beneficente.

Passado um ano, Gerson foi promovido a capitão, em mais cinco meses era major, e quatro anos depois, alçou um posto de coronel. A farda ia mudando e a felicidade de Marília, aumentando.

Todos estavam estupefactos com a carreira e evolução meteórica de Gerson, embora ninguém soubesse exatamente dizer porque ocorrera. O fato é que, uma vez coronel, Gerson não mais teve promoções de patente.

Quase dez anos se passaram e nada de aparecer uma chance para que se tornasse general. O general Laerte era quem mandava e desmandava na Vila Mariana e foi aquele responsável por todas as promoções de Gerson. Estranhamento, os dois nunca tinham se falado mais do que um minuto.

Mais algum tempo se passou e, aos 67 anos, o general Laerte faleceu. Mesmo postumamente, logrou a derradeira promoção para Gerson. Em uma carta, Laerte deixara uma recomendação de Gerson para assumir seu posto. O rapaz, agora um homem de 48 anos, foi convertido em general.

Após duas semanas ocupando a cadeira, recebeu uma carta. Era de Laerte. Abriu curioso o conteúdo da missiva e terminando, ligou para a mulher e imediatamente depois para seu advogado, pedindo para que procedesse o divórcio.

O conteúdo? Era este: “Caro Gerson, no exército existem duas formas de se alcançar tão rapidamente uma promoção – ou pela guerra ou pelo sexo. O Brasil é um país sem guerras. Quanto ao sexo… sua esposa possui fascínio por fardas e uniformes, mas digamos que ela gosta mesmo é de três estrelas no ombro. Boa sorte com a nova patente. Assinado: Laerte”.

Erick passou cinco anos estudando para o Instituto Rio Branco. Passou. O rapaz era inteligentíssimo e formou-se diplomata nos quatro anos propostos. Falava inglês e espanhol quando entrou, ao sair somou o francês, o russo e o mandarim a seu vocabulário. Aos 32 já havia viajado a metade dos países do globo, mas uma coisa ainda não tinha encontrado: o amor de sua vida.

Um belo dia, enquanto chegava com o carro oficial no prédio do Ministério das Relações Exteriores, deu de cara com uma passeata, ou protesto, ou o nome que se queira dar. Algumas dezenas de manifestantes reclamavam da postura pouco solidária dos diplomatas brasileiros em relação a países pobres. “Que povinho bosta”, pensou logo Erick. “Pra quê precisaria um diplomata perder seu tempo em países pobres… foda é negociar com rico, porra”!

Mas com uma coisa não contava. Ao chegar na porta do ministério, viu de canto de olho uma das meninas que estavam na multidão. Foi instantâneo, se apaixonou. Saiu correndo do carro e foi em direção ao tumulto, e disse que levaria um dos membros da manifestação para conversar. Obviamente escolheu a menina que fixara segundos antes.

Telma era o nome. Erick ficou maravilhado, embora tenha ouvido a palavra “burguês” e o vocábulo “neoliberal” dezenas de vezes. Ouviu atenciosamente e quando a menina tinha terminado, mostrou suas anotações e disse que encaminharia diretamente ao ministro o quanto antes.

A menina deu-se por satisfeita e, quando saía da sala, Erick a puxou pelo braço. “Quer sair comigo”? A donzela, atônita, demorou alguns segundo para responder. Ainda que tenha se esforçado, Telma só conseguiu proferir um “tudo bem”. Trocaram telefones.

Erick foi bastante esperto, levando a moça para jantar em um restaurantezinho bastante popular na cidade-satélite de Gama. A garota ficou impressionada que um diplomata pudesse ser tão “do povo”.

Saíram mais algumas vezes e começaram a namorar. Enquanto Telma passava a Erick suas doutrinas de responsabilidade social, ambiental e socialismo, Erick lhe ensinava política, línguas, economia e legislação internacional.

Juntaram trapos dois anos depois e viveram felizes por algum tempo. Até que Telma, já formada em Relações Internacionais, recebeu uma proposta de um instituto norte-americano. Erick a apoiou, dizendo que aceitasse a oportunidade.

Seis meses se passaram sem que Telma voltasse. As notícias rareavam e Erick entrou em depressão. Largou o ministério e decidiu seguir o legado da companheira – meteu-se em todo tipo de ativismo internacional, até que chegou à Anistia Internacional.

Alguns meses de militância depois, foi enviado aos Estados Unidos. Já eram cinco meses sem notícias de Telma. Chegando lá, descobriu que participaria de uma manifestação contra o tratamento dado a imigrantes ilegais mexicanos nos EUA. Em frente a um prédio da Imigração em Washington, ele juntou-se à turba. Em alguns minutos avistou uma limusine chegando e companheiros disseram que os adidos dos EUA para relações com o México estavam todos no carro.

O carro parou e quatro pessoas desceram. De relance, Erick pôde ver, completamente embasbacado, que Telma era uma dessas pessoas. Atropelou meia manifestação para chegar à frente da turba, no raio de visão de Telma.

Quando encontraram olhos, Erick fitou-a emocionado, quase chorando, mas Telma, embora tenha reconhecido, pareceu não despender qualquer expressão. Erick esperou que ela o chamasse, como ele havia feito anos atrás.

Telma segurou um de seus colegas pelo braço e disse algo, em seguida caminhou em direção à multidão. Erick já quase estendia seus braços… mas súbito, Telma parou em frente a um dos policiais que comandava a operação de contenção do movimento. Disse duas ou três palavras ao policial, virou-se e voltou em direção ao prédio da Imigração.

A polícia avançou e reprimiu duramente os manifestantes. Erick voltou ao Brasil mais deprimido do que nunca. Já em casa, deparou com uma única carta na caixa de correio – tinha o selo do governo norte-americano.

Abriu e leu. Em poucas palavras, numa carta que mais parecia um telegrama, Telma pedia desculpas sinceras pelo ocorrido, e dizia que tinha tido o mesmo impulso que Erick tivera anos antes, no entanto, em seu posto, jamais incorreria em tamanha falta de profissionalismo.

Graziela estava de saco cheio da universidade. Não gostava tanto assim de Sociologia e, agora que estava prestes a se formar, começava a se preocupar com a profissão. Que rumos pode tomar um sociólogo, além de dar aulas. Não tinha perspectivas e faltava muito pouco para que mandasse tudo à merda.

Faltava um mês para a formatura e conheceu Roberto, um mirrado professor de história que, apesar de delgado e franzino, era bastante bonito. Um dia resolveu usar seu trabalho de conclusão sobre a Diáspora para aproximar-se dele.

Muito sério, Roberto manteve a compostura, sugeriu uma bibliografia extensa e deu seu telefone, caso Graziela “precisasse de ajuda”. Graziela não precisava de tanta ajuda assim, mas até que precisava de um homem.

As amigas encheram o saco, pois o cara era mesmo mirrado, mas ela acabou ligando assim mesmo. Disse querer ouvir as “teorias” de Roberto sobre a diáspora judaica. Marcaram um encontro… um café.

Assim que ambos chegaram, trocaram uns 15 minutos de papo sobre a história de judeus e hebreus, mas logo Graziela perdeu a paciência e lançou um “professor nunca beija na boca”? O resultado… sim, transaram naquela noite.

O namoro acabou vindo como consequência. As amigas não podiam acreditar, mas Graziela não estava brincando – além de inteligente, Roberto transava bem, muito bem por sinal. Bem, isso acabou sendo motivo mais do que suficiente para o posterior casamento.

Além disso, Graziela terminara a dissertação de mestrado – claro que Roberto ajudou, e como ajudou. Mas Graziela era uma mulher inteligente. Só que com o tempo e a proximidade das profissões, tornou-se inevitável espelhar sua carreira no conhecimento histórico de Roberto.

Mas assim que concluiu suas titulações, Graziela começou a sentir-se desconfortável. Roberto era Império Otomano no café, Khublai Khan no almoço e Normandos no jantar. Papos dos mais triviais como “vou ao supermercado comprar leite, quer alguma coisa” evocavam passagens históricas das mais desconhecidas em Roberto.

A relação foi ficando monótona e logo Graziela tinha um punhado de amantes. Gilberto era um árabe, cuja família tinha ajudado a fundar o emirado de Abu Dhabi. Márcio era um argentino que havia perdido o pai nas Ilhas Malvinas, hoje Falkland. Arnaldo tinha parentes cubanos – moravam perto da Baía dos Porcos, lugar onde os norte-americanos fracassaram numa tentativa de invasão.

Demorou a se tocar – procurava homens com histórias interessantes. Conclusão: continuava precisando de um homem (ou vários), mas havia tomado gosto por História. Alguns meses depois largou Roberto.

Graziela foi morar nos Estados Unidos e tardou a voltar. Semana passada encontrou com as amigas. Escreveu um livro de história contemporânea, com passagens narradas por todos os seus ex-amantes. Nem a fundação do Sultanato de Brunei escapou a seu apetite sexual. Vendeu mais de 80 mil cópias – Graziela era uma celebridade entre mulheres comuns, mas também entre estudiosos.

Mas ainda precisava fazer algo. Estava de volta ao Brasil por esse motivo. Passou no casebre onde atualmente morava Roberto e enfiou um envelope por debaixo da porta. Quando Roberto chegou em casa, viu o envelope. Abriu e encontrou apenas duas coisas, sem sequer uma assinatura: 10 mil dólares em dinheiro e um pedaço de papel com os dizeres “muito obrigada”.