A profissão de médico ainda atrai muitos. Seara dos cheiros, imagens e texturas desagradáveis, o corpo humano ainda assim parece oferecer um atrativo para muitos daqueles que buscam respostas em sua graduação. Numa dessas levas, um estudante se destacou mais do que todos os demais – sua sorte, contudo, não foi das melhores e ele acabou como chefe de diagnósticos no PS da Vila Nhocuné, Zona Leste de São Paulo.

Ernesto Vidigal Souza, conhecido pelos colegas como “Ráuze”, é desde o início de sua carreira conhecido pelos controversos diagnósticos e tratamentos que leva a cabo.

Era um sábado como outro qualquer no PS e Ráuze procurava algo para fazer. Com a maioria das enfermeiras novinhas de folga, somente sobrara a visão de duas matronas, técnicas de enfermagem de carreira, tão feias quanto os cortes e hematomas com os quais lidavam diariamente.

Repentinamente, um vulto irrompeu vindo do atendimento e entrou na área do ambulatório, mancando como se tivesse uma perna de pau e com a testa franzida. O rapaz não queria conversas com enfermeiros ou assistentes, queria um médico, e queria agora. Do lado oposto do corredor, Ráuze fez aquela cara enigmática que havia lhe garantido o apelido. Iria ele mesmo atender ao inesperado paciente.

O rapaz, de 1,90m e provavelmente mais de 100 kg, fazia o ambulatório parecer um lavabo. Ráuze se encolheu por detrás dos suportes de soro para poder examinar o corpulento paciente. O camarada não perdeu tempo: sentou-se na primeira maca que pôde, arrancou o tênis tamanho 43 e jogou de canto. “Olha, doutor, o tamanho dessa bolha”, exclamou.

Ráuze poucas vezes vira bolas de gude daquele tamanho. Sem dúvida era uma bolha proporcional para o tamanho do pé do sujeito. Na parte exterior do dedão, a bolha era quase um sexto dedo. Ráuze resolver drenar a bichinha – trabalho que durou dez minutos – e após isso lavou e fez um curativo, dispensando o paciente.

Duas semanas depois, o jagunço torna a aparecer, com uma bolha ainda maior que a primeira. Repetindo todo o procedimento, Ráuze tornou a liberar o paciente. As visitas periódicas do sujeito ocorreram mais duas ou três vezes. Até que um belo dia, novamente num sábado, o camarada aparece no PS. Na recepção, dizem que o doutor Ráuze não pode atendê-lo, mas que deixou um bilhete com um recado e um receituário: “Prezado Fulano, no show da próxima sexta-feira, quando for calçar o salto, favor se lembrar que vaselina também serve para usar nos pés”.