Felício era um pintor de primeira, não apenas um pedreiro com “nome bonito”, mas entendia da coisa de verdade. Dominava técnicas de pintura e mistura de tintas, diferentes acabamentos e fazia milagres com as cagadas que seus colegas de obra deixavam para a fase de entrega do imóvel.

Era minimamente estudado e muitos perguntavam porque não fazia uma universidade, ou ia “buscar algo melhor”. A resposta era sempre um franzido de testa – dizia que estava bem como pintor, e que não queria ser só mais um formado implorando emprego por aí. Com a economia aquecida, não faltava serviço para Felício e o homem tirava uma bela grana. Organizado, limpo e competente – todo empreiteiro queria um funcionário assim.

Um dia, passando pelo boteco do Calixto, a duas quadras de seu humilde sobrado no Cangaíba, viu uma menina de saia, que discutia com um dos pinguços locais. Não teve dúvida: entrou gritando, meteu a mão no peito do bêbado e empurrou, enxotando o pudim de pinga. Perguntou à menina se queria companhia até em casa, e ela anuiu. Marina também morava a poucas quadras dali.

Quase todo dia os dois se visitavam. Marina ajudava uma costureira do bairro e, invariavelmente, estava pelas redondezas. Felício começou a acelerar o serviço para ter com a menina mais cedo todos os dias e acompanhá-la até em casa.

Os anos se passaram. Pegação, namoro, caso, noivado… até que um dia Felício tomou coragem, pediu a mão da menina e marcaram data para o casório. Faltando seis meses para a cerimônia, os dois já moravam juntos, e Marina começou a ter irritações e brotoejas por todo o corpo. “É a tinta… alergia”, diagnosticou a costureira com quem a garota trabalhava.

Felício, que já era limpo, passou a ser neurótico. Saía da obra e lavava o corpo com tinner até tirar a última molécula de tinta do corpo. Sempre sobrava um pouco, e Marina tornava a pipocar. Alguns meses se passaram, médicos, conselhos, mas ninguém achava jeito de parar a alergia.

Acabaram se separando, os dois. Em meio a muito choro e tristeza, chegaram juntos à conclusão de que não daria certo. Cada um seguiu para seu canto e o tempo passou.

Dois anos depois, Felício soube que Marina havia casado – com um pintor. O rapaz quase se matou, mas a curiosidade era maior que a depressão, e resolveu investigar. Foi ter com a costureira, que já não empregava mais Marina.

A costureira contou que Marina conhecera Adriano – às vezes pedreiro, às vezes pintor, um desses “faz-tudo”. Na verdade não tinha a mão muito boa, era relaxado e só conseguia serviço por intermédio de colegas e gatos de obra. Chegava todos os dias sujo de tinta, cal, cimento e o que mais houvesse na obra.

Felício falou à costureira a respeito da alergia, aliás, diagnosticada por ela. A velhota riu-se e limitou-se a sentenciar: “que alergia a tinta que nada – era o tinner. Aprende isso, meu filho, mulher gosta mesmo é de homem sujo”. Marina ainda mora no bairro. Quando se aproxima do boteco do Calixto, a rapaziada faz as apostas: de que cor a menina vai vir suja hoje?

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