Desde criança, Osmar era um baita jogador de xadrez. Enquanto a molecada se divertia no futebol, taco e andando de bicicleta, Osmar rapelava a velharada na praça do bairro onde morava. Era um prodígio. Na escola, claro que se deu muito bem em matemática. Acabou se formando na área e, como não queria dar aulas, começou a ganhar a vida vencendo torneios de xadrez.

Ganhava uma boa grana… mas nada de especial. Morava num bairro bacana… mas nada de especial. E pegava uma mulher ou outra… mas nada de especial. Tímido, retraído e sem jeito com o sexo oposto, Osmar só se envolvia com intelectuais. E para quem pensa que ser nerd é ter pau pequeno, Osmar tinha um cacete de 24 cm. Muitas das mulheres com quem se envolvia acabavam pulando fora por dois motivos: Osmar só falava em xadrez; e tinha um pau de cavalo, além de foder como um. Sempre assim; se preparava, montava, dava umas cavalgadas e gozava. A merda é que além de pintudo o filho da puta era sem jeito e a mulherada saída da foda doída que era uma beleza.

Mas um belo dia, Osmar esbarrou com Vanessa. Saíram algumas vezes e, embora a garota gostasse de uma tromba, não esperava que fosse daquele tamanho. Contudo, os dois pareciam ter sido feitos um para o outro. Osmar tinha uma piça enorme, mas Vanessa aguentava firme, sem reclamar. Contudo, sempre o avisava: “Osmar, no cu jamais”.

O tempo foi passando. Um belo dia, enquanto transavam no quarto de Osmar, o rapaz assistia, aficcionado que era, a uma partida do mestre Kasparov. Com metade da atenção na foda e metade na TV, Osmar mal percebera que Vanessa estava quase chegando a um orgasmo.

Atônito e hipnotizado pelos lances da partida, Osmar começou a torcer, em voz alta. “Joga o bispo, o bispo, na casa 3”; “não avança, empurra na lateral”; “não faça isso com o cavalo”, e por aí foi. Vanessa, que como eu já dizia, estava quase tendo um orgasmo, começou a se irritar – ela gozando sem parar e o mané colado na TV, narrando partida de xadrez.

Osmar percebeu a inquietude da menina, mas seguiu fazendo observações sobre os lances, tentando prestar mais atenção em Vanessa, de quando e quando. A garota já estava perto de seu limite, quando Osmar lançou a pergunta, com um olho na TV e outro na menina: “e a torre?”

Vanessa não se aguentou e gritou de maneira estridente – “ENFIA NO CU!!!”. Os dois passaram a noite no pronto-socorro, antes de parar de se ver.

Vítor não era um homem – era um touro. Quase dois metros, cento e vinte quilos, a força de um caminhão Volvo e perito em cinco ou seis artes marciais. Apesar da estatura e porte descomunais, dava-se bem e preferia as mulheres pequenas.

Trabalhava num hotel dos Jardins de dia e numa boate da Augusta na parte da noite. Certo dia, parado em posiçao “Men in Black” na porta do hotel, como era usual, viu passar uma bela morena, a qual o encarou com um sorriso. Apesar de sentir imediata vontade de largar o posto e ir ter com a menina, para passar um xaveco e jogar papo fora, zeloso que era resolveu ali ficar. “Onde se ganha o pão não se come a carne” – pensou, tentando conformar a si mesmo por perder a chance.

Chegando de noite à boate, mal se emprumava à frente do estabelecimento e eis que viu entrar pela porta a tal morena – aquela mesma que vira no hotel, durante o dia. Estava ainda mais bela e radiante do antes, mas o reino das obviedades existia, mesmo para um pobre trabalhador de poucos estudos como Vítor. A morena era puta.

A ele intrigou que ela novamente lhe lançasse o mesmo olhar que havia lançado de dia. Gostou, e mesmo sabendo que isso poderia comprometer seu emprego, decidiu com ela papear após o “expediente”. Cinco da manhã e os dois tomavam um táxi até Interlagos. A morena, Matilde, ficava ali pelos lados da Chácara Flora. Vítor ia descer até o Grajaú.

Quando saltou do carro, Matilde agradeceu a companhia e estendeu algumas notas de dinheiro para Vítor. O rapaz era direito e recusou. Ela insistiu, lhe dizendo que ou aceitava, ou ficava na casa dela hoje. Vítor era pobre e pouco estudado, mas não burro. Pagou o motorista e saltou junto do veículo.

Treparam como loucos – Matilde contou ao homem que havia feito cinco programas na noite, mas nenhum deles “pesado”. Lá pelas oito da manhã, capotaram. Vítor chegou atrasado meia hora ao hotel, mas não houve muito problema.

Repetiram a dose uma dúzia de vezes, até que Matilde lhe confessou estar apaixonada. Queria que vivessem juntos, ali na Chácara Flora, em seu apê. Vítor também estava gamado e adorava a idéia. Mas homem honesto e direito que era, alegou que não a podia sustentar, ainda mais ali naquele bairro. Matilde disse que, pelo menos por um tempo, não largaria o “ofício” – Vítor estava apaixonado demais e acabou cedendo. “Mas só até ajeitarmos as coisas, mulher”, falava.

Mas a vida de segurança não era nada fácil. Vítor não ganhava nem pra ele, quanto mais para dois. Matilde seguia fazendo o trampo na boate e a notícia de que os dois estavam juntos começou a espalhar. Matilde caiu fora e a grana começou a apertar.

Até que Matilde teve a idéia genial – atenderia em casa mesmo, no melhor estilo “privê” moderno – e Vítor lhe faria a segurança, caso algum cliente passasse dos limites. Os anos se passaram e Matilde ampliou a clientela. Das dez da manhã às dez da noite era uma foda atrás da outra, sempre com Vítor na butuca, em qualquer caso.

Cinco anos foram assim, até que Matilde juntou uma grana – mas grana mesmo. O resultado de cinco anos levando pau doze horas ao dia havia sido uma gorda conta bancária, de mais de R$ 10 milhões. Matilde, já com seus trinta e dois anos, já estava perdendo a juventude, embora ainda fosse uma baita de uma morena. Resolveu largar a vida de puta, para se dedicar a seu paciente e amoroso marido, que esteve todo esse tempo ao seu lado, mesmo com a profissão que mantinha.

Dois anos se passaram. Os dois levavam uma vida para lá de confortável, mas a cada dia que passava, Vítor parecia mais deprimido. Havia perdido a vontade e, para quem quer que olhasse, parecia estar à beira da depressão. Matilde desesperava-se, mas não tinha idéia do que fazer. Tudo o que podia fazia para agradar ao marido, mas nada lhe funcionava.

Um dia, no café da manhã, resolveu abrir o coração para o marido. Queria, pelo amor de Deus, que ele ao menos dissesse a ela o que podia fazer, para que visse de novo sua felicidade. Vítor disse a ela que não tinha o direito de lhe pedir o que queria, mas Matilde foi irredutível: “faço qualquer coisa, qualquer coisa mesmo”. Vítor então lhe pediu que ficasse em casa, que sairia e voltaria logo mais. Matilde obedeceu.

Duas horas depois, Vítor retornou. Entrou em casa junto com um outro senhor, de uns cinquenta anos de idade. Matilde olhou fixo sem entender, enquanto o coroa puxava duzentos reais da carteira e entregava a Vítor, que apontou Matilde e o quarto atrás dela. Compreendendo razoavelmente o que se passava, Matilde acompanhou o outro homem até o quarto, deitou na cama, se despiu e começou a chupá-lo. Ainda pôde ver Vítor fechando a porta.

Terminado o “serviço”, o homem virou de lado na cama e começou a cochilar. Matilde levantou com cuidado, nua mesmo, abriu a porta do quarto e seguiu em direção ao quarto ao lado, onde Vítor costumava montar tocaia como “segurança”.

Abriu a porta e viu Vítor – braguilha aberta, pênis para fora… o sêmen na calça e um sorriso feliz e prazeroso no rosto. Ao contemplar a cena – e ver que finalmente havia trazido de volta a felicidade do marido – não sabia se chorava de felicidade ou tristeza. Chorou mesmo sem ter decidido.

O português tem fama de burro, o brasileiro é estatisticamente analfabeto, e Angola e Moçambique falam praticamente zulu com sotaque de dono de padaria. Não era de se espantar que uma reforma linguística na verdade fosse uma mera simplificação do léxico em favor do populacho.

Mais uma ou duas reformas e palavras como “crônico” ou “averiguar” se tornarão praticamente machadianas. Por volta de 2030, 90% da população mundial de fala portuguesa não utilizará hífens, tremas, vírgulas, travessões, acentos circunflexos e consoantes mudas.

A nova reforma, porém não extinguiu a mesóclise, bastião máximo da pedância e desfaçatez na língua portuguesa. Só reside aí um problema – ninguém sabe usar a mesóclise. Para tanto, um programa ‘open-source’ gratuito, podendo ser baixado inclusive no celular, sugeriria automaticamente uma mesóclise todas as vezes em que o usuário incorresse em uma chance de usá-la.

Pesquisas da Universidade de Tóquio, Pensilvânia, comprovam que a partir de 2020, o uso da mesóclise será sexualmente provocante e que muitas mulheres e homens basearão a escolha de seus parceiros na colocação pronominal. O mesmo estudo aponta que a conjugação de verbos no subjuntivo pode levar ao orgasmo.

Conversa de Bar

janeiro 16, 2009

Faz mais ou menos seis meses que não posto porra nenhuma por aqui. Aparentemente, dúzias de trouxas continuam a acessar o site diariamente (cerca de 50, acreditem), na vã esperança de que novos textos apareçam. Durante um semestre, minimizei a responsabilidade que tenho de tornar o mundo um bom lugar para se viver, deixando de redigir aqui as pequenas anedotas e sentenças de humor sarcástico, desesperança e incorreção humana.

Ontem tive uma longa conversa de bar. Uma daquelas, de sempre, sem rumo, sem objetivos, mas cheia de tiradinhas-relâmpago que causam focos isolados de risos entre os amigos. Muitos me perguntaram a respeito da continuidade deste site – como todo bom blogueiro, usei o subterfúgio da falta de tempo. Falhou.

Nos dias vindouros abordarei novos casos, crônicas e fatos cotidianos os quais me acometeram neste semestre de folga. Ontem mesmo os principais temas abordados incluíram a Palestina (uma praia sem quiosques, onde ninguém usa biquini) e Angola (único país do mundo a possuir maior número de habitantes do que de pernas).

Não fiquem tão esperançosos. Provavelmente meu retorno é apenas um momeno de fraqueza emocional acompanhado de sorrateira necessidade de atenção. Mas enquanto não passam, acessem e façam do mundo um bom lugar para se viver.

Erick passou cinco anos estudando para o Instituto Rio Branco. Passou. O rapaz era inteligentíssimo e formou-se diplomata nos quatro anos propostos. Falava inglês e espanhol quando entrou, ao sair somou o francês, o russo e o mandarim a seu vocabulário. Aos 32 já havia viajado a metade dos países do globo, mas uma coisa ainda não tinha encontrado: o amor de sua vida.

Um belo dia, enquanto chegava com o carro oficial no prédio do Ministério das Relações Exteriores, deu de cara com uma passeata, ou protesto, ou o nome que se queira dar. Algumas dezenas de manifestantes reclamavam da postura pouco solidária dos diplomatas brasileiros em relação a países pobres. “Que povinho bosta”, pensou logo Erick. “Pra quê precisaria um diplomata perder seu tempo em países pobres… foda é negociar com rico, porra”!

Mas com uma coisa não contava. Ao chegar na porta do ministério, viu de canto de olho uma das meninas que estavam na multidão. Foi instantâneo, se apaixonou. Saiu correndo do carro e foi em direção ao tumulto, e disse que levaria um dos membros da manifestação para conversar. Obviamente escolheu a menina que fixara segundos antes.

Telma era o nome. Erick ficou maravilhado, embora tenha ouvido a palavra “burguês” e o vocábulo “neoliberal” dezenas de vezes. Ouviu atenciosamente e quando a menina tinha terminado, mostrou suas anotações e disse que encaminharia diretamente ao ministro o quanto antes.

A menina deu-se por satisfeita e, quando saía da sala, Erick a puxou pelo braço. “Quer sair comigo”? A donzela, atônita, demorou alguns segundo para responder. Ainda que tenha se esforçado, Telma só conseguiu proferir um “tudo bem”. Trocaram telefones.

Erick foi bastante esperto, levando a moça para jantar em um restaurantezinho bastante popular na cidade-satélite de Gama. A garota ficou impressionada que um diplomata pudesse ser tão “do povo”.

Saíram mais algumas vezes e começaram a namorar. Enquanto Telma passava a Erick suas doutrinas de responsabilidade social, ambiental e socialismo, Erick lhe ensinava política, línguas, economia e legislação internacional.

Juntaram trapos dois anos depois e viveram felizes por algum tempo. Até que Telma, já formada em Relações Internacionais, recebeu uma proposta de um instituto norte-americano. Erick a apoiou, dizendo que aceitasse a oportunidade.

Seis meses se passaram sem que Telma voltasse. As notícias rareavam e Erick entrou em depressão. Largou o ministério e decidiu seguir o legado da companheira – meteu-se em todo tipo de ativismo internacional, até que chegou à Anistia Internacional.

Alguns meses de militância depois, foi enviado aos Estados Unidos. Já eram cinco meses sem notícias de Telma. Chegando lá, descobriu que participaria de uma manifestação contra o tratamento dado a imigrantes ilegais mexicanos nos EUA. Em frente a um prédio da Imigração em Washington, ele juntou-se à turba. Em alguns minutos avistou uma limusine chegando e companheiros disseram que os adidos dos EUA para relações com o México estavam todos no carro.

O carro parou e quatro pessoas desceram. De relance, Erick pôde ver, completamente embasbacado, que Telma era uma dessas pessoas. Atropelou meia manifestação para chegar à frente da turba, no raio de visão de Telma.

Quando encontraram olhos, Erick fitou-a emocionado, quase chorando, mas Telma, embora tenha reconhecido, pareceu não despender qualquer expressão. Erick esperou que ela o chamasse, como ele havia feito anos atrás.

Telma segurou um de seus colegas pelo braço e disse algo, em seguida caminhou em direção à multidão. Erick já quase estendia seus braços… mas súbito, Telma parou em frente a um dos policiais que comandava a operação de contenção do movimento. Disse duas ou três palavras ao policial, virou-se e voltou em direção ao prédio da Imigração.

A polícia avançou e reprimiu duramente os manifestantes. Erick voltou ao Brasil mais deprimido do que nunca. Já em casa, deparou com uma única carta na caixa de correio – tinha o selo do governo norte-americano.

Abriu e leu. Em poucas palavras, numa carta que mais parecia um telegrama, Telma pedia desculpas sinceras pelo ocorrido, e dizia que tinha tido o mesmo impulso que Erick tivera anos antes, no entanto, em seu posto, jamais incorreria em tamanha falta de profissionalismo.

Graziela estava de saco cheio da universidade. Não gostava tanto assim de Sociologia e, agora que estava prestes a se formar, começava a se preocupar com a profissão. Que rumos pode tomar um sociólogo, além de dar aulas. Não tinha perspectivas e faltava muito pouco para que mandasse tudo à merda.

Faltava um mês para a formatura e conheceu Roberto, um mirrado professor de história que, apesar de delgado e franzino, era bastante bonito. Um dia resolveu usar seu trabalho de conclusão sobre a Diáspora para aproximar-se dele.

Muito sério, Roberto manteve a compostura, sugeriu uma bibliografia extensa e deu seu telefone, caso Graziela “precisasse de ajuda”. Graziela não precisava de tanta ajuda assim, mas até que precisava de um homem.

As amigas encheram o saco, pois o cara era mesmo mirrado, mas ela acabou ligando assim mesmo. Disse querer ouvir as “teorias” de Roberto sobre a diáspora judaica. Marcaram um encontro… um café.

Assim que ambos chegaram, trocaram uns 15 minutos de papo sobre a história de judeus e hebreus, mas logo Graziela perdeu a paciência e lançou um “professor nunca beija na boca”? O resultado… sim, transaram naquela noite.

O namoro acabou vindo como consequência. As amigas não podiam acreditar, mas Graziela não estava brincando – além de inteligente, Roberto transava bem, muito bem por sinal. Bem, isso acabou sendo motivo mais do que suficiente para o posterior casamento.

Além disso, Graziela terminara a dissertação de mestrado – claro que Roberto ajudou, e como ajudou. Mas Graziela era uma mulher inteligente. Só que com o tempo e a proximidade das profissões, tornou-se inevitável espelhar sua carreira no conhecimento histórico de Roberto.

Mas assim que concluiu suas titulações, Graziela começou a sentir-se desconfortável. Roberto era Império Otomano no café, Khublai Khan no almoço e Normandos no jantar. Papos dos mais triviais como “vou ao supermercado comprar leite, quer alguma coisa” evocavam passagens históricas das mais desconhecidas em Roberto.

A relação foi ficando monótona e logo Graziela tinha um punhado de amantes. Gilberto era um árabe, cuja família tinha ajudado a fundar o emirado de Abu Dhabi. Márcio era um argentino que havia perdido o pai nas Ilhas Malvinas, hoje Falkland. Arnaldo tinha parentes cubanos – moravam perto da Baía dos Porcos, lugar onde os norte-americanos fracassaram numa tentativa de invasão.

Demorou a se tocar – procurava homens com histórias interessantes. Conclusão: continuava precisando de um homem (ou vários), mas havia tomado gosto por História. Alguns meses depois largou Roberto.

Graziela foi morar nos Estados Unidos e tardou a voltar. Semana passada encontrou com as amigas. Escreveu um livro de história contemporânea, com passagens narradas por todos os seus ex-amantes. Nem a fundação do Sultanato de Brunei escapou a seu apetite sexual. Vendeu mais de 80 mil cópias – Graziela era uma celebridade entre mulheres comuns, mas também entre estudiosos.

Mas ainda precisava fazer algo. Estava de volta ao Brasil por esse motivo. Passou no casebre onde atualmente morava Roberto e enfiou um envelope por debaixo da porta. Quando Roberto chegou em casa, viu o envelope. Abriu e encontrou apenas duas coisas, sem sequer uma assinatura: 10 mil dólares em dinheiro e um pedaço de papel com os dizeres “muito obrigada”.

Maria Paula era mineira. Estava chegando em São Paulo para cursar a universidade e não encontrava um bom apartamento para alugar. Só achava boas propostas em bairros muito afastados, a partir dos quais o transporte para a faculdade era extremamente difícil.

Um dia, sentada numa mesa de bar em frente à universidade, conheceu casualmente Inácio. O rapaz já se formara, mas não trabalhava na área. Por um desses acasos do destino, era corretor imobiliário.

Inácio achou um apartamento ótimo para Maria Paula. Aluguel e condomínio baratos, próximo ao metrô e a 15 minutos da faculdade. O estado do imóvel estava excelente. Ficaram amigos os dois.

Pouco tempo depois estavam saindo juntos e, finalmente, quando Maria se formou, os dois resolveram se casar. A menina largou o apê de estudante e foi morar com o marido. A casa de Inácio era ótima e aconchegante, de modo que os dois viveram anos a fio em enorme tranquilidade e felicidade.

Mas como a cidade cresce desenfreadamente, tal qual a família, quando vêm os filhos, os dois começaram a procurar outro imóvel, pois a casa ficara pequena para as crianças, além do que o bairro cresceu demais, e a boa e velha tranquilidade foi para o saco.

Inácio parece misteriosamente acomodado. Não estava procurando demais por outro lugar e criticava todos os imóveis sugeridos por Maria. “Esse é muito frio”; “difícil acesso”; “a pintura está descancando”, e por aí vai.

Passaram-se uns dois meses e, súbito, Inácio tirou um apê da manga. A localização era perfeita, perto do metrô Trianon-MASP. O marido passava o dia elogiando o imóvel, de modo que marcaram um visita no final de semana.

O apartamento era de uma mulher que morava sozinha, mas bem grande. Estava vendendo, pois segundo Inácio, a dona iria se mudar para um outro em Higienópolis. Fazia pós-graduação na FAAP ou algo assim. Maria estranhou o grau de conhecimento de Inácio sobre a antiga proprietária, mas levou em conta que um bom corretor tem de pesquisar a fundo a vida do proprietário do imóvel. Até para conseguir um preço melhor.

Caminharam pelo apartamento, com Inácio mostrando todos os detalhes e o bom estado do imóvel. Falava alegre, como se estivesse mesmo vendendo um apê para Maria. Esse não era o Inácio-marido, era o Inácio-corretor. A desconfiança de Maria foi aumentando.

Chegando ao banheiro, Inácio mostrou o chuveiro, um daqueles bons, o box de vidro temperado e a pia de mármore. Para finalizar, apontou um ganchinho colocado ao lado do espelho, mais ou menos na altura do peito. “Isso aqui é pra colocar a bolsa, quando você estiver se arrumando pra sair ou se maquiando. Eu achei uma ótima idéia”.

Maria não disse mais nada, falou que eles entravam em contato com a imobiliária depois, mas foi embora de cara amarrada, enquanto Inácio insistia que deviam fechar logo o negócio.

Maria foi para casa, enquanto Inácio foi encontrar uns amigos. Na volta, não encontrou nem a esposa nem os filhos em casa. Ligou para a sogra, mas essa disse que a filha não queria conversar. Tempos depois se separaram.

Inácio até hoje não entendeu. Sabia que estava errado, pois tinha uma amante, mas não atinara como a mulher pôde descobrir. Maria passou por questionamentos da mãe, que a apoiou, pois assim que Maria descreveu a cena no imóvel que foram ver, teve a mesma impressão que a filha. Nenhum homem saberia a função do gancho no banheiro… pelo menos nenhum homem que não a estivesse comendo…

Eva sempre fora apaixonada por música clássica. Desde muito pequena, enquanto as amiguinhas se divertiam com hits de rádio de Menudos e Polegar, Eva divertia-se ouvindo Brahms, Mozart e Vivaldi. Não tinha paciência para as músicas atuais e achava, em sua opinião sincera, que a música terminara sua trajetória em meados do século XX.

Daniel era um pianista de relativa fama, que tocava em algumas orquestras eventualmente, como convidado e ganhava a vida em geral tocando em restaurantes e bares badalados.

Os dois se conheceram num piano bar no Itaim, em uma noite bastante chuvosa. Daniel era um músico bastante ousado e volta-e-meia arriscava novos arranjos em compositores clássicos. Eva ficou até o final da noite, depois que as amigas já tinham ido. Estava a pé e a chuva não dava trégua.

Daniel, porque achara a menina bonita e também porque era educado, ofereceu carona assim que sua apresentação terminou. Deixou-a em casa sem gracinhas, mas Eva pediu a ele uma indicação sobre onde faria suas próximas apresentações, alegando que gostara muito de seu estilo. Daniel fez algumas anotações de lugares em um pedaço de papel e o entregou.

Daí por diante, Eva aparecia em todo concerto ou apresentação do pianista. Aos poucos Daniel foi se acostumando e, como na maioria das vezes acabava dando carona para a moça, o romance desatou a rolar.

Por seis meses, encontravam-se nas apresentações do músico e saíam mais tarde, para jantar, conversar, tomar algo e principalmente transar. A coisa demorou a ficar séria, mas quase um ano depois, os dois começavam a traçar planos.

De repente, passados mais dois meses, avisaram as respectivas famílias, organizaram uma pequena festa, juntaram trapos e se casaram. Daniel tocou Chopin no casamento, com um novo arranjo mais alegre que lembrava Vivaldi. Foi perfeito.

Entretanto, assim que começaram a viver juntos, Eva se deu conta de uma terrível realidade: a diferença entre ver um músico se apresentando e um trabalhando. Seis meses de vida a dois se passaram, sem que Eva ouvisse mais uma música sequer.

Chegava em casa à noite, esperando para ouvir alguma peça sensacional do marido, mas não. Tudo o que ouvia eram ensaios e notas dissonantes, enquanto Daniel estava profundamente enclausurado em seu mundo, realizando estudos e compondo arranjos para suas próximas apresentações.

Eva não aguentava mais… algo precisava ser feito. Então, quando estavam prestes a completar um ano de casados, Eva pediu a separação. Daniel não fez impedir e realizaram um divórcio consensual.

Não daria certo mesmo. Agora Eva está sozinha. Não se aproxima de ninguém. Sai somente todas as quintas e sábados, vai às apresentações de Daniel, assiste-as com um sorriso incontido até o final e espera- o oferecer uma carona.

Gilberto fazia milagres com uma agulha. Veja bem, não era costureiro – era alfaiate. Daqueles das antigas, que faziam ternos para políticos a olho, com uma fita métrica e alguns alfinetes, nada de rabiscos e desenhos.

Fabíola era filha de vereador. Seu pai, Jucélio do Carmo, já integrava a câmara da cidade pela quarta vez consecutiva e como engordara muito desde então, pediu encarecidamente a sua filha que levasse os ternos para alargar no Gilberto.

A menina tocou a campainha do alfaiate, que abriu a porta da frente, bem distante da rua, e pediu que entrasse. Ela subiu as escadinhas segurando os ternos e adentrou a sala do rapaz, que trabalhava ajustando um vestido que parecia ser de noite.

Fabíola era uma menina linda e Gilberto não tardou a perceber. Como ele também não era de se jogar fora, ao primeiro entrecruzar dos olhos de ambos, Gilberto deixou as agulhas caírem e Fabíola fez o mesmo com o terno.

“Vim pedir… os ternos… do meu pai. Ele quer que alargue…”, Gilberto recolheu os ternos no chão e largou em cima de uma mesa. Perguntou a ela se aceitava café. Claro, mais uma semana e estavam namorando.

Quando Gilberto foi entregar o terno, já aproveitou a viagem e pediu a Jucélio a mão da filha. Este fez alguns minutos de suspense, mas aceitou. Na verdade, lhe agradava a idéia de ser alguém conhecido e de confiança a casar com a filha. Assim sendo, anuiu.

Casaram. Foi maravilhoso – Gilberto fez o próprio terno e tudo mais. Para a mulher, o casamento era um sonho. Imagine – um homem que faz roupas para ela, não era maravilhoso? Bem…

Fabíola demorou a perceber. Porém, passados dois anos, notou que todas as vezes nas quais esbarrava com uma amiga, essa lhe perguntava se havia engordado ou se estava grávida.

Um inferno, por mais magra que estivesse e por mais regimes que resolvesse fazer, o resultado era sempre o mesmo. Estava gorda. Demorou alguns meses e várias piadas, mas um dia Fabíola teve um estalo.

Pegou o primeiro vestido que viu no armário, enfiou na bolsa e levou a uma costureira de bairro. Pediu para ajustar. A senhora tirou as medidas e deu o preço. Uma semana depois, Fabíola pegou o vestido, puxou o telefone e marcou um chope com duas velhas amigas.

Chegou no bar com o vestido. Sentou, cumprimentou as amigas, pediu um chope e jogou algum tempo de conversa fora. Até que veio a surpresa, de uma de suas amigas: “nossa menina, você emagreceu”?

A outra companheira deu o mesmo veredito. Fabíola esbanjou um sorriso satisfeito e continuou a conversa. Chegando em casa de madrugada, acordou o marido. Perguntou para ele se estava gorda. A resposta foi mais do que esperada: “não, meu amor, mas você precisa de um ajustezinho no vestido”.

Maldito ciúme. Gilberto passara os últimos dois anos e meio ajustando vestidos para que a mulher parecesse gorda. Sim, era um exímio alfaiate, mas um filho da puta ainda maior. Fabíola fez suas trouxas e puxou o carro. Chegando em casa, contou tudo à mãe, e obvimente recebeu imenso apoio.

Não ouviram mais falar de Gilberto. Dizem as más línguas que casou com uma enfermeira gordinha. Jucélio passou a comprar ternos na Armani. E Fabíola, bem, só faz vestidos com costureiro agora. Viado a-do-ra mulher magra.

Marcela era uma mulher simples. Desde os dezesseis trabalhava no mesmo escritório de contabilidade. Tanto assim que quando fez 26 casou-se com um dos contadores da firma. Foi um casamento sem luxo, mas tradicional, tudo feito na ponta do lápis.

Ernesto era um bom homem. Trabalhador, metódico e bem afeiçoado à família. Um “homem à moda antiga”, como dizem por aí. Tiveram dois filhos e foram morar perto da Freguesia do Ó, num bom apartamento. Podiam ter comprado um na Vila Mariana, mas o preço não valia a pena.

Marcela parou de trabalhar. Todos os meses Ernesto separava o dinheiro das compras, fazendo a correção pela inflação a cada três meses. “O segredo é acompanhar o custo de vida”, dizia, orgulhoso.

A esposa foi aprendendo aos poucos a fazer contas, controlar o dinheiro e chegava a adivinhar quanto Ernesto ainda tinha na conta, quanto daria no próximo mês, etc.

Já iam dez anos casados e Marcela começou a agir de modo estranho. Não conversava. Sempre que Ernesto chegava em casa, ela estava entretida com um lápis e um caderno. O marido perguntava e ela tergiversava, dizendo estar “fazendo umas contas”.

O tempo passou e Marcela seguiu com sua mania. Ernesto se acostumou, e raramente perguntava algo. Continuou com sua rotina, dando o dinheiro mensalmente a mulher, corrigindo, etc.

Um belo dia, quando Ernesto chegava, a mulher o recebeu com o caderno na mão, cara enfezada e apenas bradou: “senta aí, quero conversar contigo”. Ernesto, atônito, resolveu obedecer, e sentou-se à mesa da sala.

Marcela atirou o caderno à frente do marido e ficou parada, esperando uma reação. Ernesto olhou… viu algumas anotações sobre índices de inflação, outras sobre juros de poupança e aplicações financeiras, outras de recálculos de financiamentos e compras a prazo. Pareceu entender, mas fez a pergunta “migué”: “o que significa isso, mulher”?

“Dez anos, Ernesto, dez anos… faça aí suas contas, faça”! O marido, ainda perplexo, insistiu: “não estou entendendo merda nenhuma, Marcela. O que você pretende com esse caderno e esses rabiscos aqui”?

A mulher bufou, sentou-se na cadeira em frente a Ernesto e começou: “simples, meu querido, eu aprendi a fazer contas. Como ninguém, diga-se de passagem. Por isso mesmo encontrei alguns equívocos nas suas”. Ernesto ia perguntando “que equívocos”, mas não teve muito tempo para fazê-lo.

“Quantas putas você comeu com R$ 30.000,00, seu filho da puta? Quantas”?

Ernesto não disse uma única palavra. Levantou-se e foi até quarto, pegando uma mala de viagem. Colocou a maioria das roupas, despediu-se dos filhos, pegou a chave do carro e foi embora. Juntou depois com uma jornalista – linda, bem-sucedida, mas não sabe somar dois com dois. Marcela está rica. Formou-se faz cinco anos e hoje presta consultoria.