Felício era um pintor de primeira, não apenas um pedreiro com “nome bonito”, mas entendia da coisa de verdade. Dominava técnicas de pintura e mistura de tintas, diferentes acabamentos e fazia milagres com as cagadas que seus colegas de obra deixavam para a fase de entrega do imóvel.

Era minimamente estudado e muitos perguntavam porque não fazia uma universidade, ou ia “buscar algo melhor”. A resposta era sempre um franzido de testa – dizia que estava bem como pintor, e que não queria ser só mais um formado implorando emprego por aí. Com a economia aquecida, não faltava serviço para Felício e o homem tirava uma bela grana. Organizado, limpo e competente – todo empreiteiro queria um funcionário assim.

Um dia, passando pelo boteco do Calixto, a duas quadras de seu humilde sobrado no Cangaíba, viu uma menina de saia, que discutia com um dos pinguços locais. Não teve dúvida: entrou gritando, meteu a mão no peito do bêbado e empurrou, enxotando o pudim de pinga. Perguntou à menina se queria companhia até em casa, e ela anuiu. Marina também morava a poucas quadras dali.

Quase todo dia os dois se visitavam. Marina ajudava uma costureira do bairro e, invariavelmente, estava pelas redondezas. Felício começou a acelerar o serviço para ter com a menina mais cedo todos os dias e acompanhá-la até em casa.

Os anos se passaram. Pegação, namoro, caso, noivado… até que um dia Felício tomou coragem, pediu a mão da menina e marcaram data para o casório. Faltando seis meses para a cerimônia, os dois já moravam juntos, e Marina começou a ter irritações e brotoejas por todo o corpo. “É a tinta… alergia”, diagnosticou a costureira com quem a garota trabalhava.

Felício, que já era limpo, passou a ser neurótico. Saía da obra e lavava o corpo com tinner até tirar a última molécula de tinta do corpo. Sempre sobrava um pouco, e Marina tornava a pipocar. Alguns meses se passaram, médicos, conselhos, mas ninguém achava jeito de parar a alergia.

Acabaram se separando, os dois. Em meio a muito choro e tristeza, chegaram juntos à conclusão de que não daria certo. Cada um seguiu para seu canto e o tempo passou.

Dois anos depois, Felício soube que Marina havia casado – com um pintor. O rapaz quase se matou, mas a curiosidade era maior que a depressão, e resolveu investigar. Foi ter com a costureira, que já não empregava mais Marina.

A costureira contou que Marina conhecera Adriano – às vezes pedreiro, às vezes pintor, um desses “faz-tudo”. Na verdade não tinha a mão muito boa, era relaxado e só conseguia serviço por intermédio de colegas e gatos de obra. Chegava todos os dias sujo de tinta, cal, cimento e o que mais houvesse na obra.

Felício falou à costureira a respeito da alergia, aliás, diagnosticada por ela. A velhota riu-se e limitou-se a sentenciar: “que alergia a tinta que nada – era o tinner. Aprende isso, meu filho, mulher gosta mesmo é de homem sujo”. Marina ainda mora no bairro. Quando se aproxima do boteco do Calixto, a rapaziada faz as apostas: de que cor a menina vai vir suja hoje?

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Josias abriu cuidadosamente a porta da cozinha. Assim que escancarou a porta-camarão que separava o cômodo da ampla sala de jantar sentiu um vento gelado nas canelas e chegou até mesmo a ouvir um zunido. A cozinha parecia ter sido levada por uma quadrilha daquelas que assaltam caminhões das Casas Bahia. Sem fogão, sem armários, sem nenhum mobiliário, sem mesa, sem gaveteiros, sem panelas e até mesmo sem cortinas. Apenas, como se fora um monolito medieval, a tal geladeira em inox de porta dupla – e claro, com seu dispenser especial para água e gelo.

A esposa, Fátima, vinha enchendo o saco para que ele comprasse a tal geladeira desde que começaram a organizar a mudança. De nada adiantava Josias argumentar a respeito do orçamento, que era curto e tudo mais. Fátima tinha certeza que na base das prestações “dava pra segurar”. Dava o cacete, mas o fato é que Josias, além de meio pau-mandado, tinha pouca paciência. Um dia ficou puto, botou todos os móveis e utensílios da cozinha no prego e deu entrada na merda da geladeira.

Como mulher satisfeita só existe em filme, assim que chegaram na casa nova, com a cozinha virando o “quarto de bebê da geladeira”, Fátima desatou a reclamar. Precisava de fogão, armário, gaveteiro e a puta que pariu. De novo, a história do orçamento não funcionou e dá-lhe Josias nas Casas André Luiz, procurar de segunda-mão o que havia botado no prego de primeira.

Gastou uns 500 contos, mas conseguiu quase tudo o que queria. Descolou um carreto, enfiou tudo na caçamba e foi para casa descarregar. Como além de pau-mandado e sem paciência Josias também não tinha muitos neurônios, resolveu amarrar as tralhas com um cabo de aço.

Chegando em casa, começaram ele e o cara do carreto a descer tudo. Quando chegou no fogão, que ia amarrado com o cabo de aço, o sujeito do carreto deixou escorregar e cair no chão. O problema seria só o fogão, se o idiota do Josias não estivesse com o cabo atado ao pulso. O peso do fogão desabando fez o cabo correr em seu pulso, e o sangue jorrou para todo lado.

O coitado foi para o Hospital das Clínicas, onde teve de amputar a mão direita. Ficou só o toquinho. Chegou em casa no dia seguinte, todo fodido, sem dormir, com a mão amputada e uma sede do cacete. Foi para a cozinha, pegou um copo e foi em direção à geladeira. Pôs o copo em cima da pia e abriu a porta – praguejou quando viu que não conseguiria manusear a garrafa para encher o copo – e foi aí que lembrou da merda do dispenser. Pressionou o copo contra a alavanca e o encheu de água gelada.

Quando dava os primeiros goles, Fátima entrou na cozinha. Olhou para o marido e limitou-se a comentar: “eu não disse que precisávamos dessa geladeira”. Josias passou o resto do dia descendo bordoada na mulher, com o toquinho mesmo.

Mande sua sugestão para o novo tema do “Desafio do Literato”. Mande um objeto, móvel, figura, qualquer coisa o mais detalhadamente e com mais descrição quanto possível e leia o próximo conto. Sugestões para lipsworld@hotmail.com

Uns dez ou onze anos atrás, quando comecei e obviamente não prossegui no curso de Engenharia Elétrica, conheci uma das mais fantásticas personagens de toda minha vida. O japonês gordo, com cara de acabado e sempre com a fumaça do cigarro cobrindo a cara era um tipo, uma caricatura, mas sua história não parava por aí. Não julgo necessário citar nomes.

Cinco anos após abandonar o curso, tive notícias de que o japonês continuava a passar suas tardes e noites fechado no diretório acadêmico da universidade, jogando intermináveis partidas de truco. O cigarro, à boca, cobria a cara de fumaça, e seus dedos, sempre tortos, seguravam as cartas tal como uma preá com uma semente de girassol.

Anos se passaram até que alguém descobrisse onde residia lendária figura. Nunca alguém pisou no apartamento da figura e, como o tempo passasse, decerto alguém um dia iria parar ali. Pois não aconteceu. Em dez anos, ninguém o visitou e ele não convidou a um só colega para que fosse à sua residência. “Moro perto”, dizia ele, e imaginávamos quão perto ele moraria, pois da faculdade não saía jamais.

Até que um dia, o avistaram, enquanto passando de carro, entrando em um salão de cabeleireiro. Resolveram esperar. Por mais de duas horas meus colegas pararam num ba ao lado, mas nada do japonês sair. Desistiram.

Contudo, persistia a dúvida. O que fora o japonês fazer no salão, já que no dia seguinte trazia o mesmo penteado de sempre. Pior – o salão ficava próximo a um ponto de travestis e ao mesmo tempo ao lado de um posto policial. Pois bem, decidimos que o seguiríamos naquela noite.

Bom, a faculdade fechou às meia-noite, e dali saiu matreiro o rechonchudo oriental, rumo ao salão novamente. Esperamos por horas, e nada ocorreu. Repetimos a receita por três dias seguidos. Nos três, o japonês entrou, mas não saiu.

Duas semanas depois, tentamos novamente. Nada. Irritado, um de nossos colegas levantou do bar e foi em direção ao salão. O seguimos. Chegando ali, uma bicha nos recebeu, mas passamos direto, de solavanco.

No fundo do salão, numa parte mais escura, estava ali o japonês. Sentado numa cadeira, dormindo. Irritado, meu colega o acordou – nessa altura já era mais de seis da manhã. O oriental acordou assustado, olhou o relógio e começou a trocar de roupa.

Indignados, perguntamos o que estava acontecendo. “Eu disse que morava perto”, comentou o nipônico. “Mas num salão de cabeleireiro?”, gritamos em uníssono. “O corte aqui é R$ 5,00… o motel mais vagabundo da região, R$ 10,00 por noite… e o aluguel mais barato R$ 300 por mês… japonês pode ser doido, mas sabe fazer conta”, e dizendo isso, botou a mochila nas costas e seguiu rumo à faculdade, sem o corte de cabelo.

Não raro impressiono-me com o cotidiano das mulheres, mas talvez nada seja mais torturante e medieval do que o processo da depilação em suas várias vertentes. Se me perguntassem a respeito das origens do processo, minha memória traria à tona certamente a caça às bruxas protagonizada pela Inquisição Espanhola (não por acaso em Portugal, Espanha e França estão as mulheres mais bigodudas e dotadas de pêlos nas axilas de todo o mundo, eu diria).

Nessa época, a cera quente para extrair os pêlos das pernas e buço era tido como a derradeira tortura antes da fogueira. “Morte rápida” era ser queimado, enforcado ou empalado. Lento mesmo era ter de ser depilado antes disso tudo.

O advento da Gilette tornou o processo um pouco menos escabrosos, mas com uma desvantagem – as mulheres desde então JAMAIS aprenderam a raspar a favor, e não contra o fio, o que faz com que sintam coceiras indizíveis após o processo estar completo. Com essa desvantagem, regressam sem titubear ao medieval processo – “com cera quente é bem melhor!” – costumam dizer.

Com o objetivo de, psicologicamente, tornar o processo menos doloroso, inventaram ceras de depilação com todas as cores, aromas, odores e sabores – lavanda, babosa e recentemente até mesmo ‘frutas vermelhas’. Novamente me vem à cabeça a cena da Inquisição Espanhola, ‘aliviando’ o sofrimento de um condenado atirando um preparado de lavanda do pobre diabo enquanto esse queima na cruz. Refrescante.

O fato é que agradeço a disposição das mulheres em recorrer a mais esse sofrimento para satisfazer à nossa classe, no entanto espero que corram mais cem anos antes que a moda chegue ao lado masculino – embora eu já conheça um par de amigos dispostos a se submeter aos terrores da Inquisição.

Gabriel era um cara realmente azarado. Faltava a entrevistas de emprego por que o metrô ou o ônibus quebraram, as mulheres que chamava para sair sempre conheciam o homem da vida delas logo em seguida e sempre que escorregava havia um prego ou cacos de vidro para completar o serviço.

Um dia, Gabriel ouvir falar de uma tenda, ali para os lados do Brás, a qual prometia realizar pedidos e fazer milagres. Ainda que não fosse supersticioso, chegou à conclusão de que não perderia absolutamente nada tentando. Tomou um ônibus, que quebrou no caminho, e até lá foi ter.

Ao adentrar a tenda, antes que pudesse falar qualquer coisa, viu ao fundo uma velha cigana, a qual imediatamente lhe dirigiu a palavra. “Em busca de sorte você vem, meu filho. Sente-se e veremos o que podemos fazer”. Gabriel se acomodou em uma almofada, enquanto a anciã se aproximava.

Sem dizer mais palavra sequer, a velha abriu um baú, de onde tirou um horrível anel. Uma pedra vermelha incrustada na peça media mais de 5cm e os adornos na circuferência eram péssimos. Olhou para o rapaz e disse: “são cinco reais para cada vez que lhe dê sorte”, e lhe estendeu o anel.

Gabriel pensou em perguntar como iria a velha cobrar tal dívida, sem saber quando o anel iria ou não dar-lhe sorte. Mas desistiu – agradeceu, vestiu o anel, e saiu caminhando.

Nada mudou na semana seguinte. Gabriel continuava desempregado, não via mulher nem de perto e já havia contundido o cotovelo e tomado cinco pontos no braço devido a uma queda. O anel da cigana obviamente não havia funcionado.

Na semana seguinte, vestiu o anel para testá-lo um vez mais. Nada – tudo continuava dando errado e agora, além de tudo, o anel lhe causara uma terrível dermatite nos dedos. Resolveu que ia devolver o anel à maldita velha.

Chegando ao Brás, nada da tenda. Perguntava a ambulantes e lojistas, mas ninguém tinha notícias da velha. Rodou o bairro inteiro, até que foi parado por uma jovem. “Você está usando o anel da minha mãe… onde o conseguiu”. Sem entender nada, Gabriel contou à jovem sua história. Sem graça, devolveu o anel à jovem.

A menina o vestiu e chamou Gabriel para tomar um café. Estava feliz por recuperar o pertence de sua mãe. Passados cinco minutos, a jovem encontrou na sarjeta uma nota de 100 reais. Gabriel olhou estupefacto, mas julgou ser uma coincidência.

No café, mal se sentaram, e a garçonete informou-os que não seriam cobrados por nada – a menina era a centésima cliente do dia e havia uma promoção. Tudo de graça. Gabriel começava a se irritar – não é que o maldito anel dava sorte mesmo!

Terminou o café com bolo de chocolate na faixa e chamou a jovem para caminhar. Já anoitecia no Brás e os dois iam em direção ao metrô. Quando passavam por um trecho de rua mais escuro, Gabriel aproveitou a chance. Atirou  jovem ao chão, arrancou-lhe o anel e saiu correndo. Na pressa, mal pôde ver o ônibus que virava a esquina. Foi pego em cheio.

Agora Gabriel jazia no asfalto, ensanguentado e alquebrado, respirando com dificuldade. Os transeuntes se aproximavam e formavam um círculo à sua volta. Não podia ver e perceber seu estado, mas ouvia os observadores dizerem coisas como “esse já era”, “coitado, tão novo”, etc.

Nesse momento, sentiu o anel sair de seus dedos e uma mão entrar-lhe no bolso. Olhou com dificuldade para o lado e viu a velha cigana, com um expressão de pesar. A velha lhe tirou cinco reais e o anel e foi embora – em seu último suspiro, a Gabriel ocorreu: a cigana lhe dissera que o anel traria sorte, mas nunca lhe disse que seria em suas mãos. E ali faleceu.

Marcela era uma mulher simples. Desde os dezesseis trabalhava no mesmo escritório de contabilidade. Tanto assim que quando fez 26 casou-se com um dos contadores da firma. Foi um casamento sem luxo, mas tradicional, tudo feito na ponta do lápis.

Ernesto era um bom homem. Trabalhador, metódico e bem afeiçoado à família. Um “homem à moda antiga”, como dizem por aí. Tiveram dois filhos e foram morar perto da Freguesia do Ó, num bom apartamento. Podiam ter comprado um na Vila Mariana, mas o preço não valia a pena.

Marcela parou de trabalhar. Todos os meses Ernesto separava o dinheiro das compras, fazendo a correção pela inflação a cada três meses. “O segredo é acompanhar o custo de vida”, dizia, orgulhoso.

A esposa foi aprendendo aos poucos a fazer contas, controlar o dinheiro e chegava a adivinhar quanto Ernesto ainda tinha na conta, quanto daria no próximo mês, etc.

Já iam dez anos casados e Marcela começou a agir de modo estranho. Não conversava. Sempre que Ernesto chegava em casa, ela estava entretida com um lápis e um caderno. O marido perguntava e ela tergiversava, dizendo estar “fazendo umas contas”.

O tempo passou e Marcela seguiu com sua mania. Ernesto se acostumou, e raramente perguntava algo. Continuou com sua rotina, dando o dinheiro mensalmente a mulher, corrigindo, etc.

Um belo dia, quando Ernesto chegava, a mulher o recebeu com o caderno na mão, cara enfezada e apenas bradou: “senta aí, quero conversar contigo”. Ernesto, atônito, resolveu obedecer, e sentou-se à mesa da sala.

Marcela atirou o caderno à frente do marido e ficou parada, esperando uma reação. Ernesto olhou… viu algumas anotações sobre índices de inflação, outras sobre juros de poupança e aplicações financeiras, outras de recálculos de financiamentos e compras a prazo. Pareceu entender, mas fez a pergunta “migué”: “o que significa isso, mulher”?

“Dez anos, Ernesto, dez anos… faça aí suas contas, faça”! O marido, ainda perplexo, insistiu: “não estou entendendo merda nenhuma, Marcela. O que você pretende com esse caderno e esses rabiscos aqui”?

A mulher bufou, sentou-se na cadeira em frente a Ernesto e começou: “simples, meu querido, eu aprendi a fazer contas. Como ninguém, diga-se de passagem. Por isso mesmo encontrei alguns equívocos nas suas”. Ernesto ia perguntando “que equívocos”, mas não teve muito tempo para fazê-lo.

“Quantas putas você comeu com R$ 30.000,00, seu filho da puta? Quantas”?

Ernesto não disse uma única palavra. Levantou-se e foi até quarto, pegando uma mala de viagem. Colocou a maioria das roupas, despediu-se dos filhos, pegou a chave do carro e foi embora. Juntou depois com uma jornalista – linda, bem-sucedida, mas não sabe somar dois com dois. Marcela está rica. Formou-se faz cinco anos e hoje presta consultoria.

Cavalcante (leia a saga) e Tonhão rodavam tranquilamente com a viatura pela Avenida Robert Kennedy, próximo à Represa do Guarapiranga. Cavalcante ouvia Ray Charles no rádio, enquanto Tonhão estava alheio ao mundo, com os fones de seu MP3 player.

Nada acontecera durante toda a tarde e Cavalcante, alegre e audaz, olhava para as calçadas como uma águia atrás de um coelho, enquanto Tonhão quase pegava no sono.

Súbito, ouviram um barulho de vidro quebrando, em seguida um carro arrancado. Não havia dúvidas, estavam frente a frente com um furto de veículo. Cavalcante arrancou com o carro e fez a volta, indo ao encalço do ladrão. Tonhão assustou-se e despertou.

Cavalcante dirigia como um piloto de provas – estava irreconhecível. Cortava todos os carros, sem perder o rastro do elemento que se evadia. Tonhão olhou de soslaio e viu que o tanque estava cheio, não perderiam o fugitivo. Cavalcante guiava pra caralho!

Cavalcante agora pisava a 130km/h na Marginal, chegando bem próximo ao gatuno, que pegou a saída para a local e entrou rumo à Avenida dos Bandeirantes. Cavalcante entrou também, a milhão, bem na cola do fugitivo.

Quando estava prestes a pegar o fugitivo, Cavalcante puxou repentinamente o freio de mão. O carro rodou, quase bateu em outros veículos, e bateria, não fosse pela precisão de Cavalcante, e em seguida parou, em cima da faixa de pedestres.

O gatuno passou direto voando e em pouco tempo sumiu de vista. “Caralho, Cavalcante!!! Que porra você está fazendo?”, perguntou Tonhão, gritando. Cavalcante pediu desculpas e apontou para o lado esquerdo da avenida, onde um senhor terminava de atravessar a rua. “Eu vi esse senhor e resolvi parar”.

 Foi o suficiente. Sem dizer palavra alguma, Tonhão desceu do carro e acenou para um táxi. Precisava de férias.

Desde que Cavalcante (leia toda a saga) fora transferido para a 102ª DP, sua vida se tornou recheada de aventuras, o que faz lembrar o episódio do roubo do pasteleiro na feira. Era uma quinta-feira de manhã e havia uma feira de rua bem próximo à delegacia.

Tonhão chegou na DP com uma fome do cacete e, por mais que Cavalcante insistisse em fazer os “preparos” para a ronda vespertina, foi convencido a passar antes na feira, para comer um pastel.

Chegaram na barraca do senhor Fujioka. Tonhão pediu logo um pastel “especial”, que vem com tudo – carne, queijo, calabreza, tomate, bobó de camarão, ravioli, dobradinha e o caralho. Além disso, ganha-se um pastel de brinde. Já Cavalcante, tradicional, recorreu a um pastel de queijo: “pra mim, pastel que é pastel é de carne ou de queijo”. Tonhão, de boca cheia, suspirou.

A barraca de Fujioka era grande e havia atrás uma Kombi, onde eram guardados os pastéis prontos para fritar e também a sangria da grana. Não passou muito tempo e, enquanto Cavalcante investigava o vinagrete com cara de enjoado, ouviram-se gritos vindos da Lombi. “Assalto, assalto”, dizia a mulher, a qual podia ser filha mais velha, prima, tia, irmã ou esposa de Fujioka.

Tonhão e Cavalcante sacaram os revólveres e correram atrás do elemento, que ia se esgueirando entre as pessoas e barracas. Tonhão gritava para que todos se jogassem ao chão – ele percebera a 380 na mão do meliante.

Quando o cenário abriu e Tonhão percebeu que o elemento engatilhara a arma, apontou e mirou nas pernas do bandido, mas seu revólver estalou e nada. “Cavalcante, estou sem bala. Atira na perna! Atira na perna”!

Cavalcante mirou e disparou. Errou. Mirou uma mais, mas novamente errou. Decidiu que agora acertaria, enquanto o ladrão fazia a curva na rua da feira, passando em frente a uma banca de abacaxis. Cavalcante sentou o dedo – foram 11 tiros.

Embora nenhum deles tenha acertado as pernas do gatuno, os disparos rolaram os abacaxis da banca, espalhando-os pelo chão. O ladrão pisou num deles e escorregou em grande estilo, caindo em cima do tablado de outra barraca e se fodendo todo. Tonhão não perdeu a corrida e, bom lutador que era, pulou em cima do cara e o imobilizou. Em 15 segundos o bandido estava algemado.

Enquanto ajeitava o bandido para levá-lo ao distrito, Cavalcante pegava um ou dois dos abacaxis alvejados. Tonhão bradou: “que porra você está fazendo, Cavalcante”?

“Estou levando alguns desses abacaxis. Como lembrança de minha primeira prisão neste distrito”. Tonhão pediu ao companheiro que segurasse o bandido algemado, tirou vinte mangos do bolso e foi até a banquinha de ervas. “Me vê um quilo de arruda, por gentileza”.

Norma Araújo é divorciada. Foi casada durante 17 anos – hoje está com 42. Há pouco mais de um ano separou-se. Não aguentou. Vive atualmente com seus dois filhos num apartamento na Caio Prado.

Norma foi casada com Jonas, um veterinário da Zona Sul. Simpático, amistoso, atencioso, carinhoso, generoso, amigo, bom pai e marido responsável. No entanto, veterinário dedicado. Trabalhava noite e dia para sustentar a família, mas também por amor à profissão.

Norma nunca gostou de animais – era alérgica a gatos e achava que cachorros davam trabalho, além de fazer sujeira demais. Apaixonou-se por Jonas, mas os dois nunca tiveram nenhum bicho de estimação. Jonas respeitava.

No começo, Jonas chegava com o avental forrado de pelos, saliva e toda a sorte de fluídos caninos e de outras espécies. Entrava debaixo do chuveiro e se lavava como um doente, para ir deitar-se com a esposa em seguida.

Deu certo por mais de dez anos. Até que um dia, quando Jonas deitou-se, houve um estalo no olfato de Norma. Explico. Leitor, sabe aquela tia da sua esposa que sempre teve cachorro, mas você nunca conheceu antes. Pois é, qual foi a primeira coisa que você reparou quando estacionou na garagem da casa da velha: “é, meu bem, sua tia tem cachorro, não”?

Claro que sim. Com o tempo, tudo na casa cheira a cachorro. Daquele dia em diante, Norma deu-se conta – seu marido havia estado com animais tempo o suficiente para que adquirisse, peremptoriamente, seu cheiro.

Jonas era como a casa da tia Gumercinda, ou como um pet-shop, ou como um centro de zoonoses, ou ainda uma feira de exposição de animais. Na cabeça de Norma, dali em diante, ela transava com um rottweiler, um doberman, pastor-alemão, husky ou mesmo pequinês. Seu marido era um cachorro.

Aguentou um par de anos. Chorava como uma criança, rezando para que o marido obtivesse sucesso em seu banho, exterminando o maldito odor canino. Nada. Ir no shopping com Jonas soava como levar o cachorro para passear.

O pesadelo tinha de acabar. Norma amava Jonas, mas odiava cachorros. Então se decidiu, saiu de casa, levou os filhos, preparou a papelada e pediu o divórcio.

Jonas agora namora uma veterinária. Recém-formada, contratou a moça para trabalhar em sua clínica. Norma? Ainda sente saudades do marido, mas ainda crê que tomou a decisão certa. Vive agora só, com seus dois filhos, e o poodle que comprou na feira de animais.

Sacanagem. Mudaram o Cavalcante de Distrito. Agora o coitado trabalha pras bandas do Guarapiranga, na 102ª DP. Nada mais do glamour do Centro e de seus passeios pelas ruas bucólicas da Sé, República e imediações.

Marçal saiu ganhando – ficou para trás. Cavalcante teria de achar outro parceiro para suas rondas. Contudo, já viera parar ali com certa fama, e assim, mais um vez, o troço foi decidido na base do bolão. No final, o bolão não valeu nada, puseram com ele o investigador Tonhão, aquele mesmo, que tinha fodido uma viatura na parede de um puteiro da Avenida Santo Amaro e deixou no prego. O delegado aliviou o conserto do carro, mas agora, que precisava de um “favorzinho”, Tonhão rodou gostoso.

Primeiro dia de batente de Cavalcante – calça social, camisa de linho, terno no ombro e sapato brilhando. Os outros investigadores já botaram a mão na cabeça, “esse vai dar trabalho”. Chamou o Tonhão, pois já o haviam comunicado sobre a parceria. Para facilitar, o delegado deu a Cavalcante um turno vespertino. Ladrão que é ladrão rouba ou na ida, de manhã, ou na volta da “correria”, de noite. São poucas as ocorrências na parte da tarde, tirando alguns furtos e uns poucos roubos.

Tonhão aliviou, tentou ser simpático e puxou assunto sobre o trabalho de Cavalcante no Centro. Cavalcante contou várias histórias – uma mais trivial que a outra. Tonhão, repetindo o antigo parceiro Marçal, calou a boca e acendeu um cigarro.

Foi uma tarde tranquila. Uma tentativa de furto e rapidamente o meliante foi pego por Tonhão, que chamou a PM para efetuar o transporte do detido. Tonhão era policial dos bons, malandro, mas destemido. Não deixava barato, mas fazia o trabalho.

Voltaram à delegacia, cumprimentaram o delegado e foram cada um para sua casa. Cavalcante chegou feliz em casa… talvez os ares tranquilos da periferia fizessem bem a ele. Já não era novo e tinha que cuidar da saúde.

De manhã, recebe uma ligação do delegado. Roubo, mão armada, três elementos, levaram um carregamento inteiro das Casas Bahia, com carreta e tudo. O motorista não sabia mais do que isso. O delegado disse a Cavalcante que ele e Tonhão tinham que “achar” o caminhão.

Cavalcante desligou. Era uma difícil missão – “achar” o caminhão. Mas era seu trabalho e o faria da melhor maneira possível. Botou o terno e foi para o distrito encontrar com Tonhão.

Chegando ao distrito, a surpresa. Já haviam localizado o caminhão. Como a polícia hoje é aparelhada e competente, pensou logo o Cavalcante. O delegado deixou a recuperação na incumbência dos dois.

Quando chegaram ao caminhão, abandonado perto de uma padaria na Vila Natal, verificaram que faltava cerca de metade da carga. Cavalcante achou estranho, mas Tonhão logo explicou: “eles levam o que podem no braço até chegarmos, normal”.

Pois bem. Junto com a PM, levaram de volta o caminhão. No dia seguinte, ao chegar na delegacia, Cavalcante encontrou alguma algazarra, enquanto policiais saíam com caixas nas mãos. O delegado estava distribuindo as caixas. Sem graça, Cavalcante se aproximou e o delegado lançou: “aí, Cavalcante, aparelhos de DVD, pega um para ti, rapaz”.

Cavalcante, sem jeito e com expressão de agradecido, logo respondeu: “desculpe, seu delegado, mas não posso aceitar o presente. Comecei só faz dois dias e além disso, sabe como é, sou das antigas e só com meu videocassete já tropeço que é uma beleza”. Correu para a ronda, imaginando como eram desprendidos os delegados de hoje.